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IJUSTIÇADOS DA
JOVEM GUARDA I
por Matheus Trunk mtrunk@bol.com.br
Ao contrário de que muitos pensam, a Jovem Guarda (1965-68) não se restringiu a Roberto, Erasmo e Wanderléa. Esse trio genial era quem apresentava o mitológico programa das tardes de domingo da TV Record, mas existiam outros cantores, cantoras e conjuntos que também faziam parte do movimento. Muitos destes fizeram um sucesso repentino durante o programa e depois praticamente sumiram, embora tenham lançado outros discos e seguido carreira. Mesmo assim, muitos tornaram-se cults, sendo hoje finalmente reconhecidos pelo trabalho que realizaram. Mas ao mesmo tempo, existem artistas jovem- guardistas que não estão merecendo nada disso. São artistas que tiveram um importante sucesso comercial no desenvolvimento da indústria fonográfica brasileira, que logo depois os esqueceu de forma rápida. Um desses cantores é Luiz Carlos Clay. Pernambucano de nascimento, o cantor foi um dos grandes nomes do período. Irmão da cantora Kátia Cilene (que estourou em 67 com “Bilhetinho Apaixonado”), o grande artista iniciou sua carreira artística ao ser descoberto por um produtor da TV Jornal do Commercio de Recife, sua terra natal. Lançado pela grande gravadora daquele momento, a CBS de sua irmã Kátia e que detinha em seu cast nomes como Roberto Carlos, Wanderléa, Renato e Seus Blue Caps entre outros. Foi lá que Clay lançou seu primeiro compacto em maio de 1966. Nesse primeiro
compacto, haviam duas versões: uma do radialista Antônio
Aguilar intitulada “Eu Nasci Pra Você” (também
gravada pelo cantor Jean Carlo) e outra de Rodrigues Filho: “Uma
Casa Sobre o Mundo”. Essa segunda estourou nas paradas na voz
de Clay, vendendo quase a metade do compacto de “Like A Rolling
Stone” que Bob Dylan havia lançado na mesma época.
O sucesso foi tanto que “Uma Casa Sobre o Mundo” se tornou
o maior de toda a carreira do cantor pernambucano.
As músicas do jovem cantor passaram a fazer parte da coletânea “As 14 Mais” onde também eram lançadas músicas de diversos artistas da CBS, entre eles o rei Roberto Carlos. Após passar a febre da Jovem Guarda, Clay foi contratado pelo apresentador Sílvio Santos para fazer parte do programa “Os Galãs Cantam e Dançam” ao lado de cantores também oriundos do movimento jovem como Antônio Marcos, Ed Carlos, Paulo Sérgio, Wanderley Cardoso, entre outros. O cantor participou ainda do primeiro filme do diretor Carlos Reichenbach: “Corrida Em Busca do Amor” de 1971. Produzido na Boca do Lixo paulistana pelo mitológico produtor Renato Grecchi, era pra ser mais um filme de aventuras de garotos, garotas e corridas. Mas Reichenbach já demonstrava seu extremo talento e pode realizar um filme extremamente inteligente e engraçado. Clay foi um dos galãs da fita ao lado do também cantor Dick Danello (que cantava músicas italianas e também relacionado indiretamente a Jovem Guarda) e do astro mato-grossense David Cardoso. LCC ainda participou como ator já nos anos 80 da novela do SBT “Anjo Maldito”. Ocupado
com o programa de TV e sendo ator em filmes, Clay acabou se afastando
um pouco das gravadoras. Já que nos shows, o contratante chamava
todos os cantores do programa de TV e não somente o cantor de
“Uma Casa Sobre o Mundo”. No lado A, fica latente o gigantesco talento do cantor pernambucano para a música romântica. A primeira faixa “Vem” da compositora Cleide (que depois faria carreira compondo para Reginaldo Rossi) segue essa receita, que vai se ampliando nas faixas seguintes, chegando a obras-primas como “A Vida É Assim” e “Volta Pra Mim Amor”. A segunda chegou a ser finalista do XVI Festival da Canção de Viña Del Mar, no Chile, que está perfeita na grandiosa voz de Clay, sendo talvez a melhor faixa do disco. O lado se encerra com a interessantíssima e esquecida “Quero Ouvir O Mundo A Cantar”, de tema pacifista lembrando muito Cat Stevens e seu “Peace Train”. Os dizeres: “Quero ouvir o mundo cantar a mesma canção de amor/ cada ser humano (..) a sorrir, cantar(..)/quero que todos os homens se abraçam, sorrindo e se sintam irmãos/ todos juntos lutando e o amor transformando num só ideal”. O pacifismo e a liberdade pregada por Clay era muito forte para 76, ano em que o Brasil continuava numa Ditadura Militar por Geisel. E o mundo bipolar se via na Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. Ou seja, todos esquecendo suas diferenças num mundo tão dividido e literalmente se abraçando, sorrindo e sentindo irmãos como Clay sugeria era muita audácia para 1976. Daí seu fácil esquecimento por parte de intelectuais de gabinete e associados.
O trabalho se encerra com a histórica e antológica “A Família...É A Base de Uma Grande Nação”, do cantor/ compositor/ poeta/ ídolo/gênio Cláudio Fontana. Ora, em 1976 se discutia a questão do divórcio no Brasil, que seria implantada no país no ano seguinte. Os artistas bregas se dividiram como a população brasileira, se alguns como Odair José, Lindomar Castilho, Cláudia Barroso, entre outros preferiram defender o divórcio, Clay e Cláudio Fontana foram pro outro lado. Apoiaram a família e a tradição que tinham dos pais. A canção é histórica, já por ser a primeira música que se tem notícia que é um recado direto para o Congresso Nacional: “Ei/ Você a quem eu dei direito de falar de mim/ Não deixe o divórcio destruir minha família, meu lar, minha vida/Ei, você que faz as leis do meu país/Não deixe que eu seja mais um infeliz/Que vai viver na vida sem um lar”. A questão é que esse certo reacionarismo do artista ia ao contrário do interesse dos militares que mandavam no país. O divórcio foi visto pelos militares como uma forma de tentar modernizar o Brasil, afinal, eles queriam o Brasil grande urbano, desenvolvido e moderno, entrando no primeiro mundo. Por isso, o divórcio acabou sendo implantado logo em seguida em nossa nação. O Brasil rural, agreste e tradicional defendido por Clay (cantor) e Fontana (compositor), ia de contramão a essa ideologia. Assim, o divórcio foi implantado em 26 de dezembro de 1977 e os ideais familiares/populares/rurais de pessoas como Cláudio Fontana e Clay abandonados. Ao mesmo tempo sendo contrário ao divórcio (modernidade), mandando músicas diretamente aos congressistas e ainda pregando a liberdade e a paz mundial, um cantor da altura de Luiz Carlos Clay não poderia durar muito tempo num mercado fonográfico cruel e selvagem como o brasileiro. Com problemas com o álcool, o artista esteve durante muitos anos afastado da carreira artística. Graças a seu enorme talento tanto na música como na vida, Clay venceu o álcool. Tornou-se evangélico e segue sua vida normalmente, residindo no Rio de Janeiro, dando diversas palestras numa entidade religiosa por todo Brasil. Durante toda sua carreira, Clay vendeu aproximadamente 600.000 cópias, um marco expressivo para a época. Seu único disco nunca foi sequer cogitado pra ser relançado em CD. Parece que o mercado fonográfico esqueceu este talentoso provocador.
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Matheus Trunk é estudante de jornalismo e está
concluindo do trabalho de pesquisa: “Injustiçados da Jovem
Guarda-Análise da Obra de Ed Carlos, Cláudio Fontana,
Luiz Carlos Clay e Fredson”. ****
No próximo número da FREAKIUM!, um novo “Injustiçados
da Jovem Guarda” com outro cantor/cantora/grupo injustiçado
pela corja de sem-vergonhas que dirigem as gravadoras brasileiras.
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