|
|
MARCELO BIRCK
por Eduardo EGS
Perto deste trabalho solo do Marcelo Birck, o disco do Aristhóteles de Ananias Jr. parece música de elevador. Claro que essa afirmação é um exagero, mas serve pra ilustrar o grau de experimentalismo praticado aqui. Além dos elementos já tradicionais na música do Birck (atonalismo, dodecafonia), esse álbum tem várias faixas eletrônicas, com profusão de barulhinhos e sons estranhos. Mas a Jovem Guarda continua presente, como sempre. A abertura com O Meu Cigarro mostra isso. A base é bem sessentista, com direito a quebradas e tudo. Porém, fica escondida por baixo de vozes dobradas cantando versos distintos e variações constantes de volume. “O meu cigarro, eu já fumei/O meu dinheiro, eu já rasguei/Eu já fiz todas as coisas que pode um homem no mundo fazer/Eu só ainda não me apaixonei, como eu amei você”, canta o Birck. Biquínis em Versos é totalmente psicodélica, do vocal pastoso aos versos surreais, como “Som, vertigem/Caubói do asfalto na floresta virgem/Céu, miragem/Macaconautas sob o sol selvagem”. É quase uma psicodelia tradicional – não por acaso, a letra foi escrita em parceria com o Plato Divorak -, não fosse o som de órgão “deslocado” no final da música. Com O Elefante, começa a série de homenagens ao filme The Party (Um Convidado Bem Trapalhão), dirigido pelo Blake Edwards e protagonizado por um Peter Sellers mais do que inspirado. O elefante que aparece no final do filme é a inspiração da faixa, em versos como “Vamos pintar alguns slogans no elefante”, que ilustra uma cena antológica. Iê-iê-iê do Oiapoque ao Chuí lembra muito Aristhóteles, pelo número de sobreposições e de mudanças de ritmo. “É o Iê-iê-iê do Oiapoque ao Chuí/É o estribilho entre curto circuito/É uma brasa, mora/É um grito de gol” são alguns dos versos confusos da faixa. Sei Que Vou Chorar é a que mais se aproxima da Jovem Guarda tradicional, com letra “normal” e ritmo mais constante – dentro do possível, é claro: “Sei que vou chorar, que vou sofrer/Mas vou lutar para esquecer/E superar o que passou/Você machucou meu coração/Pisoteou, jogou no chão/E a chorar deixou-me/E eu nem sei o porquê”. Hrundi V. Bakshi é a segunda parte da homenagem a The Party, pois é o nome do personagem do Peter Sellers no filme. É uma faixa basicamente instrumental, com um clima psicodélico e boas guitarras. A dobradinha Surf Atonal e Surf na Pororoca mostra a felicidade na mistura de Jovem Guarda e surf music com atonalismo. “Perguntem às garotas que se amarram em mim/Por que o meu estilo é dissonante assim?/Estou ligado, nem penso em me desconectar/Do ritmo que é algo mais que transcendental/Não queira me dizer que estou fora do tom/Escandalizem-se os quadrados/Pra mim tá muito bom”, provoca o Birck em Surf Atonal. Já Surf na Pororoca é toda instrumental. As guitarras parecem se multiplicar, sobrepondo-se e criando uma base muito interessante. Pra quem já acompanhava os trabalhos anteriores do Birck, esse disco não chegou a ser uma surpresa, mas apontou outros caminhos, cada vez mais experimentais. E inquietos, pois uma obra como essa só pode nascer de uma vontade de subverter os estilos e ritmos e processá-los de uma maneira totalmente nova e original. Ou será que alguém já ouviu alguma coisa parecida por aí? |
|||||
| 2006. Freakium! e-zine. Todos os direitos reservados. | ||