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MOMENTO 68
por Roberto Iwai
À medida em que a vida recorre a memórias que deslocam-na do lugar, às pessoas que se moldam via suas próprias mentes: olhares de terceiros que nos moldam diante de si mesmas, os nossos próprios que os moldam à visão de todos. O olhar etéreo de satisfação transparece inércia, ao mesmo tempo que dá falsos sinais da desesperança ao retorno às chances de revolução. A mente se move, as pessoas não percebem. Em velocidade tão peculiar em decorrência da intensidade das ações, seus atos são certos: a ação muito mais abrangente do que apenas o ato de ataque. Em meio à reação-realidade, a abrangência de sua satisfação. Após o término das atividades com o The Charts no final dos anos 90, Sandro Garcia transcorria suas palavras e melodias em meio a um projeto de canções, cujo resultado seria o Momento 68 – nome retirado de um espetáculo que se realizou durante o tropicalismo. Ao lado do gaúcho Plato Divorak, então ascendente da banda Lovecraft, o Momento 68 cunhou algumas das canções mais peculiares que o cenário alternativo brasileiro já presenciou. Caminhando rumo ao lirismo-psicodelismo sessentista, esta fase deu origem ao lançamento de Onde Estão Suas Canções?, de 1999. Porém, com a impossibilidade da comunicação São Paulo-Porto Alegre, a parceria entre Sandro e Plato teve de ser desfeita. A partir daí, o Momento 68 – agora em alicerce de banda – daria vazão a novas composições e outros novos trabalhos, até culminar em Tecnologia, no ano de 2002. Integrado agora por Sandro Garcia nos vocais e guitarra, Carlos Rodrigues no contrabaixo, e Gregor Izidro na bateria, o Momento 68 registraria um dos mais pungentes, críticos e elegantes discos que São Paulo originou. Um registro apoteótico sem precedentes na história da música independente no Brasil. Sandro faz uso do psicodelismo do final da década de 60 de forma coerente, reativa: Tecnologia parecia buscar ação da forma menos visível possível, porém existente nas atitudes que se mostram eficazes. É elegante a ponto de atingir todos os seus alvos preteridos, em nuances-ritmos que a lisergia excêntrica não conseguiria otimizar: em coesão e alinhamento em que os experimentalismos souberam conviver. O disco passeia por cada faixa com o frescor de palavras bem ditas, em sonoridade que não revive de estripulias. Pelo contrário: reavive aquilo que assistiu, e se move ao longo do que imagina. Tecnologia não imagina aquilo que a banalidade musical soube acatar. Em “Vítimas da Op-Art”, sob sonoridade folk-hipnótica, o Momento 68 iniciam as atividades sobre o ponto-de-vista da realidade particular de cada ser humano. Desde seu primeiro verso, avaliando fenômenos que em todos ocorrem, mas jogando ao ar e declarando o poder das palavras não-ditas (“Pessoas falam por falar/Vulcões explodem mesmo assim/Respiro ainda o mesmo ar/Respiro ainda mesmo assim”), da percepção convicta daqueles todos que com certeza afirmam aquilo que nunca viram, e aos que captaram as emoções perante os sentimentos cosmopolitas-brutos individuais (“A grande avenida/Lhe trouxe emoção/Na cidade cuidada por ninguém/Você já percebeu/Uma nova confusão”). Cantando palavras como se estas não fossem endereçadas à seus respectivos meios, Sandro Garcia discorre sobre temas que se tomam atuais, ainda que ignorados pela humanidade pelo único motivo destes já estarem absorvidos em si mesmos, de maneira tão burra. Dialoga sobre, por exemplo, a rebeldia em função de excessos panfletários e da “globalização” virtual – em “A Tecnologia”, que aponta para ambos os resultados da massificação moderna de comunicação (“A tecnologia ajustou [arruinou]/Os continentes para [com]/Um céu azul [...] No sol um pouco menos de calor/E o vento médio sobre o meu jardim”). Este retrato contemporâneo dos jovens cabíveis da manifestação de individualismo dos exageros carentes – este já amplamente massificada personalidade de fábrica, ironicamente – atitudes de maldizer e o sarcasmo burro como forma de retribuir a valentia e dignidade que em suas fantasias residem covardemente, em “Antiglitter” (“Sapatos de cobre, esmeralda/Jaquetas infláveis new-wave/A purpurina escorre dos olhos/E alguém diz ‘please’/Ao Homem-Orquestra”). Sonoramente, Tecnologia percebe-se como lógica espontânea, que caminha certa para onde não se sabe a resistência, mas busca aquém. Disto, originam-se instrumentais que caminham entre o jazz (“Jazzy Man Metropole”), anos 60 incidentais (“Telecaster Ride”), e experimentações folk (“On/Off”). Ainda, reside em crônicas da cidade-cotidiano (em “Chá da Tarde”, em trocadilho-homenagem de raios solares: “Enquanto eles batem/A porta da casa e saem/O sol ilumina nos bancos da praça/E quanto você não vê/Ele encontrou um ‘Ray’ a mais/E o ‘Ray’ encontrou aquele rapaz”). Entretanto, entre crônica de um cinema motion em ângulos em traveling, cortes bruscos e linguagem-ação em fotografias, às cinco e meia da tarde ou às seis horas da manhã, “Outra Cidade” vive em cinemascope como os movimentos que incidem na velocidade sonora, como a interação entre as palavras que ilustram o cotidiano-vida-visão de um ser humano – ainda – vivo, lúcido, em entretenimento: O homem retalho Um soco no vento Um amargo café Palavras loucas para o meu amor, Tecnologia é um disco sem parâmetros no Brasil. Por tratar a psicodelia com as condecorações artísticas que merece – e não apenas como desculpa de uma mente dita genial e cujo alicerce é proporcionalmente e deliberadamente desconexo da realidade que a cerca – por inserir um lirismo bruto – menos palavras para mais reação – que sofre influências entre o universo Weller, literatura oriental e cinema, Sandro Garcia não imaginaria que, entre os minutos anteriores aos Charts e os futuros passos com o Continental Combo, lançaria aquele que é certamente um dos mais sábios e valiosos registros desta metrópole, enriquecimento da face cultural da música independente do Brasil.
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