O IBRAHIM DO SUBÚRBIO
O NÃO LANÇAMENTO EM DVD

 

 

por Matheus Trunk

 

O Ibrahim do Subúrbio
Direção: Astolfo Araújo (primeiro episódio) e Cecil Thiré (segundo episódio)
Brasil, 1976

As fitas de episódio foram herdados pelo cinema brasileiro do italiano, onde esse modelo teve grande sucesso. O filme de episódios era um modelo de cinema barato e rápido, sendo rapidamente estabelecido no Brasil.

Nos anos 70, esse modelo cinematográfico prosperou no cinema nacional. Principalmente nas pornochanchadas, que tiveram grande destaque justamente nessa época. Mas os filmes episódicos não se resumiram as comédias eróticas. Filmes como “O Ibrahim do Subúrbio” é um exemplo disso, sendo uma “comédia de costumes” seguinte o crítico Rubens Ewald Filho.


Heloísa Mafalda e Lucélia Santos em cena de "O Ibrahim do Subúrbio"

Produzido por Pedro Carlos Rovai, especialista em pornochanchadas cariocas tanto como produtor (“Os Mansos”, “Luz, Cama, Ação”, “Lua-de-mel e Amendoim, entre outros) ou diretor (de clássicos como “A Viúva Virgem” e “Ainda Agarro Essa Vizinha”), a fita é dividida em dois episódios. O primeiro é dirigido por Astolfo Araújo, intitulado “Roy, O Gargalhador”, que traz o ator paulista Paulo Hesse como Roy, um chefe de uma família simples da zona norte carioca que aceita ser um gargalhador profissional de auditórios da televisão para melhorar de vida. Ajudado pelo amigo Coruja (feito pelo onipresente e recordista Wilson Grey), ele terá sempre de rir de tudo, até de sua própria vida.

Mas o melhor episódio do filme é mesmo o segundo e último, dirigido por Cecil Thiré. Esse episódio possui o mesmo nome da película: “O Ibrahim do Subúrbio”. Ator em diversas novelas e filho da atriz Tônia Carrero (uma das mulheres mais desejadas do Brasil nos anos 50) e do cineasta da Vera Cruz Carlos Thiré, Cecil dirigiu um único longa-metragem: “Diabo Mora No Sangue” (1967). Esse filme é um drama sobre incesto passado no interior de Goiás, que teve em sua época diversos problemas com a censura.

No segundo episódio de “O Ibrahim do Subúrbio”, o gigante José Lewgoy (1920-2003), imortal do cinema brasileiro tem talvez sua única chance como protagonista em toda sua longa carreira cinematográfica. Para quem não sabe, Lewgoy além de ser um tio ou um avô chato em qualquer novela de péssima qualidade, foi o terceiro ator que mais atuou em toda a história do cinema brasileiro, perdendo somente para Wilson Grey e Sérgio Hingst. Casimiro de Abreu, o personagem de Lewgoy no filme, é um chefe de família e pobre-diabo que mora no subúrbio carioca de Quintino, mas metido a milionário da high society. Admirador do colunista Ibrahim Sued, vive a conversar com seu passarinho Rubinosa, que parece ser o único a entendê-lo.


José Lewgoy, ator que tem em "O Ibrahim do Subúrbio" o melhor papel de sua carreira

Quando sua filha Adelinha (interpretada pela lindíssima Lucélia Santos, em seu primeiro papel no cinema, com apenas dezenove anos) engravida de seu namorado Xanduco (Luiz Fernando Guimarães), o que leva Casimiro a promover o casamento dos dois. Mas promove de um jeito todo especial: pega todas as economias da família para dar uma grande festa e tenta dar a notícia de um simples casamento de subúrbio na coluna de seu ídolo, Ibrahim. Mil reviravoltas acontecerão. Outra contribuição importante na qualidade do filme, é a presença da grande atriz Heloísa Mafalda, que embora tenha feito inúmeras novelas, atuou espaçadamente no cinema.

O especial da fita é a capacidade de Lewgoy de dar grande vivacidade ao personagem e marcar o filme. Puto da vida por ser sempre lembrado como vilão em cinema, o ator consegue fazer aqui seu maior papel em toda sua carreira cinematográfica. O grau de semelhança entre o ator e o colunista social Sued é tamanha, que as impagáveis frases como “Sorry periferia” ou “bola preta” “bola branca”. Por este papel, o ator recebeu o prêmio de melhor ator no V Festival de Gramado de 1977.

A grandeza de um artista como José Lewgoy, as inúmeras cômicas situações que seu personagem Casimiro de Abreu se mete, um elenco genial e outros ingredientes tornam “O Ibrahim do Subúrbio” uma fita impagável. Resta que possa, num novo formato, o DVD redescobrir o filme.

 

 
     

 

 
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