ROLLING STONES
RIO DE JANEIRO X BUENOS AIRES

 

 

por Rafael Pesce

 

Só se falava nisso: "A maior banda de rock de todos os tempos está chegando". Bem, durante um bom tempo agüentamos Ana Furtado falando desse show como se fosse a chegada da próxima novela das 8. Mas sabe que pensando bem, a diferença entre o show dos Rolling Stones no Rio de Janeiro e de uma novela não foi tão grande assim. A praia de Copacabana foi o lugar escolhido para este gigantesco espetáculo, com direito a uma "ponte" entre o hotel Copacabana Palace e o palco construído para abrigar o show. Porém, entre o palco e o verdadeiro público dos Stones (e uma boa parcela de curiosos que só estavam lá porque o evento era importante) havia um mar de atores globais, vários famosos convidados pela Claro ou apenas pessoas que trabalham em uma das mais "nobres" e novas profissões da atualidade: Celebridade. Estão lá, porque não tem nenhum talento especial, mas são bonitas e vão aparecer bem quando as câmeras da Rede Globo passearem pela multidão de mais de 4 mil exclusivos. Nos bastidores pré-show, uma das perguntas mais comuns feita aos famosos recebia uma resposta mais clichê ainda:

- Qual a tua música preferida dos Stones?
- Aquela, "I can´t get no.....Satistaction....."

Depois de ouvir a mesma resposta milhares de vezes, podia-se ter idéia do que esperar do público VIP do concerto. Pelo menos, nem todos ficaram em silencio quanto a isso. A equipe do programa Pânico, da Rede TV, teve a decência de responder a alguns:

- Bom, mas porque todos cantam essa música apenas? Por acaso vocês só conhecem essa?

A pergunta era respondida com um sorriso sem graça na maioria das vezes.

Enquanto o show começava, o público que esperava para ver o espetáculo pela televisão teve que esperar o final da novela Belíssima e do Big Brother, para, então, assistir a apresentação com uma boa dose de atraso e com direito a intervenções de Zeca Camargo chamando o intervalo e anunciando as próximas músicas. Alguns, ainda achavam que estavam assistindo o show em tempo real. Seria interessante pensar no Pedro Bial pedindo um tempo pro Mick Jagger, para dar aquela "espiadinha" na casa do BBB. Com um palco que parecia mais um set de novelas da Globo (totalmente iluminado, com pouco jogo de luz), os Stones abriram o show com "Jumping Jack Flash", enquanto as 4 mil primeiras pessoas da frente pouco se manifestavam, e estavam mais preocupadas em aparecer bem nas fotos tiradas pela Caras do que em acompanhar o show histórico. Os fãs dos Rolling Stones tiveram que aturar tudo isso para acompanhar a apresentação, e pouco era mostrado na televisão sobre o "verdadeiro" público do show. A apresentação foi coesa, contendo um set essencialmente de hits, já que boa parte do público não iria conhecer as outras músicas dos Stones. Pelo menos, no final, todos puderam pular e curtir o show, já que a última música foi "Satisfaction", aquela pela qual todos esperavam.

Se o show no Rio de Janeiro pode ser comparado a uma novela Global, os de Buenos Aires podem ser tranquilamente comparados a um jogo de Futebol. As apresentações aconteceram no estádio do River Plate, nos dias 21 e 23 de fevereiro. Com os ingressos esgotados há um bom tempo, o clima era de ansiedade na capital Argentina. Os portões, na primeira noite de show em Buenos Aires, abriram-se apenas às 4 da tarde, e o concerto estava marcado para às 9 e 30 da noite. Com uma fila quilométrica, sobrou tempo para prestar atenção em detalhes sórdidos e jogar conversa fora, já que o tempo médio na fila superou a marca de 3 horas. Para aqueles que vieram de táxi, as opções eram duas. Ou você ia para os Rolling Stones, ou para um inferninho, já que a maioria dos taxistas ganham um extra como agenciadores sexuais, distribuindo cartões das mais diversas "casas de show" da capital argentina. Para aqueles que optaram pela noite de rock and roll, não faltaram bizarrices durante a longa espera. "Jovens" senhores e senhoras, com higiene duvidosa, preparavam sanduíches e pastéis com ingredientes mais estranhos ainda. Não tem problema se a comida cai no chão, já que é muito fácil colocá-la de volta no cesto e vender para o próximo da fila, que nem desconfia da procedência do alimento. Cabelo, entre o guisadinho de gato, já era normal a essas alturas.

Quando a hora da apresentação finalmente havia chegado, boa parte do público ainda estava fora do estádio, esperando a (des)organização do show entulhar todo mundo para dentro o mais rápido possível. Resultado: além do público de 60.000 pessoas, tivemos um extra de 5.000 "penetras" que viram os Stones como no Rio, ou seja, de graça. Mas vendo um show na Argentina, a gente entende o porquê dos artistas se referirem ao público portenho como o melhor. Eles não param de cantar nenhum minuto, esbravejando cânticos às vezes indecifráveis para nós falantes da língua portuguesa, mas que pela beleza do espetáculo soavam belos. Com um clima de decisão entre Boca Juniors e River Plate, os Rolling Stones fizeram uma apresentação memorável, onde público e banda mostravam uma conexão quase que sexual. Cada música tocada pela banda era recebida pelos fãs como se fosse um orgasmo. Exceção essa, feita a música "This Place Is Empty", que, honestamente soaria melhor se fosse trilha de um Vale a Pena Ver De Novo, ou seja, deveria ter sido tocada apenas no Rio de Janeiro, onde o clima era propício. Apesar de cantar essa música, Keith Richards foi o mais ovacionado durante o concerto, recebendo gritos de "Olê, Olê, Olê, Olá...Richards, Richards" por mais ou menos uns 10 minutos. No final das contas, o guitarrista foi o "jogador" mais aplaudido em campo.

Após o show, fãs lembravam com emoção os momentos mágicos de clássicos como "Paint It Black" e "You Can´t Always Get What You Want", e com o fim da "partida", quem mais ganhou foi o público presente neste show antológico.



 
     

 

 
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