TOP 10
BOCA DO LIXO

 


Por Matheus Trunk
mtrunk@bol.com.br

Você clicou aqui imaginado que era um TOP 10 qualquer de cinema brasileiro ? que como qualquer lista você só ia achar filmes de cineastas como Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos ? errado. Essa é uma lista de filmes da Boca do Lixo. Para quem não sabe, a Boca do Lixo é a maior indústria cinematográfica que o Brasil já teve nos anos 70 e 80.

A Boca possibilitava a produção de filmes comerciais e populares, que tinham grande público. José Mojica Marins, o Zé do Caixão e Amacio Mazzaropi eram somente alguns dos cineastas que freqüentavam as esquinas das ruas Aurora e Triumpho, centro de São Paulo. Flertando inicialmente com o Cinema Marginal, a “estética Boca do Lixo” se notabilizou por produções baratas e filmes dos mais variados gêneros. Desde pornochanchadas, pornodramas, westerns, policiais, horror, comédias, filmes de suspense, tudo era feito na “Hollywood brasileira”. Porém, sempre com a marca inconfundível da Boca, que conseguiu produzir em um curto espaço de tempo mais de 700 títulos. Hoje, praticamente esquecida, essa produção merece atenção das faculdades e dos pesquisadores, já que sua contribuição ao cinema brasileiro e a nossa cultura é ímpar. Para se ter uma idéia do esquecimento, somente um dos títulos aqui citados mereceu lançamento no formato DVD, o que não acontece com a obra de cineastas brasileiros mais prestigiados e estudados pela crítica e intelectuais, que consideram seu tipo cinematográfico um “subproduto”. Muitas obras extraordinárias tiveram de ser retiradas desse top 10, afinal não dava pra colocar todos os filmes e pessoas importantes e esquecidas no cinema brasileiro, infelizmente.

 


10 - Como Salvar Meu Casamento (1984) de Alberto Salvá

Um dos mais engraçados filmes que o cinema brasileiro já produziu. Carlos Capeletti, interpreta Cláudio, um marido que não consegue ter a mesma animação de antes para se relacionar com a esposa. Daí é chamado de “broxa” por sua esposa, interpretada pela musa Matilde Mastrangi. O protagonista então tem de apelar para uma loja de artigos eróticos, onde compra uma lingüinha. Serafim Gonzalez (que hoje interpreta o pai do personagem Andeé na novela “Belíssima”), Mário Benvenutti (grande ator paulista tem papéis de destaque em clássicos como “Noite Vazia” e “A Margem”) e Walter Breda (presente na atual novela das seis da Rede Globo) são somente alguns dos grandes astros presentes nesse filme. Fotografia do cineasta Carlos Reichenbach.

09 - Gregório 38 (1969) de Rubens da Silva Prado

Um dos mais respeitados diretores da Boca foi Rubens da Silva Prado. Especialista em westerns, conseguiu produzir filmes dignos do melhor de John Ford ou Howard Hawks. Esse é o primeiro da série, toda produzida, dirigida e interpretada pelo Sérgio Leone do cinema paulista. No faroeste brasileiro, não há pudor: o matador mata todo mundo em busca de vingança, como realmente aconteceria na vida real. Não seguindo a linha italiana do gênero, que era mais humorística, Prado exorcizou um filme extremamente genial. Os críticos odiavam, mas fazer o que ? qualquer filme de gênero tem um público fiel, alheio aos intelectuais de plantão.

08 - O Bem Dotado- O Homem de Itu (1978) de José Miziara

A pornochanchada em seu estado mais sintético. Filme que melhor sintetiza o que foi o gênero: personagens estereotipados típicos de comédia erótica (o conquistador bobão; a moça pura; a mulher mais velha tarada; o mordomo homossexual), exposição de belas mulheres (Aldine Muller, Marlene França e principalmente Helena Ramos), grandes perseguições, trilhas sonoras piradas e improvisadas. Grande produção da Boca bancada pela poderosa Cinedistri de Aníbal Massaini, com direção de um poeta chamado José Miziara, com grande atuação de Nuno Leal Maia.

07 - Amadas e Violentadas (1977) de Jean Garret

Se a Boca tem um poeta, ele é Jean Garret. Se a Boca tem um homem acima do mero “artesão” e pra se dizer que é um autor esse homem é Jean Garret. Com produção e atuação do mestre David Cardoso, “Amadas e Violentadas” é o cult movie por excelência. De barba, Cardoso interpreta um escritor serial killer. Ele se apaixona por uma jovem, tentando mudar sua fixação. Aproximando-se em muitos momentos de Hitchcock e outros mestres, Jean Garret torna-se nome obrigatório quando se fala de criativos, audaciosos e talentosos cineastas brasileiros. Todos os livros e cursos de cinema intelectual são destruídos por este filme.

06 - Bonecas Diabólicas (1975) de Flávio Ribeiro Nogueira

Muitos cineastas brasileiros talentosos são citados quase que diariamente nos jornais e mídia. Outros, permanecem esquecidos nos depósitos de Cinematecas, tendo seus filmes amofados e nem os próprios críticos e “defensores da cultura” sabem quem eles são. Um da segunda categoria é o paulista de Casa Branca, Flávio Ribeiro Nogueira. Nesse seu cult movie mais adorado, o professor Síndrome começa a fabricar bonecas quase humanas para substituir as esposas. O resultado é um fracasso. No início, o filme parece mais ingênuo e simples, mas com o tempo vai ganhando uma enorme força, tornando-se imperdível para cinéfilos de estômago forte.

05 - Corrida Em Busca do Amor (1971) de Carlos Reichenbach

Carlos Reichenbach tornou-se um dos grandes nomes do cinema paulista e brasileiro. Toda sua carreira sofreu influência da Boca do Lixo, onde se iniciou no cinema. Seu primeiro longa-metragem, ainda é um sopro de liberdade artística e grande criatividade, que um autor como ele já demonstrava na primeira película. Este é um filme sobre carros de corrida, mas como houve pouca grana, o filme acabou não seguindo totalmente o prognostico original, incorporando grande força anárquica e criativa, que seria demonstrada nos filmes seguintes do Fassbinder brasileiro. Para Carlão, (como o diretor é mais conhecido pelos amigos e fãs) essa fita valeu por toda uma faculdade de cinema, tanto que ele ainda participa como ator. Produção de Renato Grecchi, que como figura impar do nosso cinema que quando não tinha dinheiro para uma condução ia andando do Jabaquara, na zona sul paulistana, onde morava a Boca do Lixo (!!!), no centro de São Paulo. Ainda há uma participação especial do grande crítico Jairo Ferreira, que já vale o ingresso. Fique de olho num dos comediantes presentes no filme, o comediante Gibe, que faria muito sucesso fazendo pegadinhas no programa “Vale Tudo Por Dinheiro” do SBT de Sílvio Santos.

04 - Os Desclassificados (1972) de Clery Cunha

A Boca também teve seus policiais. Para quem não sabe, depois da comédia, o gênero mais explorado pelo cinema tupiniquim foi o policial. Um dos mais talentosos e legais foi este, que também foi o primeiro do goiano Clery Cunha, que ficaria mais conhecido pelo filme “Joelma Vigésimo Terceiro Andar”. Cunha ainda realizaria mais dois policiais e diversos suspenses, tendo inclusive um dos primeiros a dar chance ao então jovem ator Antônio Fagundes.

03 - Histórias Que As Nossas Babás Não Contavam (1979) de Osvaldo de Oliveira

Uma Branca de Neve mulata e lindíssima, uma madrasta puta da vida; sete anões safadões, um príncipe que prefere um anão a Branca de Neve e ainda Costinha como um caçador. Onde isso seria possível ? Somente na Boca do Lixo! Em uma das pornochanchadas mais sensacionais da história, o cineasta e fotógrafo Osvaldo de Oliveira, leva os espectadores a uma fita que além da beleza da mulata Adele Fátima, tem cenas engraçadíssimas. A trilha sonora já fala por si, que leva o espectador as gargalhadas.

02 - Oh! Rebuceteio (1984) de Cláudio Cunha

Antes de ser “O Analista de Bagé” nos teatros, Cláudio Cunha foi um dos mais brilhantes e originais diretores que todo cinema brasileiro já teve. Dirigiu filmes notáveis como “Snuff- Vítimas do Prazer” (filme que ganhou prestígio internacional, por ser único filme brasileiro a tratar do snuff (filmes em que todos os atores que fazem um filme são mortos), “Sábado Alucinante” (que tratava das discotecas do fim dos anos 70, numa espécie de versão brasileira de “Nos Embalos de Sábado A Noite”) e mesmo “Amada Amante” (obra-prima que trata da decadência de uma família burguesa se, digna do melhor de Buñuel e Pasolini). Mas um de seus trabalhos mais extraordinários foi seu último filme, em que a criatividade de Cunha realmente superou. Na montagem de uma peça, uma jovem atriz, terá de recorrer a superações nada ortodoxas para se tornar uma grande atriz. Cinema alternativo num dos melhores filmes de Cunha. Engraçadíssimo, sendo um grande exemplo do cinema feito da Boca.

01 - Senta No Meu, Que Eu Entro Na Tua (1985) de Ody Fraga

Se o Cinema Novo tinha pessoas do talento de um Nelson Pereira dos Santos ou de um Glauber Rocha, o cinema da Boca tinha pessoas como Jean Garret e Ody Fraga. Ody, além de um grande intelectual, foi o mais mitológico dos diretores do local e gênero. Feito já na época do explícito, o filme traz toda a criatividade e ousadia da envergadura de Fraga. Dividido em dois episódios, totalmente bizarros. No primeiro, o órgão sexual de uma jovem começa a falar e no segundo, um rapaz tem problemas com algo que cresce em sua cabeça. Não apelando para o convencional do gênero, o cineasta sempre demonstrou criatividade e força própria, tornando-se um dos mais adorados diretores da Boca.

 

Bônus Track:
O Estranho Mundo do Zé do Caixão (1968) de José Mojica Marins

Talvez o mais genial título do cinema da Boca, seja da maior personalidade que o cinema brasileiro já criou: o Zé do Caixão. Ao longo de toda sua vida e obra cinematográfica, José Mojica Marins esse poeta da Vila Anastácio, demonstrou sempre o seu talento e sua extrema coragem. Cineasta redescoberto por gerações de cinéfilos norte-americanos e chamado de “Coffin Joe”. O leitor leigo, pode estar até dando gargalhadas de tudo isso, mas esse artigo é antes de tudo, verdadeiro e corajoso. Mojica se tivesse nascido em qualquer país onde a crítica cinematográfica é mais progressiva e onde não existem tantos ignorantes, seria declarado gênio em praça pública.
Pessoas de sua grandeza, de sua sabedoria, ousadia e invenção não deveriam ficar expostas a sessões especiais, e sim a todo público em geral, já que infelizmente a maioria das pessoas tem uma série de preconceitos contra cineastas talentosos e corajosos como Mojica.

Este é um dos seus mais audaciosos trabalhos. Dividido em três episódios, é uma de suas melhores fitas de terror. No primeiro, um fabricante de bonecas tem um jeito especial de fazer seu produto. No segundo, num episódio completamente mudo, um patético vendedor de balões, tendo obsessão por uma mulher, consegue possuí-la somente após uma catástrofe. No último e mais genial, o doutor Oaxiac Odez (ao contrário Zé do Caixão !!), interpretado pelo próprio Mojica, prova a intelectuais de qualquer tipo que a carne é mais forte que a razão. Sobre esse filme o brilhante crítico José Lino Grüenwald escreveu: “Assistimos, antes dos cortes, a este último filme de José Mojica Marins que, posteriormente, foi quase arrasado pela Censura (...) José Mojica- sem dúvida um dos melhores cineastas brasileiros e um dos poucos que, ao nível internacional, inova o gênero horror- só pode ser assimilado e, seu modo extravagante através de tudo que compõe em matéria erótica, primitiva, fescenina, escatológica, sádica (...) O Estranho Mundo de Zé do Caixão é seu melhor filme (...) uma esfuziante féerie das cenas mais insólitas já vistas na tela”.

**** Dedicado a todos os cineastas, atores, técnicos e pessoas que colaboraram com a indústria cinematográfica da Boca. São todos “gigantes”.

 

 
     

 

 
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