
Nelson Gonçalves
por Matheus Trunk
mtrunk@bol.com.br
Quando
me dispus a fazer esse dossiê, pude comprovar o abandono e o desprestígio
que o brasileiro tem por sua história cultural. Nenhum cantor
brasileiro gravou tanto, conseguiu fazer sucesso durante tantas décadas
e teve carreira tão longa quanto Nelson Gonçalves.
Mesmo assim, é extremamente difícil juntar uma série
de informações e mesmo imagens, sobre ele. Oferecemos
aqui uma criteriosa e importante lista das talvez, mais expressivas
gravações musicais de Nelson.
Se ele gravou tanto, valeu em conta não apenas o sucesso da canção
em seu tempo, bem como também o valor dessa música entre
a obra dele. É talvez um ranking, não para fãs
mais antigos e conhecedores profundos de suas canções,
mas mais para quem se interessa em conhecer mais desse cantor.
10. Vermelho 27 (Herivelto Martins/David Nasser)
Além de gravar boleros, sambas, sambas-canções,
samboleros, “metralha” também foi dedicado aos tangos.
Tanto que seu primeiro LP, ainda no padrão de 16 polegadas foi
“O Tango Na Voz de Nelson Gonçalves” lançado
em 1956 que incluía esta “Vermelho 27”. A canção
descreve a vida de um jogador, que após conquistar tudo na roleta
com um vermelho 27: dinheiro, mulheres e amigos, perde tudo no próprio
jogo, se transformando num vagabundo maltrapilho. É Dostoivesky
? É Camus ? É Sartre ? Não, é Nelson com
sua poesia cotidiana de raro talento e beleza.
09.
Dos Meus Braços Tu Não Sairás (Roberto Roberti)
Lançada no meio-de-ano de 1944, esse foi um outro êxito
do eterno boêmio nos foxes. Seguinte Zuza Homem de Mello e Jairo
Severiano: “uma composição que, seguindo ao esquema
dos foxes tem melodia bem trabalhada, servindo a letra apenas a complementá-la”.
O curioso é que o compositor Roberto Roberti era mais voltado
aos sambas carnavalescos clássicos (como “Abre A Janela”,
“Aurora”, “Isaura”, entre outros). Sucesso absoluto,
ficou em primeiro lugar nas paradas de sucesso.
08.
Normalista (Benedito Lacerda e David Nasser)
Nelson não perdoava nem as colegiais. Por isso, também
gravou esta música em que o narrador, um homem mais velho se
apaixona por uma normalista, uma estudantes de colégios normais,
que equivalia . Mais um registro de uma música totalmente inserida
na questão de Nelson e de sua temática de amores impossíveis
e pouco prováveis. Numa época moralista e extremamente
religiosa, NG abria novos caminhos para a canção romântica
brasileira.

07.
Renúncia (Roberto Martins e Mário Rossi)
O primeiro grande sucesso de Nelson, lançada comercialmente e
nacionalmente em agosto de 1942. Foxe da dupla Roberto Martins e Mário
Rossi, a música não interessava ao jovem NG. Mas por determinação
do diretor da Victor, Vitório Latari Nelsão acabou gravando
a canção. Sem conhecer a melodia, ele adentrou os estúdios
da RCA Victor e gravou a música no mesmo dia. Os músicos
eram desde Luís Americano (sax-alto), passando por Carolina Cardoso
de Menezes (piano) e até o imortal Garoto (violão-tenor).
Seria gravada mais uma vez em dezembro do mesmo ano com arranjo de samba
para o carnaval do ano seguinte. Graças a essa música,
Nelson coneguiu o emprego de crooner no Cassino do Copacabana Palace
Hotel.
06.
Maria Betânia (Capiba)
Em 1943, o compositor pernambucano Capiba, compôs “Maria
Betania” para uma apresentação de teatro de “Senhora
de Engenho”. A peça foi um redundante fracasso e Capiba
acabou guardando a canção.
Dois anos depois, a mostrou ao cantor Nelson Gonçalves, que já
contava com grande sucesso nacional. Gravada pelo cantor gaúcho,
“Maria Bethânia” foi um gigantesco sucesso, vendendo
muitos discos naquele ano de 1945. Muitas mães e pães
se inspiraram na canção e deram a filhas o nome do sucesso
de Nelsão. Uma delas foi dona Canô, que já tinha
como filho o então garoto Caetano Veloso que sugeriu a ela que
desse a irmão mais nova o nome da canção de sucesso
de Nelson naquele ano.
05.
Negue (Adelino Moreira/Enzo de Almeida Passos)
Samba-canção dos mais conhecidos de Adelino foi gravado
originalmente pelo cantor gaúcho e depois regravada por Maria
Bethânia em 1978 no disco “Álibi”. A segunda
versão teve prestígio e elogios da crítica de plantão,
o que a primeira não teve. Embora a de maior sucesso popular
foi a do “metralha” que tocou em todo Brasil em seu lançamento,
em que o estilo de Adelino se impõe mais uma vez.
04.
Fica Comigo Esta Noite (Adelino Moreira/Nelson Gonçalves)
Houve um tempo em que a música romântica brasileira vivia
grandes momentos de poesia. A mulher amada era celebrada de forma plena,
em que o romantismo não era considerado cafona ou brega. Foi
nesse hemisfério que a implacável dupla Nelson/Adelino
fez esta bela composição de 1958, que lançada em
setembro de 1961 foi mais um samba-canção de grande aceitação
que elevou o status e os fãs-clubes da dupla.
03.
Meu Vício É Você (Adelino Moreira)
Boneca de trapo, pedaço da vida/ que vive perdida no mundo a
rolar/ farrapo de gente que inconsciente/ peca só por prazer,
vive para pecar/ boneca eu te quero com todo pecado/ com todos os vícios,
com tudo afinal/ eu quero esse corpo que a plebe deseja/ embora ele
seja prenúncio do mal.
Mais alguma frase necessária ?
02.
Escultura (Adelino Moreira/Nelson Gonçalves)
Mais um gigantesco clássico da dupla Nelson e Adelino. Cansado
de amores e paixões, o personagem da canção tentou
criar um dia uma mulher perfeita em forma de escultura, estátua.
Cada elemento dessa mulher de mármore é esculpida pensando
em uma mulher diferente: “Dei-lhe a voz de Dulcinéia/ a
malícia de Frinéia/ e a pureza de Maria”. Mas no
final, a mulher perfeita e de mármore é a quem se destina
a canção: “E assim de retalho em retalho/ terminei
o meu trabalho/ o meu sonho de escultor/ e quando cheguei ao fim/ tinha
diante de mim/ você, só você meu amor”.

01.
Volta do Boêmio (Adelino Moreira)
A parceria Adelino/Nelson encontraria seu melhor momento nessa canção,
sucesso absoluto de 1957. Chegando a um milhão de cópias
vendidas, um verdadeiro recorde para a época.O
personagem da música acaba se regenerando e se tornando um homem
sério e casando. Porém, decide subitamente voltar a boemia:
“Boêmia/ aqui me tens de regresso/ e suplicante te peço/
a minha nova inscrição/ voltei pra rever os amigos que
um dia/ eu deixei a chorar de alegria/ me acompanha o meu violão”.
Samba-canção mais que clássico, provocaria inclusive
um gênero musical. A partir dessa canção, muitos
cantores foram surgindo na trilha de Nelson fazendo músicas românticas,
próximas a seu estilo, porém mais boleros que sambas-canções.
Pertenceriam a essa geração cantores de grande sucesso
na época como Altemar Dutra, Anísio Silva, Orlando Dias,
Silvinho, Carlos Alberto, Roberto Luna, entre outros. O historiador
Paulo César de Araújo em seu estudo “Eu Não
Sou Cachorro Não- Música Popular Cafona e Ditadura Militar”,
chama esses artistas de “primeira geração cafona
ou brega” (1958-1968).