O NÃO-LANÇAMENTO
EM DVD
por Matheus Trunk
mtrunk@bol.com.br
O Marginal
Direção: Carlos Manga
Brasil, 1974.
Sempre lembrado no cinema pelas chanchadas,
Carlos Manga teve um único filme “sério” em
toda sua carreira: O Marginal. Produzido pela Cinedistri de
Oswaldo Massaini, o filme foi bem de crítica e de bilheteria,
dando prestígio ao realizador e fazendo mais de um milhão
de espectadores.
O diretor já estava com 46 anos e já tinha vinte e um
longa-metragens no currículo, todos comédias populares.
Alguns, clássicos da chanchada carioca como Matar Ou Correr,
Nem Sansão, Nem Dalila ou O Homem do Sputnik.
Muitos contaram com a presença do cômico Oscarito e foram
produzidos pela companhia cinematográfica Atlântida, a
mais importante da época.
Foi nessa empresa, que o realizador iniciou sua carreira cinematográfica
como assistente aos dezenove anos. Ganhou sua primeira grande chance
dirigindo os números musicais de Carnaval Atlântida
de José Carlos Burle, em 1953, ano em que também faz seu
primeiro longa Dupla do Barulho, protagonizado pela dupla Oscarito
e Grande Othelo.
Após a febre da chanchada, Manga tornou-se diretor de televisão.
Tendo passagem por emissoras como a Excelsior e a Record, vai depois
a Rede Globo, onde dirigi programas como Chico City. O cinema acaba
ficando em segundo plano na carreira dele.
Em
seu único longa sério, o diretor resolveu caprichar desde
a equipe técnica. Com roteiro original de sua mulher, a atriz
Inalda Carvalho, Manga entregou ao dramaturgo Dias Gomes o argumento.
Os diálogos foram feitos pelo craque Lauro César Muniz,
embora a versão final do roteiro seja do próprio diretor.
Já a fotografia foi do grande Oswaldo de Oliveira, o Carcaça,
que se tornaria lenda da Boca do Lixo. A canção-tema do
filme, interpretada por Wilson Miranda foi composta pela dupla Roberto
e Erasmo Carlos, especialmente para a produção. A assistência
de direção ficou a cargo de Sílvio de Abreu, hoje
consagrado diretor de novelas da Rede Globo.
O elenco, encabeçado por Tarcísio Meira, em uma atuação
extraordinária, tem gigantes e mais gigantes do cinema brasileiro:
Darlene Glória (também muito bem), Anselmo Duarte, Vera
Gimenez, Carlos Kroeber, Francisco di Franco, Ruthneia de Moraes, Maurício
do Valle, entre outros.
O filme conta a história de Valdo, garoto humilde que sendo criado
em instituições de caridades, vê a marginalidade
como um meio de ascensão social. Envolvido injustamente com um
grupo de bandidos da alta sociedade, acaba matando e sendo condenado
a catorze anos de prisão. Uma ex-namorada sua, Leina (Darlene
Glória), diz estar esperando um filho dele. Valdo tenta mudar
de vida em virtude do filho, que passa a ser a razão de sua existência.
Tarcísio Meira merecia um Oscar por dar vida a um personagem
de forma tão impressionante, sendo este seu maior papel no cinema
até hoje. Mesmo papéis importantes do ator em filmes de
Walter Hugo Khouri ou em A Idade da Terra de Glauber Rocha,
não têm a mesma grandeza desse trabalho.
Infelizmente, Manga nunca mais voltaria aos filmes sérios. Dirigiu
somente mais duas vezes: em Assim Era A Atlântida (1975),
documentário sobre os tempos de chanchada e Os Trapalhões
e O Rei do Futebol (1986), comédia dos Trapalhões
com o rei Pelé. O Marginal, permanece como o mais audacioso,
ambicioso e interessante trabalho do realizador.