DOSSIÊ NELSON GONÇALVES
PARTE I

 

 



 

 

por Matheus Trunk
mtrunk@bol.com.br

 

A CONTRACAPA DE LP

Qual brasileiro que, principalmente na adolescência e sendo do interior, não participou do culto a voz, não disse lindo ! Ao ouvir um dó de peito ! Anos 40/50, pileques semestrais de cuba-libre, domingueiras no clube da cidade pequena ou do subúrbio, Nelson Gonçalves celebrando a mulher amada, o remorso do boêmio por amar a menina-família, o fruto proibido dos samboleros, das canções de Adelino Moreira. Assim: Nelson/Adelino no rádio ou na vitrola, o sujeito um pouco bêbado, fumando desesperadamente os primeiros cigarros da sua vida, coração partido entre o vício das mulheres das noites de sábado e a namoradinha de portão.

Nélson, um homem e sua voz: a verdade estabelecida no limite das duas coisas, o homem cantando exatamente aquilo que corresponde à sua condição humana. Em níveis diversos da (in)formação cultural esta integridade não será a marca dos artistas menores ? E é aí que surge Nélson para nós, os que o tivemos como componente da nossa formação estética, nem se tratando de uma descoberta, apenas uma revisão justa, nesta época de curtições.

Pessoalmente, no campo da criação musical aqui no Brasil. Sei de alguns artistas totais, desses que cantam ou compõe como quem dorme ou respira: Dalva de Oliveira, Milton Nascimento, Carmen Costa, Gilberto Gil, Marlene, Ismael Silva, Maria Bethânia, Waldick Soriano, Lupicínio Rodrigues, Jorge Bem, Paulinho da Viola. E se me aventuro ao perigo da lista, ainda ouso dizer que ela é mesmo assim, pequena. Há cantores, compositores perfeitos, até maravilhosos, mas sem a marca perigosa da fatalidade. Não são muitos os que dizem e fazem só o que esteja ligado ao seu ritmo vital interior, independentemente de padrões de gosto ou sucesso. Entre estes fica Nélson Gonçalves, exemplarmente ele mesmo, na derrota ou na glória. Um dos maiores cantores desse país, se levarmos em conta, no julgamento, todas as implicações e possibilidades de um homem que assumiu, até o fim, a obrigação de cantar para o seu povo.


Antonio Chrysóstomo, jornalista e crítico de arte.
Contracapa do LP Quando A Lapa Era Lapa de Nelson Gonçalves lançado em 1973 pela RCA Victor.


NELSON POR ELE MESMO E POR OUTROS

POR ELE MESMO
"Quero ser cremado, pra ninguém fazer xixi na minha lápide”, em entrevista ao “Jornal da Tarde” de 21 de dezembro de 1995.

“Não apareceu mais nenhum cantor com voz. Eu uso um terço da minha voz. Não precisa mais”.

 

POR OUTROS

“Prefiro curtir os cantores de antigamente: Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Ataulfo Alves, Jamelão, Sílvio Caldas, Elizete Cardoso. Do pessoal mais novo, o Chico Buarque. (...) (ao ser perguntado sobre Caetano e Gil) Ah, eu não gosto não. Não é o tipo de música que me agrada”.
Luís Inácio Lula da Silva,
presidente da República,
em entrevista a “Playboy” de julho de 1979.

 

“O conheci na Mayrink Veiga. Lá com aquele jeitão dele, todo espalhado, fizemos logo amizade. E nos encontramos pelo Rio de Janeiro afora. Ainda foi no tempo do Nice. Nelson Gonçalves teve uma entrada mais direta no Nice do que eu, porque eu era mais ator de teatro. Depois é que eu vim a fazer uma musiquinhas. Houve um período em que eu morava na Urca e o Herivelto Martins também. Foi um período muito gostoso pra mim, para o Herivelto Martins e para o Nelson, porque este havia feito uma amizade muito bonita e muito sólida com o Herivelto. (...) Nelson fez muitos sucessos. Ainda é o recordista da RCA Victor, acredito eu. (...). O Nelson tem até hoje um cantor formidável. A voz dele é bonita. Ele tem uma particularidade que eu pude observar de perto: nós íamos muito à taberna da Glória e às vezes ele resolvia cantor do lado de fora: era como se ele estivesse cantando ao microfone , tão bela e encorpada era a voz dele. Era e é até hoje. A voz dele sai naturalmente. Então, nós temos uma admiração maior por um cantor que tem este dom maravilhoso dado por Deus. No mais, as nossas brincadeiras, aquela gagueira gostosa, e que lhe valeu o apelido de “metralha”. Era um tempo bom, um tempo de boemia saudável, que depois deu lugar a uma boemia mais ou menos perigosa. E dentro desta boemia perigosa o Nelson entrou de peito aberto, como fazia nas amizades, inimizades e outras coisas. Fez sucesso ela- “A volta do boêmio”. Mas depois se recuperou, e temos o Nelson de hoje, maravilhoso, um cantor espetacular, amigo e pessoa de opinião própria marcante, coisa que eu respeito muito. Saúdo neste 1987 os 50 anos de profissão de Nelson, com muita alegria. Cumprimento este brasileiro que soube levar tão bem uma carreira que não é fácil. Parabéns e muitos anos mais de vida artística. Um abraço”.
Grande Othelo, ator e compositor.

 

“Eu era alienado mesmo, sempre fui. Gostava de ouvir Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Altemar Dutra. Nunca tive embasamento intelectual para fazer música de protesto e não estava interessado em política”.
Fagner, cantor e compositor em entrevista a “Veja” de 23 de outubro de 2005, edição 1928.

 

“Está aqui o moço que só fez cantar. O destino querendo torcer seus caminhos, obrigando-o a servir a mesa alheia, situando-o nos quatro cantos de um ringue de boxe, tudo para cortar as assas desse pássaro canoro, tudo para silenciar o seu canto. Nelson Gonçalves avisa aos navegantes que vai comemorar cinqüenta anos de cantor. Durante todo esse tempo ele tem voado por todo o Brasil, navegando nas jangadas nordestina pelos mares mornos que lambem aquele pedaço de Brasil, para repetir canções. Tem cavalgado nos alazões fogosos, pelos pampas do Sul, ou garimpando de pés descalços pela mineração do Brasil de dentro, e tem cochilado nas redes e adormecido nas margens dos rios calmos, assoviando nos barrancos e nos igarapés, e se afoitando em mil pororocas ou desafios e ponteios de violas. Tudo para poder cantar- ele que foi gongado pelo fel dos desentendidos, que chegou a gritar mais alto o seu ré mais agudo para ser notado pelos homens de mando dos programas de calouros, pelos regentes surdos das gravadoras ! Hoje ele contempla do alto dos mesmos acordes que cantou primeiro essa alegria de apenas dizer seu nome e receber de volta um acorde de palmas tão forte quanto o trovão de outros tempos raivosos. O cantador e sua viola. São eles dois e uma voz guardada dentro do peito para só se fazer solta a chamada de uma lua bonita que mereça serenata, ou o convite de uma mulher enluarada que mereça a carícia de seus versos e de suas melodias.
É esse menino-passarinho “com vontade de voar”, marcando o chão com a marca de suas passadas, riscando os céus de sua terra, com a beleza de sua música e rumando o sem-destino da sua carreira, como um caixeiro viajante a expor e exibir toda a beleza e grandeza do seu repertório. Há cinqüenta anos que ele canta, e há de cantar sempre e cada vez mais, pois o num tempo de profundas tristezas, dúvidas e incertezas, não há de ser o sofá do analista que abrandará nossas penas. Só uma canção muito suave será como carícia necessária para abrandar nosso peito doído, nosso coração machucado. E essa canção só quem sabe dizer no som e no tem que ela se faz precisa, é esse jovem que há cinqüenta anos canta, esse pássaro que há cinqüenta anos voa, esse brasileiro que há cinqüenta anos repete a canção de sua terra”.

Fernando Lobo, jornalista, radialista e compositor. Pai do cantor Edu Lobo.

 


Agnaldo Timóteo e Nelson Gonçalves

 

“Nelson permanece em seu patamar solitário: é cantor que canta”. José Lino Gruenwald, jornalista e crítico de cultura.

 

“Roberto Carlos, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Cauby Peixoto. São pessoas que sempre admirei, por isso sempre gravei coisas deles”.
Agnaldo Timóteo, cantor em entrevista ao programa “Rei Majestade” do SBT.

“O Nelson era um amigão. Um amigão mesmo”.
Lobão, cantor.

 


Nelson com Lobão

 

“Fui produtor durante muitos anos e o dinheiro mais fácil que eu ganhei na minha vida foi produzindo o Nelson. Verifiquei que o produtor tem o dever de respeitar certas regras (...) o cantor não deve gravar de manhã (...). Vi também que cada cantor tem a sua mania no momento da gravação. Alguns pedem pra apagar as luzes, outros tiram as roupas (...). Com o Nelson Gonçalves nada disso acontecia. Se o estúdio tivesse vago apenas às oito da manhã, ele cantava ás oito. A única coisa que ele pedia era o café. De resto, gravava vestido, com luz acesa, sem problema nenhum. Trazia apenas um grande problema para o produtor: Nelson dava-me uma grande sensação de inutilidade. Eu, que adoro dirigir cantores, não tinha nada a dizer para Nelson Gonçalves. Soltava a fita, ele colocava a voz e fim de papo. Tudo perfeito. Ás vezes, somente para justificar o dinheiro que a gravadora me pagava, fazia uma observação desse tipo:
- Nelson, vamos gravar outra vez, porque você não botou sentimento em tal verso.
Ele voltava ao microfone, fazia a mesma coisa que fizera antes e eu, cinicamente concluía:
- Agora, sim, a interpretação está correta.
Que cantor extraordinário é Nelson Gonçalves ! E que figura humana maravilhosa ! Se fosse norte-americano, já tinha sido filme, show na Broadway, livro o diabo. Nelson atravessou todos os incidentes que a vida e a carreira lhe proporcionavam com a voz incólume”.

Sérgio Cabral, jornalista e produtor musical.

 

“Francisco Alves. Carlos Galhardo. Sílvio Caldas. Orlando Silva. Depois que eles partiram, os fãs deles se concentraram em um nome: Nelson Gonçalves”.
José Messias, apresentador e produtor musical, hoje jurado do programa “Raul Gil”.

 

“Adoro Nelson Gonçalves, Altemar Dutra. Dor de cotovelo”.
Oscar Niemeyer, arquiteto, em entrevista a Folha de São Paulo

 

“Eu que acho que o verdadeiro artista é um privilegiado. E eu considero o Nelson um verdadeiro privilegiado. O Nelson tem uma voz- que com a minha vivência, com esses anos todos de compositor, artista- iningualável. Eu que assisti a outros que chegaram, que foram, passaram, de modo que um cantor que mantém a voz como o Nelson mantém é, sem dúvida, um privilegiado. O Nelson é um homem diferente porque foi um boxeur. Então, quando se diz que o Nelson faz 50 anos de vida artística, eu vejo que conheci apenas 40. Os outros 10 são anteriores, passados em São Paulo, tenho a impressão. Portanto, o Nelson é um lutador, começou lutando boxe. Mas tem, acima de tudo, o privilégio de ter esta belíssima voz. Trabalhamos junto muito tempo. Fizemos grandes sucessos. Ele com a sua voz e eu com a minha música. E, até hoje, o Nelson mantém no seu repertório músicas minhas que ele gravou. Isto me dá muita alegria, porque a quantidade de sucessos que nós fizemos, me dá sempre a presença da voz do Nelson. (..) Eu espero que esta produção de agora, homenageando os seus 50 anos, seja bem compreendida pelo povo da nossa terra. Que ela dê ao Nelson o que ele merece: o reconhecimento e o entendimento de que ele é, sem dúvida, um grande cantor, uma grande voz e têm um grande passado”. Herivelto Martins, compositor.

 

“A minha grande escola foi o Nelson Gonçalves”.
Nelson Ned, cantor, compositor e um dos maiores vendedores de discos das Américas em depoimento ao programa “Super POP” da Rede TV!.

 

“É quase impossível não encontrar em Nelson um cúmplice, uma certa identidade de sentimentos vividos e situações em comum que nos faz grandes amigos sem nunca sequer termos sido apresentados. A cada estrofe, num banho de lirismo que exibe toda a sensibilidade do grande intérprete que sabe ser; ele nos convida a vagar em saudades e de repente, então, nostalgicamente, nos percebemos o que (ainda) não vivemos.
Dentro de uma linha bem eclética, porém sempre romântica, Nelson materializa a poesia de Adelino Moreira tão bem quanto nos surpreende ao cantar com Caetano Veloso, numa parceria que pode parecer não muito homogênea, à primeira vista.
Transcorrendo em vários gêneros musicais, sem que se possa definir com exatidão um estilo próprio, a sua música oferece momentos de paz e reflexão. Ao som do bandolim, presença quase constante, reconhecemos a intimidade com que as notas são generosamente presenteadas pelos instrumentos, numa harmonia que imortaliza toda a mágica do momento. Sua perfeição afinação e afinidade entre voz e acordes se reflete numa tal comunhão, que uníssono Nelson e a canção parecem incapazes de existirem um sem o outro.
Creio que a minha geração, dentre outras, foi agraciada pela oportunidade de observar a evolução de sua carreira artística, aliada a um admirável profissionalismo, que hoje fazem de NELSON GONÇALVES um exemplo vivo de determinação e perseverança”. Flávio Snell, grande empresário do ramo imobiliário.

 

“Conheci Nelson no ano de 1950, apresentado por um amigo. Daí por diante foi fácil, conheci o grande homem e o grande cantor que é. Durante esses 33 anos, tivemos muitos altos e baixos nas nossas relações, mas a verdade é que, ultrapassamos todos os males entendidos, e superamos todos os ti-ti-tis e hoje somos cumpradres três vezes: Nelson batizou minha filha quando nasceu e é padrinho de casamento dela e eu sou pradrinho de casamento dele com a Maria Luiza, dessa forma se houve algum entrevero entre nós, foi esquecido, prevaleceu a amizade. Somos dois grandes amigos para qualquer situação, amigos nos sucessos que fizemos, amigos nos momentos mais duros, mais amargos e também nos mais lindos. Por esse motivo, reconheço no meu fabuloso Nelson tudo de bom como homem, como amigo e como o grande cantor que é inegavelmente, pena é que daqui a 50 anos teremos outro Nelson.
Seria sonhar muito alto, mas pelo menos mais 20 anos com a graça de Deus nós o teremos entre nós”.

Adelino Moreira, compositor dos maiores sucessos de Nelson em depoimento em 1987.

 

“Depois que ele morreu, eu envelheci dez anos”.
Adelino Moreira, de Nelson no filme “Nelson Gonçalves”, após a morte de Nelson .

 

“Seja como for, foi Nelson quem deu voz, corpo e alma às músicas assinadas pelos dois (ele e Adelino Moreira). Voltadas sobretudo para a temática dos amores proibidos, durante muito tempo elas tiveram ampla ressonância nos hotéis, motéis, zonas, botecos, bares e cabarés do país. Ele as cantava num à vontade total. Sua própria vida – tantas vezes envolvida com a marginalidade – dava verossimilhança existencial a tais interpretações. Nelson Gonçalves foi chamado de porta-voz do bas-fond nacional”.
Carlos Rennó, crítico de MPB



 

 
     

 

 
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