CHICO BUARQUE VS. DOM
& RAVEL
MEU CARO AMIGO CHICO
AS CONTRADIÇÕES DE CHICO BUARQUE E SUA
CAMPANHA CONTRA DOM & RAVEL
por Matheus Trunk
mtrunk@bol.com.br
“Chico? Que Chico? O Chico Anysio?”,
popular ao ser perguntado se gostava do Chico.
“Esses porras são péssimos
músicos, péssimos letristas, péssimos em caráter,
péssimos em tudo... São primários” Chico
Buarque sobre Dom & Ravel, em entrevista ao “Bondinho”
de dezembro de 1971.
“E sempre eles acham que estão
certo demais” faixa “Animais Irracionais”, Dom &
Ravel, LP “Dom & Ravel”, Beverly, 1972.
Chico Buarque é o artista preferido dos intelectuais brasileiros.
O autor de “A Banda” conquistou isso principalmente ao longo
dos anos da repressão militar, em que discos como “Construção”
ou “Meus Caros Amigos” despertavam a ira dos milicos e a
paixão dos jovens descontentes com o regime. Tanto como compositor
ou como intérprete, ele acabou marcando a MPB de modo definitivo
e consagrador.
Mesmo assim, esse verdadeiro intocável da música nacional
tem suas contradições. Muitas delas esquecidas por seus
fãs e admiradores, que acabam o idolatrando de forma total.
O artista mais amado da música brasileira cult tem posições
políticas extremamente contraditórias. Apoiador do PT
e de Lula desde a eleição de 1989, hoje em dia desconversa
quando o assunto é política. Mas não esconde que
continuará votando no mesmo partido.

Chico Buarque: o principal ídolo musical da
esquerda brasileira na Ditadura Militar
Se aliando a pensamentos esquerdistas, Chico é contrário
às grandes organizações de comunicação
do país como a Rede Globo. Da mesma Globo que é contra,
o cantor carioca já participou de diversas trilhas sonoras de
novelas desde a época da Ditadura.
O curioso é que as trilhas sonoras nacionais de novelas brasileiras
são normalmente feitos de nomes bem reconhecidos da nossa música,
normalmente pertencentes ou a modernidade musical da Bossa Nova ou a
tradição do samba com raras exceções. Novelas
como “Pecado Rasgado”, “Espelho Mágico”,
“Duas Vidas”, “Dancin´Days”, “O
Astro”, “O Casarão” mereceram pelo menos uma
música do filho do historiador Sérgio Buarque de Hollanda.
Chico acusou e ainda acusa a emissora carioca de ter sido conivente
com a Ditadura então instalada no país. Mesmo assim não
tardou em fazer canções e participar de trilhas sonoras
feitas pela emissora.
Continuando na polêmica Chico Buarque e Globo, é interessante
pensar que embora contrário ao conteúdo e o perfil dela
o cantor não se negou a gravar discos pela gravadora Som Livre,
pertencente ao mesmo grupo de comunicação da emissora.
Na gravadora, por exemplo, Chico lançou dois discos ao lado de
Edu Lobo: O Grande Circo Místico e O Corsário
do Rei.
Embora suas canções sejam sobre meninos que se alimentam
de luz e retirantes miseráveis, a realidade da vida do compositor
é bem diferente dos personagens de suas canções.
Morador e freqüentador de praias e ambientes chiques como Ipanema
e Copacabana, pode ser encontrado quase diariamente fazendo cooper,
para manter a forma no calçadão da praia.
Também indo quase mensalmente a Europa, onde ele é mais
conhecido como escritor do que como cantor-compositor. Seus livros e
best-sellers como Budapeste, vem o tornando o Paulo Coelho
dos intelectuais brasileiros. Por isso mesmo, dois de seus quatro livros
se tornaram filmes: Estorvo (dirigido por Ruy Guerra) e Benjamin
(dirigido por Monique Gardenberg).
É essa Europa que ele faz questão de mostrar no extenso
documentário sobre ele, já devidamente lançado
em diversas caixas de DVD e passando semanalmente numa emissora de televisão.
Mas as contradições não param aí: no documentário:
o compositor de “Carolina” encontra Pelé, e se dizem
amigos, batendo longo papo. Engraçado que nos anos 70 Pelé
era bem mais amigo de outro tipo de intérpretes e compositores,
como por exemplo Agnaldo Timóteo (escrevendo contracapas de dois
discos do cantor mineiro) e de Moacyr Franco (dando músicas feitas
por ele mesmo Edson Arantes do Nascimento, o Pelé para o cantor
e humorista).
No velho continente também foi onde também o cantor e
compositor carioca deu um jogo especial durante a Copa do Mundo neste
ano. Embora tenha declarado que o holocausto seja o fim do mundo, o
compositor de “Pedro Pedreira” não passa muito tempo
longe de países como a Alemanha. Engraçado que são
depois cantores como Sérgio Mendes e Marcos Valle que são
conhecidos como “entreguistas”.
Chico Buarque armou na época uma imensa campanha contra a dupla
popular/cafona Dom & Ravel. Quando seu alter-ego Julinho de Adelaide
(pseudônimo usado pra fugir de uma ditadura) realizou uma entrevista
ao jornal “Última Hora” em 09 de setembro de 1974,
satirizando a dupla.
Abrindo um parênteses, é interessante notar como a esquerda
brasileira não olha suas faltas históricas. “Última
Hora”, jornal de Samuel Wainer, só foi dado a ele por Getúlio
Vargas para ser um divulgador da opinião do então presidente.
Muitos se esquecem, mas antes de ser um grande jornal, essa publicação
encobria muitos crimes que Getúlio fez durante seu governo autoritário
do Estado Novo (30-45), uma espécie de primeira Ditadura Militar.
Mas como é de esquerda, essa história fica debaixo do
tapete.
O personagem fictício Julinho de Adelaide, ao ser entrevistado
por um repórter amigo seu e sabendo que na verdade o tal Julinho
nunca existiu possibilitou a Chico ironizar a dupla: “Admiro essa
dupla, Dom e Ravel, pela oportunidade que eles aproveitaram em determinado
momento de fazer uma música determinada. E é mais ou menos
esse tipo de trabalho que eu faço”.
Na mesma entrevista, travestido de outra pessoa que ainda por cima não
existia, o artista aproveita também para tirar sarro do cantor
Wilson Simonal. Também patrulhado pela ideologia esquerdista
de plantão, o cantor de “Sá Marina” foi ironizado
pelo o rei da M-P-B que disse achar ele: “Nota 10”.
O artista mais escutado por aqueles que estiveram no movimento esquerdista
e esquerdizante, de certa forma, colaborou assim para apagar a imagem
pública de Wilson Simonal. O cantor negro permaneceu injustiçado
durante todo o resto de sua vida. Simonal era alvo fácil dos
esquerdizantes: estava mais preocupado com carros e mulheres. Negro,
de origem humilde, era um gigante como cantor. Inveja, ódio e
hipocrisia são temas que essa intelectualidade tão nobre
e tão inteligente parece deixar pra trás.
Em outra entrevista ao “Bondinho” de dezembro de 1971, três
anos antes e como Chico Buarque mesmo, o cantor carioca foi mais sincero
e mais irônico em relação a dupla cearense: “Dom
& Ravel são horrorosos, e são primários entende?
São compositores de colégio” e depois chutou o balde:
“Esses porras são péssimos músicos, péssimos
letristas, péssimos em caráter, péssimos em tudo...
São primários”. Depois, o cantor de “A Banda”
negaria essa entrevista. Por que? Será vergonha? Será
por ter alguma culpa no cartório? São questões
que nunca teremos respostas. Com sua grande reputação
junto aos críticos e intelectuais, ele não moveu uma palha
em defesa de Wilson Simonal, que acusado pelo público de Chico,
teve sua carreira destruída.
Dom & Ravel e Wilson Simonal que, dizem, elogiaram a Ditadura Militar,
fizeram como todo mundo em sua época. São inúmeros
artistas que tenham feito isso durante o governo Médici, um período
dos mais ufanistas da história da MPB. A toda poderosa Elis Regina,
por exemplo, que hoje passou a ser a mãe da Maria Rita, por essa
geração de teses de mestrado e doutorado das grandes universidades
do Brasil também teve uma participação no gênero.
A mamãe da Maria Rita, gravou a ufanista marchinha “Aquarela
do Brasil” de Ary Barroso, no auge da repressão do marechal
Emílio Garrastazu Médici.
Não dá pra entender como Dom & Ravel são ufanistas
e artistas como Jorge Benjor, compositor de temas tão nacionalistas
como “País Tropical” e “Brasil, Eu Fico”
no auge da repressão é cult. Mas não é
somente ele: Luiz Vieira, nome destacado da velha-guarda fez uma música
chamada “Transamazônica” no mesmo período,
elogiando a monumental obra do mesmo presidente Médici. Já
o genial Roberto Silva, influenciador de João Gilberto tem uma
macha negra em sua carreira: um disco com faixa-título bem direta:
“Protesto Ao Protesto”.

A dupla Dom & Ravel considerados por Chico como: "péssimos
músicos,
péssimos letristas,
péssimos em caráter, péssimos em tudo..."
Até o sambista cult do Teatro de Opinião, e acompanhante
de Nara Leão Zé Kéti fez uma sua no repertório
ufanista: “Sua Excelência, A Independência”.
Falando-se em sambistas é notável a participação
destes em composições do mesmo estilo patriótico.
O sambista Pedrinho Rodrigues fez dois discos geniais no regime repressor
que se tornaram legado de um Sambe... Ou Se Mande, volumes
1 e 2. Já Jorginho do Império, filho do grande Mano Décio
da Viola fez o LP Brasil... Quem Quiser Pode Ir. Até
o hoje cultuadíssimo Ivan Lins fez sucesso em seu início
soul com “O Amor É Meu País”. Depois Lins
trocaria de repertório e de parceiro musical pra poder ser absorvido
pela crítica de plantão.
À dupla cafona também é atribuído muitas
canções de cunho nacionalista-ufanista que não
pertencem a eles. Canções como “Pra Frente Brasil”
(de Miguel Gustavo, que compunha especialmente pra Moreira da Silva)
e mesmo “A Taça do Mundo É Nossa” (de Maugeri,
Dagô e Muller). Gustavo, aliás compôs dezenas de
músicas do mesmo gênero como “Brasil Eu Adoro Você
!” e mesmo a “Marca do Sesquicentenário da Independência”
(gravada por Miltinho). Heitor Carillo, foi outro nome de destaque nesse
tipo de música fornecendo diversas composições
para o grupo Os Incríveis como: “Este É Meu Brasil”,
“O Brasil É Feito Por Nós” e a mais famosa
“Este É Um País Que Vai Pra Frente”. Muitas
vezes dezenas dessas músicas são atribuídas para
a dupla Dom & Ravel erroneamente. Como você pode ver, não
foram somente eles que fizeram composições ufanistas.
A campanha contra a dupla Dom & Ravel e o cantor Simonal não
se restringiu a esse cantor intelectual. Ela se expandiu em publicações
esquerdistas como “O Pasquim”. O famoso jornal carioca chegou
a institucionalizar o prêmio “Simonal de Ouro” para
figuras sociais consideradas “dedo-duro” ou simpatizantes
do Regime Miliar . Em 1972, por exemplo, grandes figuras da sociedade
brasileira da época identificados com o regime se encontravam
numa charge da publicação chamada de “cemitério
de mortos vivos”. Personalidades como Hebe Camargo, Zagalo, Sérgio
Mendes e Jece Valadão se encontravam ao lado de Simonal e Dom
& Ravel. O cantor, ainda é
desmoralizado de forma tão preconceituosa na charge, que seu
nome não é escrito da forma correta com a letra S normal
inicial e sim com um S cifrão: $imonal.

O cantor Wilson Simonal: outro alvo das patrulhas
ideológica
O próprio imortal da música brasileira, Chico Buarque
não reclamou de uma de suas composições (“Carolina”)
ser incluída no disco de preferidas do presidente Costa &
Silva. E olhe que Chico recebeu dinheiro por esse trabalho, embora hoje
deva negar até a morte. Esse LP, lançado pela gravadora
nacional Copacabana em 1968, tinha como cantor Agnaldo Rayol. Se intitulava:
As Minhas Preferidas: Na Voz de Agnaldo Rayol - Presidente Costa
e Silva.
A dupla Dom & Ravel, permanece quase virgem de estudos das grandes
academias de conhecimento sem-vergonha e preconceituoso do Brasil. Na
verdade, fora o brilhante estudo de Paulo César de Araújo
que se tornou livro em 2002 (“Eu Não Sou Cachorro Não-
Música Popular Cafona e Ditadura Militar”), não
se tem idéia de outros trabalhos que tratem da dupla. Já
Chico é tema de diversas teses de mestrado, doutorado, monografias
e grandes babaquices das academias de ensino nacionais.
Longe também da Alemanha, da Globo, da “Veja” e dos
programas de auditório (não por opção própria),
de Copacabana, de trilhas sonoras de novelas, de futebol e até
do cooper de Ipanema, se encontram Dom & Ravel. Eles não
moram em belos prédios, nem em bairros grã-finos. Na verdade,
Ravel (o único sobrevivente da dupla), hoje infelizmente cego,
vive no isolado bairro da Cantareira, em São Paulo.
Não sendo filhos de escritores, historiadores e tudo mais, Dom
& Ravel eram cearenses que migraram para os centros urbanos em busca
de uma vida mais digna. Deram um azar danado de fazerem um baita sucesso
com uma marcha ufanista quando uma geração de “intelectuais
de plantão” estava precisando de um “bode expiatório”.
O curioso de tudo é que apesar de não fazerem cooper em
Ipanema ou nas academias de letras e formas da esquina, Dom & Ravel
já recebiam tamanho preconceito na adolescência. que tinham
de entrar em apartamentos de amigos pela porta de serviço, por
serem nordestinos.
O preconceito que receberam aí, receberam de volta ao fazerem
“Eu Te Amo, Meu Brasil, Eu Te Amo”, estão obrigados
até hoje a entrar na porta dos fundos. Mas não de apartamentos
de amigos, mas sim de toda a música popular brasileira.
Quem seriam, então os péssimos da história que
o cantor e ídolo esquerdizante se refere em sua entrevista ?