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ZÉ DO CAIXÃO
por Andréa Ormond Neste universo paralelo, que jogava por outras regras, é preciso ter em mente a visão anarquista e iconoclasta (por extensão identificada com a marginalidade), de alguns dos seus principais diretores e roteiristas. Isto se aplica tanto ao cinema de intelectuais como Carlos Reichenbach e Rogério Sganzerla, quanto à produção naïf da Boca, calcada no empirismo da bilheteria e do gosto medíocre popular. Falar deste apego à transgressão, a uma revolução não ideológica mas de costumes, é fundamental para que se explique o cinema de José Mojica Marins. Criador do personagem Zé do Caixão, por vezes se confunde com a criatura, e seu talento e sua obra parecem apenas um estereótipo de lenda. Mas Mojica não foi só Zé do Caixão, foi também uma galeria de outras figuras absurdas: Oaxiac Odéz, um excêntrico professor que mantinha em casa um circo dos horrores apenas para justificar seu niilismo; e em dois filmes, "Finis Hominis" de 1971 e "Quando os Deuses Adormecem" do mesmo ano, viveu o personagem Finis Hominis, criado pelo roteirista Rubens Lucchetti para uma novela da Tv Bandeirantes, "O Homem que Apareceu". De fato, o homem aparece, surge vivo e caminhando de dentro do mar em Santos (só isso já faria um milagre sua aparição), e entra pela cidade adentro, no princípio de "Finis Hominis". De início nu, em sua jornada pela cidade ganha uma estranha roupa na casa de uma mulher rica que se apaixona por ele. A indumentária foi sugestão de um amigo de Mojica, um indiano que entraria com dinheiro na produção, que de resto, foi financiada pelo próprio diretor.
"Finis Hominis" tem apenas um fio de história, que se conduz através de vinhetas onde a hipocrisia do mundo é mostrada pelos atos e "milagres" de Finis. Médicos que não cuidam de uma criança morrendo em um hospital, uma paralítica que anda, uma adúltera que é salva - e todos gratos à atuação do misterioso Messias. Em meio à população atônita, o rádio e a tv transmitem o percurso de Finis pela cidade e ajudam a amplificar sua fama, até o êxtase final. De todas as vinhetas, duas se destacam: em uma comunidade hippie, Finis "prova" que o paz e amor são apenas ilusões, dissolvidas diante da cobiça material (arremessa moedinhas e os hippies brigam, em uma das cenas mais pueris do cinema brasileiro). Logo depois vemos a "musa" de Mojica, Andréa Bryan, vivendo uma inescrupulosa mulher, casada com um homem impotente, que se finge de morta para matar o marido de enfarto. Nesta parte, ressalta-se o imenso potencial perverso (para não dizer doentio) do cinema de Mojica, pois a personagem de Andréa é uma masoquista nata, descontando a frustração de odiar o marido em uma relação com um amante cafajeste, que a maltrata com tapas no rosto e com sexo, digamos assim, não-convencional, exigido chorosamente por ela. "Finis Hominis" nem de longe
é um dos melhores trabalhos do diretor - que merecerá
mais tarde aqui uma extensa revisão -, mas é infinitamente
superior ao tipo de cinema que Mojica praticaria a partir da segunda
metade dos anos 70, sufocado em dívidas e na dependência
da boa vontade alheia até para sobreviver. Ainda temos em "Finis"
elementos da iconoclastia divertida de Zé do Caixão, da
inteligência criadora do roteirista Lucchetti e a participação
de amigos de Mojica - como Carlos Reichenbach no papel de um médico
- que avalizavam o seu cinema, tênue fronteira entre a aberração
e a arte.
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