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O NÃO-LANÇAMENTO
EM DVD
por Matheus Trunk
Tensão e Desejo
Embora hoje o cinema brasileiro esteja melhor compreendido, muitas pessoas permanecem esquecidas e no pior dos casos, injustiçados. Muitos são os diretores, técnicos, atores e atrizes que tiveram de embarcar nessa espécie de “leitura oficial” da nossa cinematografia. Uma pena, porque uma releitura POP seria muito bem-vinda e faria justiça a muitas pessoas que ainda não entraram nessa espécie de Academia Brasileira de Cinema de imortais e tudo mais. Alfredo Sternheim, é um desses profissionais que precisa dessa releitura. Célebre crítico de cinema com longas passagens pelos jornais “O Estado de São Paulo” (onde foi companheiro do gigante Rubem Biáfora), “Folha da Tarde” e atualmente na revista SET. Conhecido como Alfredinho na Boca, teve a honra de se iniciar em cinema com o grande cineasta paulista Walter Hugo Khouri. Com este, Sternheim foi continuísta em “A Ilha” e depois assistente de direção na mais famosa obra do diretor: “Noite Vazia”. Embora haja influência de WHK na obra de Sternheim, isso reflete de certa forma em sua obra, embora o lado policial e noir esteja impregnado desde o longa dele: “Paixão Na Praia” com Norma Benguell e Ewerton de Castro. Na Boca, o cineasta trabalhou com os mais diversos produtores: Antônio Polo Galante, Alfredo Palácios, Ary Fernandes, David Cardoso, entre outros.
Estigmatizado com o selo de ficar na “rabeira” de seu iniciador, o talento de Alfredinho acabou sendo subestimado. Para se ter uma idéia deste, basta ver o pornopolicial “Tensão e Desejo”, filmado no início dos anos 80. Passada na cidade de Mongaguá, o filme conta a história de uma professora interpretada por Sandra Graffi, que após ter problemas com o marido em São Paulo, foge para o litoral paulista em busca de paz e tranqüilidade. Não achará essa paz tão facilmente. Um importante político local, interpretado pelo reconhecido ator Luiz Carlos Braga terá uma grande obsessão por ela. Embora casado, ele adquire grande paixão por ela, fazendo qualquer coisa pela professora e deixando toda cidade contra ela. Embora Graffi seja uma atriz digna de nota, musas eternas como Zilda Mayo e Meire Vieira dão o tom certo ao filme. Zilda, além de irresistível e atriz de talento, desempenhou com eficiência e talento em diversos filmes da Boca. Também fez alguns filmes mais autorais e diferentes do gênero, como o premiado “Caso Cláudia” de Miguel Borges. Em “Tensão e Desejo”, Mayo faz Marta, uma amiga de Graffi, que embora seja boazinha tem métodos nem um pouco ortodoxos para sustentar sua casa e seu filho, que estuda na escola em que Graffi dá aulas. Já Meire Vieira, foi uma verdadeira rainha das pornochanchadas sendo estrela de diversas produções paulistas e cariocas do período. Mesmo tendo passagens marcantes por filmes do diretor Carlos Reichenbach e em filmes belos como o sensível “Nunca Fomos Tão Felizes” do então estreante Murilo Salles, esta sua última participação em cinema, estando infelizmente afastada desde 1984. Fez mais dois filmes com Sternheim: “Corpo Devasso” (80) e “As Prostitutas do Doutor Alberto” (81). No filme, ela interpreta a mulher do político Luiz Carlos Braga, que embora goste do marido, se envolve com um homem mais novo, um adolescente amigo de seu filho.
Outra coisa digna de nota no filme é a equipe técnica. “Tensão e Desejo” foi uma tentativa infelizmente frustrada do grande assistente de câmera Luiz Antônio Oliveira, o Luizinho (como era conhecido na Boca) de tentar ser fotógrafo. Poucas foram suas chances, embora aqui ele demonstre claro talento de merecer o posto tão sonhado. Também marca a presença do assistente de direção Eduardo Aguilar, que depois teria firme parceria com o cineasta Carlos Reichenbach (em filmes como “Extremos do Prazer”, “Anjos do Arrabalde”, “Alma Corsária” e “Garotas do ABC”) e ingressará depois como brilhante diretor de curtas-metragens O filme marca também a estréia do produtor Roberto Galante, filho do grande e mitológico Antônio Polo Galante, que como pai capricha na produção do filme, que acaba sendo uma produção acima da média da Boca do Lixo paulistana.
O clima noir da fita não é á toa. Isso acaba sendo
marca do cinema de Alfredinho em toda sua obra, inclusive nos filmes
de sexo explícito ao qual o diretor se dedicaria logo após
este “Tensão e Desejo”. Embora muitos outros cineastas
do período tenham preferido mudar de nome para pseudônimos
para esconder o nome verdadeiro nos filmes explícitos, Sternheim
seria um dos únicos a manter o nome próprio e não
se importando com tudo que se construiria contra ele e contra todos
os cineastas do período. Este seria sua última pornochanchada,
demonstrando sempre grande coesão com sua obra. Autor de 26 longas,
permanece ignorado idiotamente pela crítica e pelos que hoje
se dedicam a lançar filmes no formato DVD no Brasil. |
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