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ENTREVISTA:
FÁBIO
por Roberto Iwai A história da música
brasileira é um glorioso fardo que o povo, este ávido por
informações, tem de carregar. Ao mesmo tempo que é
uma das mais bem colocadas formas de expressão nacional, se equiparando
e se mostrando ao resto do mundo de forma coesa e única, é
também uma ingrata, contendo o maior número de rombos e
casos obscuros que nunca são esclarecidos.
Eu comecei a me interessar pela música muito cedo, desde os primeiros anos da minha infância. Eu morava no Paraguai ainda, morávamos em uma pequena cidade ao norte chamada Orqueta, onde eu nasci, nasceram minhas irmãs... meu pai era latifundiário, minha mãe fez a escola primária... enfim, foi uma família tradicional. Nascemos e nos criamos nesse lugar. Cresci lá com as minhas tias cantando as música paraguaias, e comecei a me interessar pelo o que elas cantavam. Não profissionalmente, cantavam assim... Você começou com o bolero... Isso. Aí comecei a cantar os boleros com elas. Eu pegava os livros, caderninhos que elas tinham de letras de música, e pedia para elas me ensinarem. Havia um amigo do meu pai que tinha um conjunto, um trio paraguaio... daí para ser a primeira voz do trio foi um passo. Aí, no trio paraguaio, nós fizemos uma excursão do Paraguai para o Brasil, e eu morava aqui em São Paulo, onde permaneci durante um tempo, cantei por aqui em alguns lugares interessantes e tal... mas minha mãe veio me buscar. Como eu era de menor ainda, voltei ao Paraguai. Quando completei dezesseis anos, eu contei uma história para ela, para minha mãe: que queria voltar para São Paulo para estudar! [fazendo alusão à mãe] “Ah é? Então tá, mas não pode”, tal... pode, não pode, acabei convencendo-a, vim embora para São Paulo, em 63. Só que aí não era Fábio, era Juancito. Juancito por causa do meu nome, Juan Senon Rolón. Mas você já começou a sua carreira ainda com esse nome, aqui? Com esse nome, aqui já. Através do Frankito [cantor paraguaio que fez sucesso durante a década de 60], que me levou à Rádio Record para fazer um teste para participar de um programa que se chamava “Alegria dos Bairros”. Fiz o teste, passei no teste. Por coincidência, neste mesmo dia, neste mesmo teste, estava um jovem também que estava iniciando a carreira, que se chamava Jair. Só que o “Jair”... era o Jerry Adriani. Os dois passaram, e fizemos a primeira apresentação. Este programa era realizado nos bairros, nos cinemas dos bairros aos domingos de manhã, e era apresentado pelo Geraldo Blota, que era um grande comunicador da época... irmão do lendário Blota Jr. Eu fui muito bem, fui muito feliz, as meninas me adoraram... eu cantei uma música lá que eu nem me lembro direito, um rockzinho na época... o Jair, que me lembro cantou uma música do Paul Anka, que era um sucesso na época, não foi muito feliz. Ele foi limado da história. Ele foi embora, sumiu, foi seguir a vida dele, e eu fiquei no programa. Bom, da “Alegria dos Bairros” fui para as noites. Fui cantar na boate do Roberto Luna [cantor de grande sucesso na década de 50]... Juancito por aí, Juancito cantou no Cave [badalada boate em São Paulo, onde na época figuraram muitos nomes importantes da música brasileira]... e uma noite no Cave, para minha felicidade, já também cantava nessa boate nada mais, nada menos que um jovem gordinho... um gordinho que tinha acabado de chegar dos Estados Unidos, tinha passado pelo Rio, tinha saído da prisão do Rio... nos encontramos aqui, nos conhecemos aqui. E era o Tim. A primeira música que você ouviu Tim Maia cantar foi uma do Sam Cooke... Isso. Eu já tinha ouvido falar do Tim através de um amigo nosso em comum. Sempre ele falava: “vai chegar aí o Tim”. Ele veio para São Paulo e nos conhecemos. Conheci esse jovem, de cabelo raspado, com a camisa verde-musgo, uma sandália de dedo... um frio em São Paulo, cara... e eu fiquei muito impressionado quando ele adentrou na boate Cave e resolveu cantar naquela noite. Ele pegou o violão e cantou “Wonderful World”, uma música do Sam Cooke. Naquele momento todo o meu conceito que eu tinha sobre o canto, quando vi Tim cantando de uma maneira que eu não conhecia, que vinha lá do fundo, da alma... E foi exatamente nesse ponto que você... Foi aí que eu recebi a primeira injeção do soul. E aí ele me disse, quando perguntei: “Mas cara, como é isso? Como é... por que você canta assim?” “Juancito, é que o soul music, o soul, essa música, isso vem da alma, música que vem da alma”. Aí começou a me falar sobre Sam Cooke, Otis Redding, Ray Charles, e assim... a música negra é minha maior influência. A partir deste momento, nos tornamos amigos inseparáveis. De vez em quando ele ia em uma boate que eu cantava na [Rua] Luis Coelho, que lá, como eu era músico da casa, eu tinha direito a jantar. E Tim passava muita necessidade. Passava frio e fome. Eu falei: “não, a partir de agora você vai jantar comigo. Vou dividir contigo o meu jantar.” E a gente dividia aquele P.F. maravilhoso... ele lembrou disso por muito tempo. Meu primeiro mestre. E nunca mais abandonei. Desde então, eu comecei a me encantar com os negros americanos, o estilo... essa amizade prevaleceu por duas décadas e meia, até ele desaparecer oito anos atrás. Nunca brigamos. Bem, cantávamos no Cave, que era na [Rua da] Consolação, virou o [banco] “Nossa Caixa” agora. Uma boate muito interessante, onde se reunia a inteligência paulista da época... cantei no Cave em uma noite, em uma feijoada que rolava aos sábados, e quem estava lá? Carlos Imperial. O grande Carlos Imperial, descobridor de talentos! Então você encontrou o Carlos por aqui ainda? Aqui, em São Paulo. Aí exatamente, ele veio do Rio para escolher novos valores, pois ele estava assumindo a direção artística da TV Tupi no Rio naquela época, e ia lançar um programa jovem. Cantamos todos naquela noite, e ele se encantou com o Juancito. Me chamou, fui lá, sentei na mesa, e ele me disse: “Vem cá... seu nome é Juancito? Pô, esse nome é ruim prá caramba... parece nome de toureiro. Com esse nome você não vai fazer sucesso...”. Fiquei meio constrangido... aí ele perguntou: “Você quer ir para o Rio de Janeiro comigo?”. Falei: “Pô, você é cínico mesmo, rapaz?”... de cara, fiquei meio assim, perguntei quando... ele disse: “Agora”. “Agora?”. Tocava em um inferninho na época, falei com a minha patroa, me despedi, fui para a minha casa em Santana [bairro da zona norte de São Paulo], peguei minhas coisas e me mandei para o Rio de Janeiro. Era um verão de 67. Chegamos no Rio, onde começou minha história. Você conheceu o Carlos, e aí foi só um passo para gravar o seu primeiro compacto... Essa parte foi interessante. Chegando no Rio de Janeiro, me encantei com a cidade maravilhosa, com as praias, com as meninas... só que ele falou: “Juancito, ó, primeiro passo: você vai ter que perder o sotaque”, porque eu tinha um sotaque muito forte. “Cantor com sotaque no Brasil não faz sucesso”. E outra: “para você gravar seu primeiro disco, vamos mudar o seu nome”. E como vocês chegaram ao nome? Teve uma reunião entre eu e ele, e o diretor artístico da gravadora que ele já tinha contactado. Ouviram o Juancito... “Ah, realmente, esse menino tem... e como vai ser, vamos mudar o nome dele”. Cada um falou um nome... Márcio Augusto, Roberto José, Luiz não sei o que... e eu, tinha um amigo aqui que o nome artístico dele... eu achava o nome artístico dele o máximo, chamava-se Fábio Marcelo. Quem era Fábio Marcelo? Era o Herondy, da Jane e Herondy. E não deu outra, lembrei dele na hora, e falei: “Que tal Fábio?”. E aí todo mundo achou... “Cara, você tem cara de Fábio! Esse nome é ótimo, você é Fábio a partir de agora.”
Aí fomos, marcamos a primeira gravação, imediatamente marcamos um estúdio, onde escolhi algumas músicas. A música escolhida foi “Lindo Sonho Delirante”, faixa A, que foi logo quando os Beatles tinham lançado um disco muito polêmico na época, onde tinha [cantarola] “Lucy in the sky with diamonds”... aí veio “Lindo Sonho Delirante”, falei: “Imperial, vamos fazer uma música, ‘Lindo Sonho Delirante, hoje eu quero viajar’...”. Pô, o Imperial nunca tinha, nem sabia o que era LSD, mas era um cara muito inteligente e muito inspirado, e ele pegou a história. Porque o Imperial só bebeu Coca-Cola pelo resto da vida dele. Não bebia álcool, nada, nada, nada... ele era totalmente contra qualquer tipo de droga. Surgiu ali “Lindo Sonho Delirante”, acompanhado pelos Fevers, e “O Reloginho” do outro lado. E o arranjo, foi de quem? Nós mesmos. Lá no estúdio. Bom, saiu o disco. Saiu o compacto, e aí não teve sucesso de venda, não fez o sucesso que esperávamos, mas eu consegui cantar em todos os programas de televisão da época, todos. E como foi cantar em todos os programas, shows da época com uma música sobre LSD? Exatamente. Ninguém até hoje entendeu como a censura deixou passar, e o próprio sistema, os militares... Era escancarado na capa! Na capa! L-S-D. Podiam ter me prendido. Na verdade, na verdade, a gente queria criar uma polêmica para poder usar esse artifício, para poder alavancar. Mas ninguém ligou, ninguém se importou com nada... mas os mais espertos sacaram. Aí aconteceu o seguinte: a música tocou um pouquinho, algumas rádios tocaram, outras não... o forte foi a televisão. Até porque esse meio o Carlos conhecia bem. Aí seis meses depois a gravadora me procura para fazer o segundo disco. Fazer uma outra tentativa. Foi bom, deve ter vendido uns seis mil compactos, deu para fazer o próximo. Mas cadê o Imperial? Imperial tinha sido preso pela ditadura militar porque ele tinha mandado um postal com uma situação meio constrangedora: sentado no vaso, desejando feliz Natal para os milicos... Bem Imperial... Imperial mesmo. “Papai Noel não passa no seu sapato, o que estou fazendo aqui, eles estão no vaso...”, muito escroto, horrível, eu me lembro disso. Prenderam ele. E o produtor me perguntou: “E o Imperial, vamos esperar ele sair?”. E eu disse: “Não, vamos embora...”
Com a prisão do Carlos, qual foi sua relação com o Paulo Imperial, o irmão dele? Foi assim... logo quando eu cheguei no Rio, eu fui morar na casa do Carlos. A gente morava em um triplex em Copacabana. Fui morar com os pais dele. E ele sempre me falou: “eu tenho um irmão, ele está com problemas...”. Tinha tido problemas com a Justiça também, com menores de idade... que na verdade não foi nem ele, foi mesmo já mais porque a ditadura estava muito presente na época. Então qualquer motivo do jovem e já ligavam tudo à esquerda, aos drogados... conheci Paulo, bem mais jovem do que Carlos. Eu me identifiquei muito mais com Paulo, justamente primeiro pela sofrência dele, tal... irmão de Carlos Imperial, famoso que tinha um irmão maluco que tinha saído da prisão. Era uma coisa muito forte para a sociedade. Ainda é. Ficamos amigos, e foi quando Carlos sugeriu: “Fábio, faz música com o Paulo. Paulo é bom de letra”. Eu tinha saído de uma relação amorosa que eu tinha ficado muito devastado, que essa namorada tinha me abandonado por um cara mais rico, muito rico. Fiquei muito triste. Devido a esse problema meu com essa jovem cantora na época, chamada Marisa Rossi, escrevi duas músicas: uma chama-se “Stella”, apesar que o nome dela era Marisa, e “Socorro, Nosso Amor Está Morrendo”, que foi gravada pelo Wanderley Cardoso. Foi quando eu comecei a fazer “Stella”, que era “Marisa”, [canta] “Marisaaa...”, ele falou: “não, Marisa não”... Mas Paulo Imperial já era compositor? Não. Já fazia algumas coisinhas, escrevia umas coisas. Um dia ele escreveu umas coisas para mim, achei bem legal. Tinha uma Stella que ele conhecia: ele era aluno da PUC, a PUC era uma universidade de classe média-alta no Rio de Janeiro, e lá existia uma Stella, que era “a rainha da PUC”. E eu vi essa Stella uma vez no sinal de trânsito, e era mesmo: “Marisa” virou “Stella”, e “Stella” virou o sucesso. [sobre a gravação do segundo compacto] Quando mostrei a música para o diretor, que era um cara esperto, falou que era boa. Chamamos o maestro, ele fez um arranjo, e gravamos “Stella” de um lado, com o Mazola, esse Mazola agora que é o grande produtor das estrelas, como operador de som. O homem tinha chegado à Lua, e sugeriram: “Cara, faz um som meio espacial, com arranjo espacial...”. Não tinha eco, não sei o que ele fez, conseguiu fazer o eco, de onde saiu o eco de “Stella”. E aí, estourou Fábio pelo Brasil inteiro. Esse compacto foi um grande sucesso. Foi um marco inclusive na fonografia nacional, porque até então ninguém tinha gravado com esse prisma, uma música com eco, uma música mais pretensiosa... porque a Jovem Guarda sempre foi harmonicamente muito pobrezinha, as letras eram muito infantis até então... Vamos falar do seu primeiro disco. Você foi um dos primeiros a mexer com o soul no Brasil, mas mais ainda, o disco em si tem uma sonoridade própria em um todo [Fábio já havia comentado em off que o disco havia sim captado uma sonoridade própria segundo ele próprio]. Como você chegou a essa sonoridade? Olha, foi meio sem querer. Querendo.... Aquela coisa de ambientação, barulho, cidade... A inquietação já era isso. Como eu sempre falei assim: vou ser sempre uma pessoa diferente, especial. Me lembro que o Tim ainda me falava assim: “Fábio, eu sou louco, mas você é bem mais louco que eu”. Louco de idéia. E a minha preocupação sempre foi de usar uma coisa além do meu tempo, só que naquela época muita gente não entendia muito aquilo. Me falavam sempre: “Pô, Fábio, você tem que gravar uma música mais comercial...”, e eu não entendia. Como assim, “comercial”? Comercial me lembrava assim, prato comercial. Eu não entendo isso. As minhas divergências com meus produtores começavam aí. Que eles queriam o Fábio mais assim... Wanderley Cardoso, mais romântico... claro, tinha horas que eu tinha que deixar passar alguma coisa. Tinham músicas que eu não queria gravar.
Quais? Desse disco? Do primeiro não, mas do long play que eu fiz para a Polydor, que se chama Os Frutos de Mi Tierra, já era uma preocupação minha para falar de minhas origens. Hispânica, da Bolívia, estava usando barba, estava muito voltado para a América Latina, contra a ditadura no Paraguai, na Argentina... E qual foi a banda que tocou no primeiro disco? Nesse primeiro long play meu, agora que eu fui descobrir. Porque na época a gente era tão... muito estúdio... agora que eu reencontro pessoas brilhantes que tocaram neste disco comigo. Na guitarra por exemplo era o Hélio Delmiro, um dos maiores guitarristas do mundo. Na bateria foi o Mamão, que era do Azimuth. Teclado foi o Motta, que trabalha muito com Roberto Carlos há anos [Mauro Motta, produtor]. Os grandes que agora estão aí tocaram no long play comigo, e eu não sabia, porque não tinham créditos na época. E esse primeiro disco tem trompa, harpa de concerto, oboé... hoje em dia para gravar um disco desses não teria condições financeiras. E as idéias para uso desses instrumentos foram todas suas? Junto com o meu produtor [Romeo Nunes, produtor do disco]. Nós estávamos naquela revolução que causou o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Aquela coisa de sinfônica... E o Pachequinho [Maestro Pachequinho, que fez os arranjos do disco] teve grande papel nisso também? Isso, o Pachequinho foi muito importante porque ele era um cara que me ouvia muito. Ele é um sábio, uma pessoa muito simples, mas tinha uma sabedoria que captava a minha loucura. Lembro que ele falava: “Você quer matar o maestro...” [risos] Mas foi bom, aconteceu essa química.
Aconteceu assim: eu já estava estouradaço com “Stella”, e estava muito na mídia... a Editora Bloch resolveu fazer uma fotonovela com o Fábio. Como a Stella era fictícia, me mandaram escolher entre três cantoras da época, de sucesso no Brasil, com quem eu gostaria de contracenar. Quem seria a mocinha da história... e eu escolhei a Vanusa. Fomos para Santos, passamos uma semana para fazer esse trabalho. Tiramos foto, abraça ali, beija aqui... e a loira gostou. Acabou a fotonovela, eu voltei para o Rio, ela sempre morou em São Paulo. Continuamos a nos falar, mas ela namorava o Wanderley Cardoso na época. Eu disse para ela: “o dia que você terminar esse noivado, sei lá, você me procura, se você quiser... eu gostei de você”.
Isso. Nos conhecemos na casa do Imperial... E você cedeu duas músicas a ela. Duas músicas para ela. E aí um dia eu estou lá no Rio de Janeiro, e quem aparece lá? A Vanusa, de mala e cuia. Tinha terminado tudo, brigado com a família. E acabou que iniciamos um romance, e eu escrevi essa canção para ela, “Prelúdio Para Os Olhos de Vanusa”. E depois no segundo disco dela, outra música sua. Isso. Eu até produzi um dos melhores discos da carreira dela, que é esse.
Realmente, um dos melhores discos dela... Exatamente. Que já tinha uma tendência soul. Eu queria que ela cantasse soul, não tinha nenhuma branca cantando soul na época. Fale um pouco agora sobre o seu segundo disco, que segue uma coisa mais, posso dizer, hippie?... Aí vem a fase hippie.
Foi à contragosto seu, ou você?... Veja bem. Fui influenciado. Na época estava o negócio de rock rural. Tinha me transferido para a Polydor, e me chamaram. Nelson Motta, produtor, André Midani, o presidente, e alguns músicos sugeriram que eu deveria mudar o meu estilo. Porque eu tinha que cantar para um público mais elitizado... e o repertório? Vai ser assim, assim e assim, uma música do Cat Stevens, não sei o que... e o Hino da República. Pô, o Hino da República? Que loucura... [fazendo alusão aos que sugeriam o repertório] “Não, você tem que cantar o Hino da República, porque nós temos um problema muito sério com você, Fábio, lá em Brasília. Seu nome está na lista, a qualquer você vai sofrer as conseqüências...” E na época você era politizado? Não, não... eu queria namorar as menininhas ali... e meu negócio era música. Claro que eu acompanhava de perto todos os acontecimentos, público e social. Mas então, fomos gravar o Frutos de Mi Tierra. E eu gravei, quis gravar “Encouraçado”, exigi. E saiu o segundo LP. Um grande fracasso, em venda e em tudo. Destoa muito da sua obra... Isso. Meu público não aceitou, e nem o outro lado aceitou... meia dúzia aceitaram. Hoje em dia é um disco cultuado. Dancei no disco, dancei na gravadora, meu casamento acabou... em 73, larguei tudo aqui. Eu inclusive ia participar do Phono 73. Eu estava escalado. Mas o que mais me preocupou é que eu fui convocado, na época... convocado é a palavra certa... pelo exército, para cantar nas olimpíadas do exército, lá no Recife. Todo mundo que eles achavam que eram contra o sistema foi intimado para cantar. Aquilo me deixou muito chateado, e me mandei para Paris. Nessa época, além de Beatles, havia mais alguma influência para você? Claro, claro... eu ouvia muito naquela época, me influenciava uma banda chamada Led Zeppelin, que acabei vendo em Paris ao vivo em 74. Tive esse privilégio, com a formação original. Tem o Roger Daltrey, The Who... tinha um cara chamado David Clayton-Thomas, que cantava no Blood, Sweat & Tears. Wilson Pickett... mas aí já estamos falando dos negrões... mas é esse pessoal. Antes de Paris, fale um pouco sobre o festival no qual participou com “Encouraçado”. Fui convidado na época pelo Gutemberg Guarabyra, do Sá & Guarabyra... Que na época era produtor... Isso. Produtor do Festival Internacional da Canção. Saí para defender uma canção de uma jovem iniciante, chamava-se Sueli Costa. E o letrista se chamava Tite de Lemos, um exilado político que foi seqüestrado pelos guerrilheiros na época, morava em Paris. Essa canção chama-se “Encouraçado”. Eu fui defender essa canção em 70. Essa música era totalmente diferente da minha história. Falava da história de um exilado político brasileiro em Paris. Sobre as ansiedades, as inquietudes, a tristeza... a história dele. Com essa letra, vocês conseguiram ficar em terceiro lugar na classificação. Terceiro lugar. Melhor intérprete. E essa letra passou? Passou... só que quando passou pela censura, veio o outro lado da história... porque na verdade eu não era assim, conceituado cantor de protesto, mas a partir daí eu passei para o hall dos cantores de protesto. E eu fiquei na mira da censura e da DOPS [Departamento de Ordem Política e Social do governo brasileiro, órgão extinto em 1983]. Perseguiam os caras penais mesmo, que estavam no auge da ditadura militar, em 70. Tinha ganho o carinho e “afago” dos jornalistas, que eram da esquerda. Aquele festival em questão foi um festival importante, pois ele consagrou o soul no Brasil. Toni Tornado em primeiro lugar, Erlon Chaves... Segundo lugar foi Ivan Lins, com “O Amor é Meu País”, terceiro lugar Fábio, quarto Erlon Chaves com “Eu Quero é Mocotó” [na verdade Erlon Chaves conquistou o sexto lugar na classificação geral]. E eu era o primeiro. Fiquei sabendo recentemente, eu era o primeiro lugar. Só que o Boni, da Globo, chegou na hora na sala, e perguntou: “Quem é o primeiro?”. Era o Fábio. “Vocês querem foder? Bota o negrão na frente!”. Que era o Toni Tornado...
Esse festival envolveu toda a questão étnica, da negritude... eles preferiram retirar o contexto político e botar o contexto étnico. O “BR-3”, entre outras coisas, é menos forte, mas que acabou no procedimento também tendo problemas porque a ditadura militar ligou que BR-3 era um cara tomando uma injeção na veia. Uma loucura, os caras levavam tudo para os outros caminhos... eu sofri uma represália, porque eu reagi a algumas vaias. Na finalíssima, tinha umas vaias no Macaracã lotado, de algumas pessoas que tinham ficado insatisfeitas porque o Taiguara, eles queriam o Taiguara na minha frente com [cantarola] “Universo do teu corpo...”. Também achei injustiça, ele ficou em décimo lugar, podia ter ficado em um lugar melhor. Aí quando entrou o Fábio para cantar, começaram as vaias. E aquelas vaias me deixaram profundamente, no momento, incomodado. Vi colegas meus me vaiando: Glória Menezes, Tarcisio Meira... colegas meus me vaiando. Fiquei muito puto, e reagi. Aí cortaram o microfone, o som, subiram uma galera, colegas meus solidários a mim, pelo momento que estava passando... esse momento existe na Globo, de vez em quando eles mostram... O Gonzaguinha me abraça, me diz no ouvido: “Vamos sair daqui, vai ser melhor prá você...”. E aí fui tirado do palco, sob vaias, na metade. No dia seguinte, quando acordo, vejo nos jornais, na época um jornal de direita, se não me engano foi “O Globo”, que já era do Roberto Marinho, estava assim, estampado na manchete: “’Encouraçado’ afunda em mar de vaias de um povo que ama o seu país”. Meu amigo, eu fiquei muito apavorado. Aí me ligam para minha casa, falam que eu estava na lista. Todo dia saia uma lista dos caras que deveriam ser presos. Diziam: “Ó, você está na lista. Você, Leila Diniz e Erlon Chaves”. E eu acabei me refugiando, vim embora para São Paulo, me refugiei na casa do Eduardo Araújo. Que era amigo do Fleury, tal Fleury que matava comunista [Sérgio Paranhos Fleury, delegado e integrante do DOPS]. Lá ninguém ia mexer comigo. E eu vim para São Paulo. Fiquei no apartamento aonde ele morava em Higienópolis [bairro nobre de São Paulo]. Só que na época no Estadão saiu na primeira página: “Cantor Fábio foi preso por tráfico de drogas”. Depois colocaram uma errata, pequenininha... é sempre assim. Com isso minha carreira... ninguém me chamava mais. A Globo não me chamou mais para cantar nem nada, e muita gente começou a me cortar: “Pô, Fábio comunista, esse negócio de drogas...”. E eu não tinha estrutura para segurar aquele peso... aí me mandei para Paris.
E como foi o retorno da sua carreira? Eu retornei no final de 74, 75... eu ainda tinha um contrato para cumprir na Continental... eu tinha me transferido da Polydor para a Continental, e no meio do contrato me mandei para Paris. Os caras ficaram muito chateados, com toda a razão... mas foi tudo fruto da juventude, do que estava acontecendo. Mas voltei para pagar o contrato. Gravei “As Aventuras de Um Certo Capitão Blues” [atualmente a regravação da mesma por Fábio pode ser encontrada na coletânea Balaio Atemporal, 2005]... e gravei ainda mais dois compactos. Quando acabou o contrato, fui para a EMI/Odeon, onde encontrei meu produtor Augusto Cesar, e gravei “Venha”. Paulo Sérgio Valle fez a letra, tocou no Fantástico, e o Brasil inteiro... e foi meu retorno, aí no Fantástico. Voltei por cima. Reencontro meu amigo Tim Maia... e tinha uma música que fiz nos meus momentos de fossas amorosas.... [cantarola] “Menina, você não sabe/Do jeito que estou agora”... e convidei Tim Maia para cantar... não era nem para cantar, eu enganei ele na época. Se eu falasse que era para cantar, ele talvez não fosse cantar, porque ele era muito, assim, previsível. Convidei ele para tocar flauta, ele adorava tocar flauta. Tocava muito bem flauta transversa. Ele chegou lá no estúdio, o cara soltou o playback, e sem saber que eu tinha combinado com o Tim uma coisa, já veio com a letrinha na mão, e falou: “Tim Maia, você vai cantar esse pedaço.” O Tim falou: “ah é, é prá cantar, é? Pô, Fábio não me falou nada!”. Mas como ele ouviu a base e não era burro nem nada, viu uma música bonita, cantamos juntos, que é um clássico hoje em dia... [canta] “Até parece que foi sonho meu...”. E aí estourou. Só perdeu na época para “Não Chore Mais” [de Gilberto Gil]. Logo a seguir gravamos “Velho Camarada”. Fábio, Tim Maia... e aí chamamos o Hyldon. Mas aí o Tim não queria chamar. “Ah, o Hyldon não, chama o Hyldon não... vai estragar tudo... pô cara, é a mesma coisa estar jogando Flamengo e Fluminense, chamar o Vasco prá jogar!”, aquelas coisas do Tim. “Faz o seguinte, Fábio: eu vou botar minha voz, você bota sua voz, chama o Hyldon bem depois de mim, de madrugada, prá botar a voz dele, porque eu não quero nem ver a cara dele!”. E aí ele emendou “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”... Também um clássico, está aí até hoje. E o Tim com o Hyldon... Ah, o Tim e o Hyldon tinham brigado, negócio de mulher... que o Tim tinha essas ondas, de arrumar as namoradas, e as namoradas acabavam tendo alguma coisa com os amigos. Eu nunca tive nada com nenhuma namorada dele, graças a Deus... o respeitava demais. E no final isso tudo acabou em pizza. E várias parcerias, entre Cassiano, Hyldon, Tim Maia... Eu estou falando em Hyldon, porque é um cara meio ingrato... posso falar isso agora, que muitas vezes ele se esquece do Fábio. Eu sempre lembro dos meus colegas, nunca tenho problemas em falar. E outra coisa: muita gente que estão se incluindo na onda soul music, eles teimam em querer me limar da história. Mas não adianta, eu sou um dos criadores da soul music no Brasil. Vem Tim Maia, Fábio, Fábio, Tim Maia... Você falou [em off] daquela mania do pessoal soul de se desmembrar... Isso, de se desmembrar. Nós estaríamos hoje em dia muitíssimo ricos, financeiramente e conhecidos, se tivéssemos nos unido. Mas a ignorância em alguns, a vaidade e o egoísmo, um egoísmo besta... e aí não nos unimos. Porque os mineiros se uniram, os baianos se uniram, os gaúchos se uniram, os nordestinos... estão aí. Só nós que não nos unimos. E pagamos esse preço. E como foi participar do Tim Maia Racional? Essa nossa parceria que eu fui ouvir trinta anos depois. Eu nunca tinha ouvido essa música. E você colaborou com melodia, letra? Colaborei com a melodia. No início, tinha uma outra letra. Tim tinha um disco pronto... Isso. A letra, eu me lembro, ele tirou a original e me disse: “Fábio, é que eu mudei de filosofia de vida, estou em uma seita, e agora sua música virou ‘Quer Queira, Quer Não Queira’. Ou você queira, ou não querendo, você vai ter que...” [risos] Vou falar o que com o cara? Seja o que Deus quiser. Aconteceu que não saiu, naquela época, naquela ocasião não saiu, eu também não ouvi. Me lembro que eu fui no dia da gravação, quando fui gravar a base... toquei violão centro, se não me engano... mas nunca mais soube de nada. E como era o Tim nessa época? Foi uma mudança radical. Aquele louco, alucinado, cortou o cabelo, raspa a barba, se veste de branco, parou de beber, parou de fumar... parou de fazer sexo, porque a seita não admitia também... o cara virou um... monge. Ele queria porque queria que todos os amigos dele se convertessem. Aí mandou para nós uma pilha de livros, que eram trinta e seis volumes do livro Racional, ele mandou vinte para mim... eu nunca passei da nona página. Isso me causava um profundo mal-estar, porque diariamente ele ligava para mim: “e aí, já passou da décima página?”. Eu não conseguia... ele nunca conseguiu me arrebanhar para o Racional. Ele ficou nesse Racional... eu me lembro que em várias situações eu me encontrei com ele no Rio de Janeiro, vendendo os livros na periferia do Rio. Uma vez soube que ele estava em Madureira [bairro do Rio de Janeiro] vendendo ovos. Dúzia de ovos para colaborar com a seita. Ele me disse que chegou a vender seis mil ovos. Se desligou da gravadora... Ele perdeu tudo. Um dia me aparece em casa, desanimado, decepcionado, chorando muito, foi me procurar e... eu estava mais ou menos aí, morando em um apartamento. Eu falei com ele, que estava recomeçando do zero... foi aí que Tim Maia começou de novo a história dele. Ele voltou mais louco ainda. O Tim, além de você, teve amizade com o Erasmo, com Os Mutantes... você chegou a ter relacionamento com esse pessoal também? Um outro dia que o Tim chegou em casa, ele estava em um show da Rhodia, e me apareceu com uma jovenzinha que eu tinha conhecido n’Os Mutantes, em São Paulo, chamada Rita Lee. Seguindo a carreira solo... e nos reunimos naquele dia em casa, fumamos uns cigarros, bebemos, e a Rita Lee cantou... cantou comigo... o Tim Maia foi embora e largou ela em casa. Ela bebeu demais, fumou demais, e desmaiou. E foi um grande susto, porque meses atrás tinham morrido Jimi Hendrix de overdose, e Janis Joplin de overdose. Falei: “pronto, morreu”. Ela retornou aos sentidos, falou que de vez em quando tinha esses desmaios. Peguei ela imediatamente, botei no carro, e levei embora para onde ela tinha que ir!... a Rita deve lembrar dessa história. Nunca mais nos vimos. E o Erasmo [Carlos]? Erasmo é um irmão. Você emplacou uma música com ele... Ah, sim! Emplaquei uma música com ele chamada “Em Busca das Canções Perdidas movimento no. 2”, que é uma música muito bonita. E como foi essa história? Eu já tinha gravado a número 1 em meu disco, e a seguir fiz essa canção, a “Em Busca... no.2”. Em uma noite ele ouviu, nos reuníamos sempre em uma casa noturna que tinha no Rio de Janeiro na época, em meados dos anos 70, chamada Vagão. Nesse bar se juntava Erasmo Carlos, Fábio, Tim Maia, Cassiano, Vanusa, Antonio Carlos e Jocafi... um berço onde toda aquela galera que estava começando mostravam suas mais novas músicas. Erasmo ouviu essa música e disse: “Pô, essa música é boa... você não quer me dar essa, não? Estou gravando um disco, estou escolhendo músicas...”. Eu soube depois que houve resistência, como sempre, da parte da direção da Polydor, falando que eu não era compositor... inventaram mais essa, que eu não era compositor. Mas aí ele gravou “Em Busca das Canções Perdidas movimento no. 2”. Ele insistiu e acabou saindo no disco. E o Roberto [Carlos]? Roberto, muito bom, sempre foi muito carinhoso comigo. Nós tentamos gravar uma música com ele, no O Inimitável... Ah é, no O Inimitável? Ia entrar uma música minha e do Paulo Imperial chamada “Eu Fico Só”. Diz ele que não conseguiu cantar a música, por causa do arranjo. O tom estava alto... aquelas coisas do Roberto. E infelizmente não conseguimos emplacar essa música com ele, que acabou sendo gravada pelo Antônio Marcos. Eu e Roberto temos uma amizade boa, tenho um carinho muito especial por ele. Antes de ele ter esse problema de TOC, nós nos falávamos pelo telefone. Eu sempre ligava e ele me retornava. Uma vez perguntaram para ele, em 70, na Hebe Camargo: “Roberto, se você amanhã abdicar do seu trono, quem seria o rei que você citaria?”. E ele respondeu: “Ou o Fábio, ou o Taiguara”. Saiu no Pasquim na época...
E atualmente? Você está planejando um livro... Um livro que se chama Até Parece Que Foi Sonho, onde eu conto aventuras, desventuras e a amizade com o Tim. Estou reativando a minha carreira, com o mesmo vigor, o mesmo entusiasmo que comecei, com novas canções. Estou com um projeto de gravar em breve um CD ao lado de cantoras, sugestão de Jairo Pires e do Tony Bizarro. [dias antes à essa entrevista, Fábio acabara de dar seu depoimento ao escritor Toninho Vaz para um livro sobre o Solar da Fossa: “Acabei de dar um depoimento para Toninho Vaz, para um livro que vai se chamar ‘Solar da Fossa’. Eu morava no Solar da Fossa, um lugar de Botafogo que moravam vários artistas, como uma clínica de repouso para os malucos da época. Moravam Paulinho da Viola, MPB-4, Caetano Veloso, Gal Costa... eu dei meu depoimento de como foi morar lá”.] Fábio, você está repleto de fãs neste Brasil. Dê uma palavra a esse pessoal que cultua o seu trabalho. Quero me juntar a eles, quero que me apoiem. Desculpas também, por ter ficado um bom tempo escondido. Um grande carinho, e mais ainda, o reconhecimento que tenho por eles, o valor que dou agora. Quero revê-los em todo lugar que aparecer por esse Brasil. Desculpas nada... sua obra já diz tudo! E em busca das canções
perdidas, agora e para sempre!
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