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JOELHO
DE PORCO SÃO PAULO 1554/HOJE, CLÁSSICO ALÉM ESTIGMAS
por Roberto Iwai Durante a década
de 70, o clima sereno e hippie ia se distanciando das vidas das pessoas,
cuja década passada trouxe momentos de agradável liberdade
e sem limite ou fronteiras. No Brasil, a ditadura ainda se mantinha firme,
e conseguira calar o último movimento comportamental relevante
da década de 60: a tropicália.
Com isso, bandas com temáticas diversas surgiram durante os anos 70, iniciando um hibridismo musical sem fronteiras no Brasil. Surgiam assim importantes movimentos em solo nacional, como o rock rural, os mineiros do Clube da Esquina, e claro, a invasão total do progressivo, aonde quase todas as bandas sessentistas pegaram carona. Mas se havia a mistura de roça com rock de Sá, Rodrix & Guarabyra, a junção de Beatles com MPB de Lô Borges, Milton Nascimento e cia., ou o progressivo de grupos como o Som Nosso de Cada Dia, a mais roqueira Casa das Máquinas, ou os próprios Mutantes, havia ainda, e assim ainda poderíamos apontar uma grande banda antes do advento da disco music, o Joelho de Porco. O Joelho de Porco era capítulo à parte no cenário rock da época. Tinham em sua sonoridade o mais básico argumento do rock’n’roll, em especial no rock de bandas como Kinks ou Rolling Stones, podando qualquer viagem canhestra progressiva, viola enluarada, ou trens azuis. Isso claro, quando esse não era usada para espontânea e bel alfinetada. E muito se é lembrado da banda exatamente pela sua irreverência. O que muitas vezes é mostrada como "banda palhaça". O que não é verdade. Muito mais intenso do que isso, era a acidez braba em suas letras, e também o que talvez muitas pessoas escolham ignorar inconscientemente justamente pela grande fatia de carisma que tal humor ocupa nas músicas do Joelho: a incrível banda em si por detrás das palavras. Deixando para a posteridade um dos maiores e mais importantes clássicos do rock nacional e do rock dos anos 70, São Paulo 1554/Hoje, lançado em 73, é um belo apanhado de dez músicas onde todas, exatamente todas e cada uma, é uma peça sólida de um rock fervoroso e pulsante. O maior sucesso de São Paulo 1554/Hoje é certamente o clássico "Boeing 723897", recentemente regravado pela banda Magazine (de Kid Vinil). E é a mesma que marca a principal característica de composição da banda: a de verdadeira acidez lírica. E quase todas as vezes, cutucando a vida urbana e cosmopolita da cidade de São Paulo. "Boeing 723897" tira sarro de um dos ícones de evolução e bons costumes da vida moderna paulistana: o aeroporto. Linka a necessidade de ter tamanha iguaria tecnológica para justamente nos livrar de tudo isso, e ainda convencer as ditas "comunidades retardatárias" a retornarem, e zombar de seu receio. Muita dessa acidez, que passa muito longe de um humor bobo, é impresso nas outras músicas do disco. O Joelho de Porco foi uma das primeiras bandas no Brasil que, de forma irônica, denunciava um estilo de vida que muitos de fora da sociedade paulistana na época - e até hoje, por que não? - julgavam a forma mais correta, rápida e segura de enriquecer, prosperar, ou obter felicidade social. Criticavam a família burguesa, seja a nascida e esplendorosamente orgulhosas por seus pertences, riquezas e status de cidadão urbano chique, ou a que vinha para cá e prosperava, tornando-se com isso automaticamente um exemplo a ser seguido. Afinal, no começo da década, São Paulo já ganhava a perigosa alcunha de "consumidor de culturas", tendo a imagem, até hoje, de um centro comercial e de estudados antropológicos. Mas que nada produzem, apenas consumem. Então, temas recorrentes a essa triste visão, tal o perigo da cidade grande ("São Paulo By Day"), a urgência de um emprego o quanto antes e mais precocemente, imposto pela família paulistana ("Meus Vinte e Seis Anos"), e novamente o aeroporto e ainda o retrato de uma realidade que desde 74, hilariamente nunca mudou ("Sexta-feira aluga kombi/vai lotada na ‘Emigrantes/prá um piquenique na Praia Grande/que é gigante", cantam em "Aeroporto de Congonhas"), são abordados à exaustão de uma banda que prevê futuros. Somado a isso, vinha o mais inspirado rock'n'roll que uma banda setentista brasileira conseguiu criar, em grande escala.
Completavam a banda Tico Terpins, baixista e principal compositor da banda, Walter Baillot, guitarra, Serginho Sá, piano, Flavinho Pimenta, bateria, e Dudi Guder, percussão. As pessoas certas no recinto correto. A urgência de algumas músicas, como a já citada "Boeing 723897", ou as belíssimas "Cruzei Meus Braços... Fui Um Palhaço"e "Aeroporto de Congonhas", traziam impressas a solidez de um bom riff, e a expansão de um belo arranjo dentro de um rock sem frescuras. Realmente não havia hibridismos propositais, o que torna o disco quase como um tratado de emoção, temática e intensa. A guitarra de Walter Baillot pegava nuances de um rock competente, somado à bateria de Flavinho Pimenta, que demarcava com precisão cada virada de ritmo que era constante nas composições da banda. Como dito, o Joelho de Porco é bastante lembrado pela irreverência - vide o segundo maior hit do disco, "Mardito Fiapo de Mang"”, cuja até a própria banda regravou - , mas tal solidez sonora e os temas recorrentes de um humor que não o torna banal tampouco "palhaço"merece mostrar São Paulo 1554/Hoje como um clássico do rock brasileiro, sem amarras de um tal discurso irreverente. De uma completa e ácida
personalidade que poucas bandas conseguem imprimir nesse tal rock'n'roll.
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