OUTROS DISCOS BRASILEIROS
MÚSICA BREGA
por Matheus Trunk
mtrunk@bol.com.br
Embora nos anos 70, uma parte dos brasileiros
idolatrasse discos como Caros Amigos e Araçá
Azul e cantores como Chico Buarque, Jorge Ben e Milton Nascimento,
eram outros discos e outros artistas que moviam as mentes e os corações
da maioria dos brasileiros naquela época.
Artistas populares como Odair José, Waldik Soriano e Evaldo Braga
mobilizavam as massas populares, indo sempre a programas de auditório
na TV e tendo suas sempre músicas tocadas no rádio. Muita
gente pode nem gostar, mas conhece ainda hoje algum trecho de canções
como “Eu Não Sou Cachorro Não”, “A Última
Canção” ou “Uma Vida Só (Pare de Tomar
A Pílula)”.
Como na música brasileira, tudo que não é tradição
ou modernidade é brega ou cafona, o gênero acaba incluindo
diversas gerações de artistas brasileiros de diversos
gêneros. Nos anos 70, a música brega estava presente em
três temáticas: a balada (herdada da Jovem Guarda e sempre
na cola do rei Roberto Carlos), o bolero (herdada da Espanha e da geração
cafona dos anos 60) e o samba jóia (samba de inspiração
romântica, que ganhou esse pejorativo nome). Separamos dez discos
fundamentais do período, que são uma pequena e concreta
amostra da música cafona do período e uma pequena homenagem
a seus protagonistas.
Embora o preconceito com tudo que seja brasileiro esteja descarado até
hoje a quem corra atrás de discos e informações
desses artistas, é possível achar pessoas empenhadas em
tentar mudar essa realidade. Trabalhos da qualidade e da coragem como
o livro Eu Não Sou Cachorro Não: Música Popular
Cafona e Ditadura Militar do historiador Paulo César de
Araújo, publicado pela Editora Record em 2002 tem acelerado o
processo de aceitação dos artistas cafonas por novas gerações.
Diversos são os artistas, compositores, produtores, donos de
gravadora e músicos que colaboraram de forma definitiva no período
que infelizmente não puderam entrar na lista. A todos eles o
nosso respeito e nosso muito obrigado e a esperança por uma reeleitura
mais pop e menos xenofóbica, preconceituosa, política
e sem pé nem cabeça da música popular brasileira.

O primeiro e mitológico disco
do cantor Paulo Sérgio
Paulo Sérgio - Paulo Sérgio vol 1 (1968, Caravalle)
O ex-alfaiate capixaba Paulo Sérgio gravou seu primeiro e mitológico
LP pela pequena gravadora brasileira Caravalle de Adiel Macedo de Carvalho,
em 1968, nos fins da Jovem Guarda, sem grandes pretensões comerciais.
Seu primeiro álbum alcançou um imediato e espetacular
sucesso, que o todo poderoso Roberto Carlos da multinacional CBS teve
de se declarar “o inimitável” em seu trabalho seguinte.
Com grandes compositores do universo cafona (Elizabeth, Nenéo,
Carlos Imperial, Reynaldo Rayol e o genial Carlos Roberto), de baladas
bregas de grande qualidade explodiam no disco ("Não Me Trate
Como Um Cão", "No Dia Em Que Parti", "Sorri
Meu Bem", "Gosto Muito de Você", "Não
Sei Te Esquecer", "Pro Diabo Os Conselhos de Vocês")
e junto com o sucesso extraordinário de “A Última
Canção”, se tornou o trabalho definitivo e mais
fundamental do cantor. Dali pra frente, sua carreira continuaria repleta
de sucessos (como “Minhas Qualidades, Meus Defeitos”, “Índia”
ou mesmo “Eu Te Amo, Eu Te Venero”) e gravando mais discos
(mais treze) até a morte prematura de PS em 1981, aos 37 anos.
Mas em 1968, Paulo Sérgio era o pior pesadelo de RC.
Benito Di Paula - Gravado Ao Vivo
(Copacabana, 1974)
O trabalho consagrador do sambista Benito Di Paula que começava
a formar seu público e seu grande sucesso em todo Brasil durante
os anos 70. Com o piano afinadíssimo e canções
que agradavam o público em massa, Benito conseguiu obter seus
maiores sucessos com esse trabalho. Canções como “Charlie
Brown”, “Beleza É Você Mulher”, “Vou
Cantar, Vou Sambar”, entre outros tornaram-se grandes sucessos
nacionais. Mas o cantor também fazia referência a Geraldo
Vandré que estava exilado do país (“Tributo A Um
Rei Esquecido”) e mesmo músicas de forte conotação
de crítica social, como “Pare, Olhe e Viva”. Benito
continuaria gravando diversos LPs, compondo para grandes estrelas da
música brasileira (como Roberto Carlos, Demônios da Garoa,
Cauby Peixoto, Jair Rodrigues, Milton Banana Trio, Ângela Maria,
Agnaldo Timóteo, entre outros) e dando muitos shows pelo país,
como continua até hoje, tendo recentemente feito uma grande temporada
no Bar Brahma, no centro de São Paulo.

Perdido Na Noite de Agnaldo Timóteo,
parte da "trilogia da noite" do cantor
Agnaldo Timóteo - Perdido Na Noite (EMI-Odeon, 1976)
A voz de Agnaldo Timóteo continuava o levando as paradas de sucesso
na segunda metade dos anos 70. Hoje político de partido reacionário,
Timóteo foi um dos grandes inovadores na canção
brasileira, trazendo temas esquecidos pela grande mídia como
o homossexualismo e mesmo o racismo. Sua trilogia pasoliniana da noite
inicia-se com o disco A Galeria do Amor (75) (referência
a galeria Alaska, ponto de encontro homossexual no Rio de Janeiro),
continua neste Perdido Na Noite e se encerra em Eu Pecador
(77). A genial faixa-título, composta pelo próprio Timóteo
dava as ordens do disco: "somos amantes do amor liberdade/somos
amados por isso também/e se buscamos uma cara-metade/como metade
nos buscam também". Timóteo e sua poderosa voz fazem
um passeio romântico pela madrugada declarando-se “O Conquistador”
e mesmo um aventureiro (“Aventureiros”). Regrava Chico Buarque
de maneira excepcional (“Olhos Nos Olhos”) e faz lindas
reeleituras de grandes sucessos românticos do passado (“Abraça-me”,
“Lábios de Mel”). Os arranjos são do mitológico
maestro Pachequinho e com diversas músicas do também mitológico
Don Mita (que tocava soul com Tim Maia e compunha músicas populares
para bregas/cafonas). A contracapa tem o curioso fax do jogador Edson
Arantes do Nascimento, o Pelé para Timóteo com os dizeres:
“Agnaldo Timóteo: a música é como o esporte.
Uma transa rítmica universal (...) um abração de
seu amigo e admirador, Pelé”.
Luiz Ayrão - Luiz Ayrão
(EMI-Odeon, 1977)
Disco antológico de Ayrão, aqui em sua melhor fase. Continuando
o sucesso obtido com “Silêncio da Madrugada” e “Porta
Aberta” lançou este curioso e extraordinário trabalho
em 1977. Disco que brincava com a Ditadura Militar, em voga no país
que completava treze anos naquela oportunidade. A música “Divórcio”,
que embora de nome romântico, tinha uma clara temática
política em sua letra: "treze anos eu te aturo/eu não
suporto mais (...)/você vem me infernizando como Satanás/você
vem me enclausurando feito Alcatraz (...)/um dia eu perco a timidez
e falo sério/eu vou para o xadrez ou cemitério/mas acabo
de uma vez com teu império". Ayrão estava tão
em forma que conseguia mandar seu recado a Chico Buarque (“Meu
Caro Amigo Chico”), falar da querida Portela (“O Que Que
Há Portela”, “Mulher A Brasileira”), se debruçar
na música romântica (“Os Amantes”, recentemente
regravada pelo cantor Daniel na novela América), estar presente
no duplo sentido de “Não Pise Na Grama” e mandar
seu recado a juventude “Sou Estudante”. O melhor trabalho
de toda carreira de Ayrão, que precisa urgentemente ser relançado
em CD.
Nelson Ned - Nelson Ned vol 3
(Copacabana, 1972)
Um “gigante da canção” vindo de Minas Gerais
de apenas noventa centímetros sendo um dos maiores cantores/compositores
do país. Somente nos anos 70 isso poderia acontecer. Após
os êxitos iniciais na gloriosa gravadora nacional Copacabana de
“Tudo Passará” e “Domingo A Tarde” Nelsinho
gravou um de seus melhores e mais interessantes trabalhos em 1972. Este
Nelson Ned vol 3, conta com o grande talento desse gênio
tanto como cantor como compositor. A última faixa do lado B “Ninguém
Irá Te Amar” explode de romantismo na voz de Nelsinho;
“Deus Abençoe As Crianças” é uma das
canções mais Brasil 70's e toda a genialidade da poesia
cotidiana cafona está simplesmente deslumbrante na forte e bela
“Traumas de Infância”. Disco dos mais básicos
e dos mais fáceis de ser achados desse verdadeiro gigante de
grandes talentos musicais. Nelson Ned continuaria sua trajetória
de grande sucesso no meio cafona, principalmente no Exterior, onde chegou
a tocar em diversos países de língua hispânia e
sendo o único cantor brasileiro a ter a chance de fazer um show
único no Carneggie Hall, templo do jazz norte-americano e da
Bossa Nova.

Odair José: o "Bob Dylan da Central do
Brasil"
Odair José - Odair José (Polydor, 1973)
Se Odair José é realmente o “Bob Dylan da Central
do Brasil” ou o “terror das empregadas” é difícil
de afirmar. Mas que ele foi um dos maiores nomes da canção
brega e foi o grande concorrente romântico de Roberto Carlos no
decorrer dos anos 70, parece claro e óbvio para qualquer um.
Brilhante tanto como cantor, como compositor o jovem goiano, na época
com apenas vinte e cinco anos preparou um de seus mais bombásticos
e dissecantes trabalhos. Todos os seus sucessos mais básicos
estão no disco. Músicas como “Deixa Essa Vergonha
de Lado” sobre as empregadas, a romântica “Eu, Você
e A Praça” e mesmo tratando de temas difíceis em
73 como “Revista Proibida”. Mas o mega-sucesso que embalou
todo mundo nesse ano foi mesmo “Uma Vida Só (Pare de Tomar
A Pílula)”, que parece ter vendido mais discos do que vitrolas
no ano de seu lançamento e canção mais conhecida
de Odair. Nunca relançado em CD, o disco original permanece inédito,
enquanto muitas de suas faixas podem ser adquiridas em coletâneas
caça-níqueis.
Evaldo Braga - O Ídolo
Negro vol II (Polydor, 1972)
Alguns artistas ficam presos ao rótulo de “brega”
ou “cafona” e sua história e trajetória é
simplesmente esquecida. Evaldo Braga, é um dos maiores nomes
da canção brasileira de todos os tempos, e merecia um
melhor compreensão da crítica e dos “intelectuais”.
Esse gigante da canção popular, gravou apenas dois discos
antes de sua prematura morte aos 25 anos, em 1972, em um acidente de
carro. Sua morte trágica, apenas aumenta seu legado de cantor
e autor de temas extremamente pessoais. O grande sucesso “Sorria
Meu Bem” é lembrada até hoje. Mas muita coisa desse
disco permanece esquecida. “Mentira” do gênio Oscar
Navarro é uma delas, “Tudo Fizeram Para Me Derrotar”,
“Eu Não Sou Lixo” e outras baladas que acabaram consagrando
Braga como um gigante da nossa música. Suas músicas continuam
tocando freqüentemente em estações de rádio,
já que seu público nunca o abandonou, já que um
artista de sua grandeza vai além do famigerado e ás vezes,
idiota rótulo “brega” ou “cafona”. Os
dois discos de Evaldo nunca foram relançados em CD, o que demonstra
o abandono e o pouco caso que andam as gravadoras brasileiras.
Paulo Sérgio - Paulo Sérgio
vol 7 (Beverly, 1972)
Em 1973, Gal Costa regravou a guarânia “Índia”,
originalmente sucesso na voz da dupla caipira Cascatinha e Inhana. Os
críticos se babaram e deliraram com a cantora tropicalista. Mas
o disco não vendeu nada, sendo uma verdadeira “prateleira”
como diria Dilermando Pinheiro. Acompanhado pelos incendiários
Os Carbonos (maior conjunto brega/cafona que já houve no Brasil),
Paulão também fez a sua pequena e singela versão
de “Índia”. Infelizmente, a versão não
agradou os mesmos críticos que adoraram Gal. Mas fez enorme sucesso,
levando sua genial versão de “Índia” ao topo
das paradas de sucessos, tornando-se um dos maiores clássicos
do cantor capixaba. Além de “A Índia”, Paulo
Sérgio com sua voz rasgada, suas calças bocas-de-sino
detonava grandes canções bregas/cafonas como “Nem
Mesmo Cristo”, “Falta Alguém Em Nossa Vida”,
“Máquinas Humanas”, “Rosana”, entre outras
e a melhor e mais incendiária versão de “Índia”.

O cantor Waldik Soriano, famoso pelo sucesso
"Eu Não Sou Cachorro Não"
Waldik Soriano - Ele Também Precisa de Carinho (RCA Victor, 1972)
A Bahia deu diversos artistas que marcaram a música
brasileira de forma total: gente como Caetano Veloso, João Gilberto,
Gilberto Gil, Dorival Caymmi e mesmo Waldik Soriano. Com ser o maior
cantor/compositor de bolero que o Brasil já teve não bastava
a Waldik, teve de inventar um dos personagens mais interessantes que
a cultura brasileira já conheceu: um homem que anda sempre de
terno e gravata negros, óculos escuros e chapéu. Esse
personagem fez dele, ex-garimpeiro, lavrador, engraxate e mesmo motorista
de caminhão, uma das maiores vozes que a nossa música
já conheceu. Iniciando carreira nos anos 50 na Chantecler, passando
depois para a Copacabana, Continental, até ser contratado a peso
de ouro pela multinacional RCA Victor. Em 1972, Waldik gravou este LP
em que aparece na capa ao lado de um cachorrinho intitulado “Ele
Também Precisa de Carinho”. Com coordenação
artística do grande poeta/cantor/compositor Osmar Navarro e arranjos
do maestro Portinho, Waldik borbulha em temas de dor-de-cotovelo como
“Sem Bolo e Sem Vela”, “Taça da Amargura”,
“Aquilo Que Não Presta A Gente Joga Fora”, “O
Lado Bom da Vida” e mesmo “Se Tem Que Ser Adeus...Adeus”.
Mas o sucesso ficaria pela onipresente “Eu Não Sou Cachorro
Não” até hoje a música mais conhecida de
Soriano e que se tornou um verdadeiro ditado popular pelo país.
“Quem pensar que é covardia/eu chorar porque amei/ame apenas
por um dia/depois diga se eu errei”, não erre e dê
uma chance a um grande cantor/compositor abandonado pelos intelectuais
que ficam de joelhos a qualquer trabalho de um membro do primeiro time
da MPB.
Dom & Ravel - Alegria Tropical vol 1 (NGS, 1990)
Para terminar a lista, somente botando artistas que permanecem e forma
jogados no limbo do limbo da história musical do Brasil. Dom
& Ravel é o mais representativo de todos deles. Aristas comuns,
populares entraram no barco furado de elogiar o Brasil em uma época
em que isso não era muito recomendável. Pobres, nordestinos,
que tinham de entrar nos apartamentos dos amigos pelas portas do fundo,
foram condenados por fazerem o que todo mundo fazia, elogiar o país.
Por que isso não aconteceu também com Jorge Ben? Que apesar
de “País Tropical” e outras coisas tornou-se cult?
Elis Regina (que regravou “Aquarela do Brasil” durante o
governo Médici)? Ou Chico Buarque, um dos compositores favoritos
de Costa e Silva? ou até mesmo com o cantor de velha-guarda Roberto
Silva, que fez um LP intitulado “Protesto Ao Protesto” em
pleno governo Médici, o mais linha-dura de todos ou mesmo o tão
elogiado e cult Jair Rodrigues que gravou um disco chamado “Sambe
Ou Se Mande”??
Não, tudo isso ficou para os pequenos Dom & Ravel, para estes
pagarem por todos os outros. Por isso, os intelectuais que votam no
PT, o pessoal dos direitos humanos e tudo mais irão condená-los
como todos condenaram facilmente. Hipocrisia continua na cara dessas
pessoas. Tudo ficou para um pequeno (Dom & Ravel) pagar por toda
sigla política M-P-B. Este disco de 1990, foi um gigantesco e
glorioso fracasso. Há muito tempo afastados das gravadoras, programas
de TV, rádio, ETC a dupla fez um disco que influenciou e criou
diversos fenômenos musicais passageiros nos anos 90 e início
do século 21. Tais como o funk carioca, o axé, o oxum,
já eram todos previstos por Dom & Ravel nesta obra-prima
de 1990. Músicas como “Chegou O Trio Elétrico”,
“Alegria Em Nosso Ninho”, “Começou A Rabaneira”,
fizeram a alegria de meia dúzia que compraram este disco, numa
época em que tudo caminhava para o novo formato fonográfico,
o CD. Não integrados a isso, a dupla de irmãos
cearenses continuou suas estripulias com “Piu Piu” (parceria
antiga com o apresentador de auditório e humorista Raul Gil),
“Boca Livre” e a obra-prima “Rua do Caminho”.
Ainda tiveram tempo e espaço nesse disco para regravar o “maldito”
sucesso “Eu Te Amo Meu Brasil, Eu Te Amo”, mandando os intelectuais
de plantão que andam com livros e camisas do Che Guevara as favas,
proclamando a música brega/cafona. O líder da dupla, Dom,
já morto, sofreu muito com tudo que aconteceu a eles. Já
Ravel, ainda vivo está cego e vive no bairro de Santana, zona
norte paulistana isolado e esquecido. Esses são artistas brasileiros,
não intelectuais de plantão, nem comunistas de classe
média que papai paga tudo.