TROPICÁLIA
DIVINOS E MARAVILHOSOS NA ILHA DE WIGHT

 

 

por Leonardo Bomfim

 

Mutantes reunidos, Gal com Lanny Gordin, "Tropicalia ou Panis Et Circensis" reproduzido na íntegra, homenagens a Glauber Rocha, Rogério Sganzerla, Tom Zé, Hélio Oiticia e outros gênios da arte nacional... Não, não é um sonho e, antes de qualquer suspiro, também não é no Brasil.

O Centro Cultural Barbican está promovendo em Londres uma mostra especial sobre a Tropicália, com shows históricos, exposições de obras de arte, sessões de cinema e ainda algumas palestras. O mais legal é que a parte musical do evento está sendo organizada por um pessoal da atual cena musical britânica. O curador é Sean O´Hagan, líder do High Llamas, e está prevista a participação do grupo The Bees e de integrantes do Super Furry Animals. No entanto, engana-se quem pensa que esta é a primeira vez que os Tropicalistas são reverenciados no Reino Unido. No longínquo ano de 1970, Caetano, Gil, Gal e cia fizeram uma elogiada apresentação no lendário festival da Ilha de Wight, que durante três dias reuniu no mesmo palco gente como Jimi Hendrix, The Who, The Doors, Ten Years After, Donovan e outras estrelas.

A Londres de 1970 estava repleta de artistas brasileiros. Exilados do Brasil depois da prisão em 1969, Caetano e Gil foram morar na atraente cidade, e logo todo mundo resolveu aparecer por lá. Roberto Carlos, Gal Costa, Rogério Sganzerla, Helena Ignez, Julio Bressane, Jorge Mautner, entre outros, costumavam se juntar à dupla tropicalista para animadas festas, jam sessions ou momentos de pura chapação. A alegria contagiante dos brasileiros começou a chamar atenção dos ingleses. Curiosamente, um dos primeiros fãs da Tropicália em Londres foi Lemmy Kilminster (até então baixista do grupo Hawkwind), que mais tarde formaria o Motorhead.

O festival da Ilha de Wight ocorreu em agosto de 1970, em uma pequena ilha no sul da Inglaterra e ficou conhecido como o último dos grandes festivais da década de 60. Foi também uma das últimas apresentações (não muito inspiradas) de Jimi Hendrix e Jim Morrison, que morreriam logo depois. Os Tropicalistas conseguiram tocar no evento bem na última hora, por causa do esforço do agitador cultural Cláudio Prado, um cara cheio de contatos quentes.

Cláudio gravou uma jam session organizada por Gilberto Gil, que improvisou um som ali mesmo nas barracas instaladas na ilha, com a presença de vários brasileiros e qualquer um hippie que quisesse se juntar com algum instrumento ou apenas a boa vontade. O pessoal da produção do Festival ficou animado com a fita gravada e, depois de saber que eram artistas bastante famosos no Brasil, resolveu dar uma chance para os tropicalistas abrirem o segundo dia do evento.

Apesar de não existir registros de aúdio, vídeo e nem fotografias disponíveis, o obscuro concerto foi relatado com detalhes no clássico livro "Verdes Vales do Fim do Mundo" (1984), de Antonio Bivar, que também estava exilado em Londres durante o período. Segundo Bivar, as 200 mil pessoas que esperavam o início do segundo dia receberam os tropicalistas com bastante simpatia. Na verdade, o grupo tinha mais estrangeiros do que brasileiros. Gente da França, Estados Unidos, Portugal, Alemanha e outros países fizeram a festa no happening comandado por Gilberto Gil.


Com sua simpatia contagiante, Gil fez o que quis na apresentação, cantando em dialetos africanos, inglês, português e até inventando palavras. Caetano, que não sentia-se tão a vontade na Inglaterra, segurou a onda no violão e cantou uma versão emocionada de "London, London", bastante aplaudida pelo público. Porém, o mais inusitado do show tropicalista foram os momentos teatrais. Um anarquista Caetano pendurou no palco uma bandeira do Brasil, de cabeça para baixo, que tinha sido usada no estádio de Wembley na copa do mundo de 1966. Durante o show ainda surgiu uma fantástica centopéia gigante, da qual sairam dançando pessoas completamente nuas. Gilberto Gil fechou a apresentação com uma versão arrasadora de "Aquele Abraço".

O público foi ao delírio com a calorosa apresentação dos Tropicalistas, que chamou atenção até de produtores da CBS, muito interessados em lançar o grupo por lá. Guilherme Araújo, o empresário da dupla, vetou de cara, pois não achou uma boa idéia acabar com a carreira individual dos dois naquele momento.

O show e o Festival da Ilha de Wight, renderam grandes reflexos na música dos tropicalistas participantes. Caetano, que passou os anos do exílio mais interessado no cinema de vanguarda do que propriamente na música, gravou dois discos em inglês; o triste homônimo de 71 e o antológico "Transa" no ano seguinte. Na sua volta ao Brasil, Caê assustou todo mundo com o pirado "Araçá Azul". Gilberto Gil, ao contrário do amigo, se envolveu com a cena musical londrina, e chegou a tocar com o guitarrista do Pink Floyd, David Gilmour. Seu disco homônimo de 71, gravado na cidade, trazia um pouco do estilo improvisado que encantou os ingleses na Ilha de Wight.

Já Gal Costa, voltou da Inglaterra impressionada com muita gente que tocou no festival, inclusive com os barulhentos The Who e Ten Years After. Porém, foi o jazzista Miles Davis que encantou a cantora baiana. Seu primeiro disco após o show, o "FA-TAL" (1971), apresentava um som hard, ainda com influências de folk e jazz. Tudo o que ela ouviu naqueles três dias. Os integrantes da banda A Bolha, que acompanhou os tropicalistas no concerto, voltaram ao Brasil completamente hipnotizados pelos grupos mais pesados do Festival. Não é a toa que o disco "Um Passo a Frente", de 1973, foi um marco do hard-rock nacional. O vocalista Renato Ladeira chegava a imitar os trejeitos de Roger Daltrey nos explosivos shows da banda.

Se o improvisado happening na Ilha de Wight acabou não resultando em nada além de calorosos aplausoa, agora é de se esperar que a mostra do Barbican ajude a consolidar a tropicália como o grande marco cultural do século XX no país. Quem sabe os brasileiros não começam a dar mais bola para o histórico movimento, e um evento como esse seja apresentado por aqui. No entanto, parafraseando um grande clássico de Caetano e Gil: por enquanto infelizmente tudo é divino e maravilhoso.


 
     

 

 
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