NINA SIMONE
AS MIL E UMA FACES DE NINA SIMONE


 

por Rafael Pesce

 

Nascida na pequena cidade de Tyron, no interior dos Estados Unidos, e vinda de uma descendência africana, é difícil pensarmos em Nina Simone como uma pianista clássica. Pois foi desta maneira que a pequena Eunice Kathleen Waymon (nome verdadeiro da cantora) queria ser conhecida. Mas através de algumas artimanhas do destino, o mundo não ganhou uma pianista clássica, mas sim, uma cantora cuja intensidade e emoção em sua voz emocionaram públicos de várias gerações.

Quando tinha apenas 6 anos de idade, Nina Simone foi pega pela mãe brincando com um piano. A partir desse dia, a vida da cantora mudaria. Estimulada pela mãe a aprender o instrumento, recebeu aulas de piano clássico desde cedo. Aos 11 anos realizou o seu primeiro recital, e um fato interessante daria início a trajetória de luta contra o preconceito racial que viria a ser parte importante da vida de Nina mais tarde. Quando estava prestes a começar o concerto, sua família foi expulsa dos assentos da frente para dar lugar a uma família de brancos. Nina se recusou a começar a apresentação, até que a sua família fosse imediatamente posta de volta em seu lugar. Na adolescência, quando sua família se muda para a Filadélfia, Nina tenta entrar no famoso Instituto Curtis. Surpreendentemente não entra, por que segundo seus avaliadores, a artista não seria boa o suficiente. Mas na verdade, era a descriminação racial assolando a vida de Nina novamente.

Decidida a não desistir do seu sonho, a cantora começou a dar aulas de piano clássico e a se apresentar em bares da cidade. Porém, a música que Nina estava tocando já era bem diferente dos cânticos religiosos que outrora eram tocados na igreja que sua família freqüentava. Para evitar que sua mãe a descobrisse tocando música não religiosa, a jovem Eunice teve uma brilhante idéia: Adotar um nome artístico. Nina, o primeiro nome, era o apelido de um ex-namorado mexicano; Simone, o segundo nome, foi em homenagem a atriz francesa Simone Signoret. Em um dos bares que tocava, o Midtown, Nina foi indagada no final de uma apresentação pelo dono do bar sobre o porquê de apenas tocar e não cantar. A resposta foi simples, Nina respondeu argumentando que era apenas uma pianista. O dono do bar retrucou dizendo que, se a partir daquele momento ela não começasse a cantar, perderia seu emprego. Um ato que talvez parecesse "ameaçador" na época, acabou por tornar-se o passo inicial para a jovem Nina descobrir seu talento único, uma voz com tamanha beleza que parecia tocada por um gênio. A partir daquele dia, Nina Simone incorporou o estilo próprio de sua música. Diferentemente de seus contemporâneos, que tinham raízes na música gospel, Nina vinha da escola da música erudita, associada às pessoas de cor branca. Quando a necessidade de cantar apareceu, Nina acabou por recorrer à música negra, porém não abandonando o seu estilo clássico de tocar piano.

Naquele momento, Nina Simone criou o que seria a base do seu som único. A fama da cantora rapidamente se espalhou, e no final dos anos 50, o pequeno selo Bethlehem foi berço para o primeiro grande sucesso de Nina, "I Loves You Porgy", incrivelmente seu único top 20 na carreira. Em seu primeiro álbum, Little Girl Blue, Nina apresentou uma eclética seleção de músicas que vinham fazendo parte de seu repertório.

No começo dos anos 60, já no selo Candix, gravou 9 álbuns, sendo metade deles ao vivo. A fama das apresentações de Nina estava cada vez maior. A diva não se contentava apenas em cantar uma música, ela tinha que possuí-la, e dessa maneira Nina hipnotizava a sua audiência. Na metade dos anos 60, uma nova troca de gravadora, dessa vez a escolhida foi a Philips. O resultado foi a gravação de mais 7 discos em apenas 3 anos. Com o rock britânico em plena ascensão, Nina acabou por tornar-se uma queridinha entre as bandas inglesas. Os Animals, de Eric Burdon, chegaram a gravar um sucesso na voz de Nina, a música "Don't Let Me Be Misunderstood". Com a luta pelos Direitos Civis em pleno destaque nos anos 60, a música de Nina acabou por sofrer algumas mudanças em decorrência destas manifestações.

Músicas como "Mississipi Goddam", mostravam Nina Simone cantando sua dor ao máximo. Neste período, a cantora recebeu o apelido de "a garota da revolução negra". Em 1967 ocorreu mais uma mudança de "casa". Pela RCA a cantora gravou mais 9 discos, agregando alguns elementos mais pop em sua música. Canções como "Ain't Got No - I Got Life", do musical Hair, e o cover de "To Love Somebody", dos Bee Gees, foram enormes sucessos na voz de Nina Simone. A primeira, presente no disco ao vivo Nuff Said (1969), foi oferecida em homenagem a Martin Luther King, assassinado um dia antes da gravação do show.

Os anos 70 foram um pouco tumultuados para Nina Simone. Divorciada do marido e empresário, Andy Stroud, e com alguns problemas financeiros, a cantora entrou em uma fase mais calma de sua vida. Gravando esporadicamente, e peregrinando por vários países, Nina passou a viver quase no anonimato. Porém, em 1987, Nina Simone vê o seu antigo clássico, "My Baby Just Cares For Me", virar um hit inesperado após aparecer em uma propaganda dos perfumes Chanel. Apesar do repentino sucesso, Nina Simone continuou a viver sua vida calmamente na França, onde faleceu em 2003. Durante sua vida, a cantora deixou uma interessante mensagem sobre o significado da mesma: "Compartilhe comigo os sentimentos de amor e desapontamento, caminhe comigo pela estrada da vida que é cheia de tristezas, mas celebre também aqueles poucos e incomparáveis momentos que fazem a vida quase tolerável; mas não vire as costas para mim quando as coisas derem errado, pois isso também é vida".

Com certeza, a maior virtude de Nina Simone estava no fato de ser descompromissada e não ter medo de confrontar novos desafios, transitando por vários caminhos diferentes sem perder a magnitude. Onde você colocaria um disco da diva? Soul, Jazz, Blues, Folk, Pop? Uma tarefa difícil. Talvez, todos nós devêssemos ter um espaço em nossa coleção com a inscrição: NINA SIMONE! Única!

Disco Essencial:

 

High Priestess Of Soul (1966)


 
     

 

 
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