THE TRASHMEN
A MARESIA COM DEMÊNCIA DOS THE TRASHMEN

 

por Roberto Iwai



Em 1964, enquanto garotos e garotas se agitavam alegremente no ritmo da surf music e no sol escaldante da Califórnia, um quarteto em Minneapólis, no outro lado da costa americana, também apreciava a sonoridade que a maresia e os Mustangs emolduravam. Dan Winslow (vocais e guitarra), Tony Andreason (guitarra), Bob Reed (baixo) e Steve Wahrer (bateria) eram garotos igualmente alegres, que também agitavam assim como os californianos.

Mas digamos que o quarteto adicionava algo a mais que alegria, ou uma alegria mais peculiar nessa energia toda da surf music. Em meio à paisagem lúcida de sol, mar e praia, a felicidade do The Trashmen tinha um toque a mais, um toque, digamos, de um pouco de demência no convencional alegrete do shoot the curl.

Surfin' Bird, o único disco oficial da banda, era lançado em 64 sem escrúpulos de nada que se conhecia. Lançado na mesma época que clássicos como Surf City de Jan & Dean (1963), e All Summer Long dos Beach Boys (1964), Surfin' Bird em nada se parecia com as harmonias vocais límpidas e comportadas dos companheiros de estilo. Toda a forma em que o disco e os singles foram registrados são de fato algo espetacular.

Injustamente conhecido apenas pela faixa-título, o disco é exercício ousado no início dos anos 60. Inserindo a maneira trash de ser na surf music, somando-se ao frat rock, The Trashmen foi uma das primeiras bandas a adotar uma postura e sonoridade propositalmente desenfreados, engatilhando a estética do que teria o garage rock futuramente.

O disco abre com "Surfin' Bird". Steve Wahrer, "inspirado" pela canção "The Bird's The World" dos The Rivingtons, seguiu nas sessões de gravação com uma levada de bateria alucinada, junto aos vocais soturnos de Dan Winslow e mixagem que adicionava ecos e precariedade ao som. Estava gravado o cartão de visitas permanente da banda.

Mas não satisfeitos, a banda gravou logo após, como single, a música "Bird Dance Beat", que outra vez citava o The Rivingtons. Dessa vez o clássico "Papa Oom Mow Mow", com a mesma levada, mesmo tema e forma de gravação que "Surfin' Bird". Nos shows, a banda pedia o auxílio de talentosas garotas para dançarem no palco enquanto executavam as músicas. Mais espontâneo e descarado, impossível. Gênios.

"King Of The Surf", a segunda faixa, mostra a banda em sua melhor forma. Composta por Larry LaPole, conhecido guitarrista e amigo da banda, "King Of The Surf" traz Tony Andreason esmirilhando na guitarra, e ainda a bela levada de bateria de Wahrer, que embala a canção de forma peculiar.

LaPole ainda cede mais duas canções ao disco, "Sleeper" e "My Woodie", ambas bem ao estilo de "King Of The Surf", porém com temas diferentes: a primeira se trata de carros, e a segunda, pranchas. Tópicos nada correntes no universo surf...

Carregando a semelhança de nome com o clássico de Dick Dale "King Of The Surf Guitar", o Trashmen prossegue em disco com uma versão de "Misirlou". Priorizando a guitarra mais melódica da original, mas se mantendo altamente fiel à mesma, vale pelo belíssimo grito cru que Winslow dá no início da faixa - a marca registrada dessa canção na versão da banda.

E em instrumental original, "Tube City", composta por Wahrer, é uma pérola perdida. Iniciando com barulhos de um tubo - onda que encobre o surfista - ela se intensifica no meio da faixa, se tornando em certos momentos mais alta que a própria música, fazendo-se confundir até o instrumental soberbo fazer tudo se movimentar novamente.

Partindo do tema "proposto" pelos Rivingtons - pássaros - o Trashmen simpatizou com tal linhagem bizarra e decidiu seguí-la em mais uma das canções do disco. Na genial "Bird Bath" (composta por Dan Darnold, guitarrista do The Revels), a banda inicia em um tema comum de surf music, até prosseguir para um refrão vocal, que intercala barulhos de água, ou gargarejos, pessoas esganiçando como corvos, e vozes no melhor estilo filme de terror B.

E como o universo Trashmen tende a ser ainda mais distinto, o disco ainda comporta uma versão de "Henrietta", clássico do blues, e de "Money (That's All I Want)", em uma inacreditável versão surf. Mas de certo nada se compara ao sentimentalismo (que já não tem barreiras para se inserir qualquer ironia) da banda ao fazerem uma singela versão de "It's So Easy", de autoria de Buddy Holly. Como se tudo fosse extremamente comportado.

Após e durante o lançamento do disco, a banda chegou a lançar alguns belos compactos, como o de "Bird '65 / Ubangi Stomp", "Dancin' With Santa / Real Live Doll", ou a já citada "Bird Dance Beat". Desse legado de atrocidade musical à época, o The Trashmen colocou no mapa uma sonoridade que intercalou universos musicais que nasceram uns para os outros.

O The Trashmen é, aos poucos, sendo redescoberto além Ramones. O selo Double Crown Records lançou lá fora em 99 o tributo Takin' Out The Trash, reunindo bandas como The Untamed Youth, Thee Phantom 5ive e The Krontjong Devils prestando homenagem ao bando, enquanto o trio The Trashwomen vive à imagem e semelhança do quarteto, na sua afetação que beira aos momentos mais insanos da banda.

Nos anos 90, a gravadora Sundazed lançou, além da edição em cd de Surfin' Bird e reedições de alguns dos compactos em vinil, mais três discos, sendo dois deles ao vivo, e o terceiro chamado Great Lost Trashmen Album!, com o que seria o segundo disco da banda. Junto a isso, lançou também a caixa com quatro cd's Bird Call!, contendo singles e raridades.


 
     

 

 
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