GANGA ZUMBA
O NÃO LANÇAMENTO EM DVD

por Matheus Trunk
Muitos pensaram que quando surgiu essa
coluna na FREAKIUM !, ela iria se dedicar somente a diretores
das bocas, dos becos e dos redutos. Errado, pois o NÃO LANÇAMENTO
também irá tocar na “aristocracia do cinema brasileiro”.
Já que toda produção tem sua importância
e valor artístico e histórico. Os filmes de Glauber Rocha,
Nelson Pereira dos Santos, Walter Lima Júnior são tão
importantes quanto os de Mozael Silveira, Élio Vieira de Araújo
ou Roberto Machado.
Um dos mais interessantes autores brasileiros do Cinema Novo, é
Carlos Diegues. Contemporâneo de Glauber, aponta grandes diferenças
com o tutor. O mais conhecido dos cinemanovistas era baiano, Diegues
é alagoano. Mas não é somente isso que difere os
dois amigos. Nos lançamentos em DVD, há uma grande preocupação
em se relançar os filmes do líder do movimento. Primeiro
foi “Deus e O Diabo Na Terra do Sol” em edição
de luxo e agora “Terra Em Transe”. Mas grande parte, até
da produção cinemanovista permanece no velho formato de
VHS. Filmes importantíssimos como “Vidas Secas” (1962,
Nelson Pereira dos Santos) ou mesmo “Os Fuzis” (1962, Ruy
Guerra) permanecem inéditos. Sem falar em outros diversos e importantes
nomes do Cinema Novo que não tiveram sequer um único filme
lançado em DVD.
Alagoano de Maceió, Carlos Diegues nasceu em 1940. Chegou ao
Rio de Janeiro ainda criança. Se iniciou no cinema com o amigo
David Neves (outro pilar do Cinema Novo), que era seu vizinho. Foi crítico
de cinema e diretor de curtas metragens. Foi um dos treze fundadores
do Cinema Novo (1962-1968), talvez o único movimento cinematográfico
que o Brasil já teve. O movimento foi o responsável por
trazer o cinema moderno ao nosso país. Já dirigiu quinze
filmes, sendo que somente dois se encontram em DVD. Diegues dirigiu
produções muito marcantes como “Xica da Silva”,
“Bye Bye Brasil” e mais atualmente dirigiu “Deus É
Brasileiro”.
Talvez seu maior filme (“Chuvas de Verão”), não
esteja no novo modelo. Mais o seu primeiro longa, “Ganga Zumba”,
merece ser lembrado. Realizado nas mais adversas situações,
é um filmaço de aventura. Em sua equipe, encontram-se
o craque Paulo Gil Soares que assina o argumento (também diretor
de filmes importantes como “Proezas de Satanás Na Vila
do Leva e Traz”) e montagem de Ismar Porto (que além de
montador era diretor e roteirista de filmes populares). A música
é do maestro Moacir Santos.
“Ganga Zumba” se destaca entre os filmes cinemanovistas.
Embora tenha uma enorme crítica social no filme, ele acaba não
ocupando nem o sertão e nem a cidade, as duas temáticas
básicas do movimento. A fita, acaba sendo mais um filme épico
e biográfico do líder negro Ganga Zumba, neto de Zumbi.
Passado no século XVI, o filme traz o grande ator Antônio
Pitanga, então com vinte e três anos, no papel principal,
em um de seus primeiros filmes. No elenco, ainda estão atores
importantes como Eliezer Gomes; Luiza Maranhão, uma das musas
do Cinema Novo; Waldir Onofre; Zózimo Bulbul e participações
especiais de pessoas como o compositor Cartola que faz uma ponta como
escravo negro; de Dona Zica, sua esposa na vida real; da cantora Nara
Leão então mulher do diretor Carlos Diegues e do grande
crítico e professor de cinema brasileiro Paulo Emílio
Salles Gomes.

Luiza Maranhão
O filme é um belo
épico de escravos a procura de Palmares. Visto hoje, “Ganzá
Zumba” parece mais um “Aguirre” de Herzog que um “Roma
Cidade Aberta” de Rossellini. Ou seja, é muito mais um
filme de gênero, parecido com filmes hollywoodianos que um drama
social do Neo-Realismo italiano. Embora o filme também tenha
alguma conotação de crítica social, não
é o tema principal do filme. A grande e bela interpretação
de Antônio Pitanga (que já era um gênio nos anos
60), a marcante presença de Eliezer Gomes e a beleza negra de
Luiza Maranhão dão um tom especial ao filme. O final é
um pouco decepcionante, mas quem conhece cinema brasileiro profundamente
ou for conhecer acabará se conformando. Já que parece
quase lei certa: todo grande filme brasileiro, tem um final decepcionante.