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EXPLOSÃO PLÁSTICA INEVITÁVEL
por Patrícia Fróes
NADA DE NOVO
O argumento é simples, a prova era viva até uns meses atrás e o efeito é um bálsamo: Stan Brakhage, diretor experimental americano, considerado por muitos o maior artista do século XX é também o mais generoso. Em sua colossal obra que comporta quase 300 filmes, Brakhage registra não mais que sua casa, seus filhos e sua mulher. Com uma câmera quase epidérmica o que há de mais ordinário ganha forma de sagrado, o registro toma posse do bonito, e sem formalismo algum, Brakhage exibe um prisma do cotidiano de uma beleza quase sufocante. Sem nenhuma grande idéia um gênio nos dá o mundo de presente. Julio Cortazar já havia nos dado o poder da reinvenção do mundano no conto ocupações maravilhosas. "Que ocupação maravilhosa é ir andando pelo Boulevard Arango contando as árvores, e a cada cinco castanheiros parar um momento num pé só e esperar que alguém olhe, e então soltar um grito breve e seco, e girar como um pião ". Com um olhar de uma generosidade infinita, mais um gênio sem idéias, fita o óbvio e se lambuza de prazer, transformando o rotineiro em balé e o banal em grito. Se depois de tudo isso, ainda me restava alguma angústia quanto à minha falta de idéias, ela se foi nesta última semana. Woody Allen, que para mim sempre foi o rei delas, autor do personagem fora de foco e de umas das mais emblemáticas frases do cinema, deu um passo para o lado e se filiou ao clube dos que desdobram fiapos de argumentos. Ponto final é um filme sem brilhantismos isolados ou excessos, sem intelectualidade novaiorquina ou posicionamentos engajados. Com um refinamento aromático o filme transborda o talento do diretor que, mais seguro do que nunca, conta uma história. O gênio que abdicou das idéias se atem a uma bobagem e a comprime até virar deleite. Jean Luc Godard, Agnés Varda, Mike Leigh, Jean Vigo, Tsai Ming Liang o bloco dos sem idéias não tem fim. Me conforto na possibilidade de assistir a filmes repletos de sacadas sem conviver com a dolorosa impressão de que o cinema não precisa de mim. Minha nova doutrina me leva a faculdade todo dia e só não segura a onda quando um maldito Marcel Duchamp dá as caras e repleto de idéias me mostra que ele sim foi além. É nessa hora que assumidamente ressentida eu repito quase como um mantra: a idéia morreu e ponto final. Não posso reclamar, auto-ajuda tem efeito paliativo e eu sempre soube disso.
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