POWDER
SWINGIN' MODS NAS PRAIAS CALIFORNIANAS

 

por Leonardo Bomfim



A cultura mod foi um fenômeno genuinamente britânico, mas que bebia bastante da soul music e do r'n'b, ritmos norte-americanos. Bandas como Who e Small Faces, talvez as que melhor adaptaram esse som negro americano, faziam a cabeça dos jovens emboletados e "enlambretados" que viviam na cinzenta Inglaterra da primeira metade dos anos 60.

Em 1966, com a chegada das cores, do impacto da pop-art e das drogas lisérgicas nas terras britânicas, as bandas favoritas dos mods expandiram seus horizontes e gravaram algumas obras-primas, destacando A Quick One do Who e Face to Face dos Kinks. A soma das influências americanas anteriores, com o típico estilo inglês debochado e mais a vontade de inovar sonoramente resultou em uma identidade musical realmente britânica, que até hoje é cultuada em todo o mundo. Por incrível que pareça, uma das bandas sixties que melhor traduziu essa estética mod britânica pós-66, foi o americano Powder, formado em San Mateo, cidade próxima de San Francisco.

As origens do Powder se dividem em duas histórias, dois países e Kiwi Rock! Em 1964, na distante Nova Zelândia, um carinha meio mod chamado Ray Columbus estava estourado com sua banda Ray Columbus & The Invaders. O país estava vivendo a febre do rock'n'roll desde que a beatlemania e, posteriormente, a british invasion chegaram por lá. Excelentes grupos pipocavam pelo continente (vale a pena conferi-los nas coletâneas Wild Things e Ugly Things) e o Ray Columbus & The Invaders era talvez o mais famoso, com vários singles nas primeiras posições das paradas.Também foram os primeiros a difundir a cultura mod por lá com a regravação de "She's a mod", pop-song dos obscuros ingleses Senators, que trazia a temática modernista na letra, e que estourou por todo o continente no ano de 1964. Depois de dois anos, Ray Columbus percebeu que ali não tinha mais para onde crescer e resolveu se mandar para a atraente Califórnia, que surgia como a 'Meca' efervescente do rock. Lá ele iria conhecer os irmãos Martin.


Ray Columbus

Richard e Thomas Martin, desde o começo da década de sessenta, tocaram juntos em diversas bandas de sua cidadezinha, San Mateo, na península de San Francisco. Duas dessas bandas atingiram um certo destaque local. o The Impressions, que fazia um som instrumental com influência da surf music e o Newcastle Five, que era mais voltado para o folk. Em 65, as bandas inglesas que chegavam nos Estados Unidos chamaram bastante a atenção dos irmãos, que logo ficaram obcecados por toda a cultura britânica. Obsessão que era alimentada por um amigo dos dois, filho de um piloto da Pan Am, que volta e meia voava pra Londres e voltava com revistas de música, discos, compactos e até roupas, compradas diretamente da Carnaby Street. Dá para imaginar que os Martin eram os seres mais estranhos de San Mateo, pequena cidade conhecida pelo seu clima praiano.

Nessa época os irmãos estavam formando uma nova banda, o Art Collection, com a dupla dividindo as guitarras e vozes, mais Scott Arbulich no baixo e vocal principal e Stuart Murdoch na bateria. Era uma típica banda inglesa no meio da Califórnia. Nos shows eles chegavam a tocar canções lado b do Who, Hollies entre outras. É nesse momento que Ray Columbus aparece na história.


Art Collection

Ray tinha saído da Nova Zelândia em busca de sucesso maior e logicamente seguiu direto para San Francisco. No entanto, ele sacou logo que ali a concorrência seria braba, e então se mandou para San Jose. Lá passou um tempo assistindo shows nos bares e clubes noturnos e em um desses descobriu o Art Collection. Ray, outro anglófilo de carteirinha, ficou encantado com a banda dos irmãos Martin e logo os convidou para ser seu grupo de apoio. Ray Columbus & The Art Collection começou a fazer shows matadores e no começo de 67 gravou o single "Kick Me". Trata-se de uma garageira fuzz animal que causou um rebuliço local.

Os caras começaram a ganhar mais destaque e abriram shows dos Turtles e de Eric Burdon & The Animals. Apesar do sucesso inicial, a região de San Francisco começou a fechar as portas para esse tipo de som mais anfetaminado. Afinal os hippies loucos de chá de cogumelo e lsd preferiam viagens sonoras mais lentas que Grateful Dead e Jefferson Airplane faziam com maestria. Ray Columbus & The Art Collection não pensaram duas vezes e se mandaram para Los Angeles, aonde a cena era mais diversificada, e começaram a rodar o circuito underground de shows. Um desses shows chamou a atenção de Dennis Pregnolato, produtor de Sonny & Cher, que andava a procura de um grupo de apoio. O produtor da dupla ficou alucinado com a pegada da banda ao vivo e logo fez o convite, que foi prontamente aceito. Nessa época, Ray Columbus percebeu que na Califórnia seria apenas mais um, enquanto na Nova Zelândia sempre seria um ídolo para os jovens, e decidiu voltar para sua terra natal.

O Art Collection seguiu fazendo a tour com Sonny & Cher e nesse período gravou alguns compactos. "I go to school" e "Millicent'" são alguns destaques, esta ultima já com Richard Martin fazendo a voz principal. No final de 1967, Stuart e Scott abandonaram a banda, fato que atordoou os irmãos por um tempo, afinal Scott Arbulich era o cantor principal do grupo. Depois de uns meses sem saber o que fazer, os dois resolveram chamar Bill Schoppe, ex-companheiro de banda no Newcastle Five, pra bateria e seguiram como um trio. Com essa formação, Thom Martin foi para o baixo e Richard passou a ser o cantor principal. Schoppe, com seu estilo "keith moon" de tocar, encaixou-se perfeitamente com as novas idéias dos irmãos.

Faltava apenas um novo nome e eles chegaram ao Powder, numa referência ao som explosivo que o trio estava começando a desenvolver.

No início de 68 o Powder foi pra Westmont, aonde gravou uma demo com três músicas. "Turn another page", "Do I love you" e "Glady" apresentam uma banda turbinada e totalmente sintonizada com o som que o pessoal da swingin london estava fazendo. São três músicas que não fariam feio em nenhum disco do The Who. A demo logo chamou atenção de Sonny Bono e Dennis Pregnolato, que prontamente contratou o Powder para o seu selo Progress Production. A idéia era gravar um disco inteiro e depois negociar a distribuição com uma gravadora grande. Enquanto isso a banda acompanhou algumas gravações de Sonny & Cher e conseguiu a oportunidade de gravar algumas canções no famoso estúdio Gold Star, em Los Angeles. Nada menos do que o estúdio preferido de Brian Wilson e Phil Spector. Na verdade, o Powder ficou realmente interessado, por ter sido o estúdio em que o Who gravou a música "I can see for miles". Apesar de toda a fama, os registros da banda no Gold Star foram muito prejudicados. Os engenheiros de som não deram muita bola para o jovem trio e não conseguiram captar toda a energia necessária. Fora que o produtor Pregnolato ainda resolveu tentar polir o som para dar uma cara mais bonitinha. A nova versão de "Turn another page" ficou muito fraca e a banda resolveu gravar o resto sem qualquer frescura. Nessas sessões, o Powder conseguiu recordar algumas pérolas perdidas do rock sixtie.


Powder acompanha Sonny & Cher, 1968

"Magical Jack", que praticamente decola com as viradas insanas de Bill Schoppe, "Rodeo", apresentando guitarras estridentes e clima western psicodélico (yeah, is this real?/yeah,what I fell.../Rodeo, rodeo, rodeo.../) com direito a tiros de espingarda antecipando o refrão e "Grimbley Leitch", uma homenagem bem humorada ao antigo vocalista Ray Columbus, são os destaques. Já "I Try" e "Ruby Red Lips" soam como cópias descaradas do Who, a primeira com a intro chupada de "So Sad About Us" e a segunda praticamente igual à "Mary Anne With The Shaky Hands".

As últimas canções gravadas pela banda já seguiam um som um pouco diferente, com bastante influência do Love ("What the people said") e da música folk americana ("Flowers" e "Too many miles"). A bonita "Flowers" ainda entrou na trilha sonora do filme Chastity de Sonny & Cher. O detalhe mais curioso é que o produtor Dennis Pregnolato dublou a voz de Richard para a versão do filme. No entanto o trio andava meio insatisfeito, pois não tinha chance de mostrar as suas músicas e de fazer shows, sempre aparecendo somente como banda de apoio de Sonny & Cher. Com isso, os integrantes foram enchendo o saco e em 1969 a banda encerrou as atividades, deixando essas preciosas demos perdidas pelo tempo.

Os irmãos Martin não saíram do mundo da música mas resolveram abandonar um pouco o mod e embarcar no folk. Os dois adotaram o nome artístico Richard & Thomas Frost e lançaram um excelente single ainda em 69. "She's got love" chamou a atenção da gravadora Imperial e os dois gravaram o disco Visualise no final do mesmo ano. É um disco perfeito para quem gosta de sunshine-pop e folk mais eletrificado, músicas como "Where did yesterday go" e "December rain, april laughter" até arrepiam! Por incrível que pareça, o disco, que conta com a participação especial de músicos como Skip Battin, Mars Bonfire e Hal Blaine, só foi lançado em 2002! A Imperial foi comprada em 69 e o disco dos irmãos ficou trinta e três anos perdido. Mesmo desiludidos, os dois ainda tentaram novamente lançando um fraco disco homônimo em 72 e depois desistiram de vez.

No meio dos anos 90 começou a onda de relançamentos do trabalho dos dois. O cd Biff Bang Powder! (uma referência à clássica canção do Creation, heróis mod ingleses) chegou às lojas com todos os registros do Powder, mais músicas raras do Art Collection, Ray Columbus e da fase folk dos irmãos Martin. Lembrando que as músicas do Powder até 96 nunca tinham sido lançadas, certamente Richard e Thomas Martin estão no hall dos maiores fracassados da história do rock, mas felizmente, com o lançamento da coletânea do Powder e do disco solo Visualise, a justiça acabou sendo feita, e todo o talento dos dois anglófilos da costa oeste americana pôde ser conferido. Portanto, se você quiser ser mais MODerno, roube, compre ou baixe no soulseek a maravilhosa discografia do Powder e dos irmãos Martin.


 
     

 

 
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