MUSIC MACHINE
DEMÔNIOS PINTADOS DE PRETO





por Leonardo Bomfim

 

A música dos anos sessenta geralmente é lembrada como algo colorido e repleto de melodias ensolaradas, mas na contra-mão disso tudo, apareceram alguns 'demônios' garageiros (principalmente nos Estados Unidos) que anteciparam em quase uma década o punk, tanto no som quanto na estética. A banda que mais simbolizou esse antagonismo ao lado 'groovy' dos sixties foi o Music Machine, cujos componentes, em plena efervescência de Los Angeles, só usavam roupas pretas e tocavam o diabo em músicas berradas e distorcidas.

As raízes do Music Machine estão no trio The Raggamuffins, liderado pelo cantor, guitarrista e compositor Sean Bonniwell. Sean tinha largado, em 65, o Wayfares, mais voltado para o folkpop, para se juntar a Greg Olsen e Ron Edgar e tentar fazer um som com influências da british invasion. Edgar era um baterista com formação jazzística e já era amigo antigo de Bonniwell, enquanto Olsen foi recrutado quando tocava baixo na banda de apoio da cantora neozelandesa Gale Garnett. As poucas canções registradas pelo Raggamuffins já apresentam mais peso, ainda sem largar o folk de vez.
No entanto, a grande mudança só iria ocorrer no começo do ano seguinte, com a troca do nome para The Music Machine e com a entrada de dois importantes integrantes, Doug Rhodes e seu órgão farfisa, e Mark Landon com sua guitarra fuzz. Essa combinação acabou virando marca registrada da banda.

O vocalista Bonniwell pensava em algo chocante para o visual, e decidiu que só usariam roupas pretas (incluindo luvas!). Além do figurino, eles também pintaram todos os instrumentos e equipamentos e tingiram os cabelos na cor preta, isso sem falar no clássico corte 'tigelinha' que a banda inteira fez. Enquanto isso do outro lado do atlântico um inglês magrelo cantava 'Paint it black'... Coincidência?

O fato é que nenhuma banda da época tinha um visual tão assustador quanto o Music Machine. Não precisa nem dizer que viraram malditos no mundinho hippie que estava se formando em L.A.


Outra curiosidade desse período, é que eles realmente eram uma 'garage band', sempre ensaiando na garagem do vocalista e de vez em quando, fazendo alguns shows improvisados para os vizinhos mais jovens e sedentos por rock'n'roll.

O Music Machine começou a tocar nos bares e clubes noturnos da cidade e em uma dessas apresentações, chamou bastante a atenção do pseudo-produtor e filhinho de papai Brian Ross, que logo os contratou para sua pequena gravadora Original Sound. Os shows da banda realmente chamavam atenção, o visual dark e as músicas agressivas levavam os jovens ao delírio.Eles ainda tinham uma postura arrogante em cima do palco. Mais de uma vez um show do Music Machine terminou em pancadaria.

Em setembro de 1966 eles entraram em estúdio para gravar o primeiro single, que sairia com a lenta "Come On In" no lado A e "Talk Talk" no lado B. Na última hora, a banda achou melhor trocar, resultado: "Talk Talk" chegou ao número quinze nas paradas da Billboard e foi número um nas rádios de Los Angeles.Um fato inédito até então, se tratando de uma autêntica banda de garagem.

"Talk Talk" é o resumo do som do Music Machine em uma canção. Quase dois minutos de fuzz no talo, levada agressiva, afinação mais baixa, órgão farfisa e a potente voz de Bonniwell comandando tudo.

Com o sucesso do primeiro single, a Vox se interessou em patrocinar a banda, que logo exigiu os barulhentos amplificadores Vox SuperBeatles. A intenção do Music Machine era calar as garotas chatas que viviam gritando na frente do palco.


Turn On (1966)

Os caras estavam com tudo e logo entraram em estúdio para gravar o primeiro disco. As gravações não demoraram e ainda no ano de 66 Turn On estava nas lojas. O disco de estréia é um dos clássicos do punk garageiro de todos os tempos. São sete canções de Bonniwell e seis covers, destacando "Hey Joe", numa versão mais lenta e climática, e a antiga "See See Rider", antes gravada pelo Animals. Mas o que interessa mesmo no Turn On, são as músicas próprias. Nelas, o Music Machine criou um estilo totalmente único com a combinação do fuzz seco e rasgante (cortesia do baixista Keith Olsen que sacava tudo de eletrônica e criou o primeiro pedal Fuzz Box, que depois seria utilizado por nove entre dez bandas de garagem) com o órgão farfisa e a voz grave e berrada de Sean Bonniwell. Músicas como "Trouble", "People In Me" e "Masculine Intuiton" são perfeitas para animar qualquer festinha garageira. O Music Machine era certeiro em músicas agressivas e ao mesmo tempo dançantes.

Turn On tinha tudo para ser um sucesso, mas não foi isso que aconteceu, por culpa da má distribuição feita pela pequena Original Sound. As músicas tocavam nas rádios mas quando as pessoas iam nas lojas comprar o disco, não achavam nada. Apesar da situação chata, a banda não desanimou e seguiu numa longa tour pelos Estados Unidos, aonde tocaram em todos os bares possíveis e até em colégios.

Nessa época, o clima entre os integrantes estava um pouco ruim, com todos reclamando que o líder Sean Bonniwell estava ganhando mais grana.Enquanto os demais músicos do Music Machine ganhavam quase nada, o vocalista andava em Los Angeles no seu luxuoso Cadillac. Mas outras coisas estavam acontecendo, segundo o organista Doug Rhodes, Sean andava muito estranho, brigava quase todo dia com uma mexicana gostosona que namorava, e isso parecia afetar a sua vida. Pintava aí uma Yoko Ono do Music Machine? O fato é que Bonniwell andava realmente frustrado por não conseguir colocar mais nenhum hit nas paradas. Depois do sucesso de "Talk Talk", eles lançaram mais dois singles e todos fracassaram. O clima estava péssimo e os demais integrantes resolveram sair fora, logo se juntando ao criativo compositor Curt Boettcher nos seus projetos de sunshine pop Sagittarius e Millenium. Os discos gravados por eles são grandes 'clássicos perdidos' da boa música pop feita nos anos 60.

Apesar de todos os problemas, Bonniwell resolveu seguir em frente e rompeu o contrato com a Original Sound, o que significava perder o nome 'Music Machine', propriedade do produtor Brian Ross. Mesmo assim, ele recrutou uns amigos músicos, assinou com a Warner e gravou o segundo disco da banda, chegando às lojas no início de 67 sob o nome de Bonniwell Music Machine.

O disco é bastante irregular e foi um fracasso. Entre as poucas músicas que se salvaram, "Bottom Of My Soul" e "Talk Me Down" foram resgatadas das sessões do Turn On, ainda com a formação original. O restante ainda apresenta momentos que lembram o Music Machine do primeiro ano, mas a grande maioria já aponta para outras direções, como a balada "To The Light" e a pop "Tin Can Beach". O fuzz ainda estava presente mas já dava uma brecha para dedilhados de violão. Fuja da edição original e compre Beyond The Garage, compilação lançada em 1995, que traz o disco inteiro e mais alguns sensacionais singles lançados durante o ano. "Double Yellow Line" e "The Eagle Never Hunts The Fly" são as melhores músicas do Music Machine após o primeiro disco.

Como já era de se esperar, o Bonniwell Music Machine não chamou a atenção de quase ninguém e Sean resolveu acabar com a banda no começo de 69. Bonniwell ainda fez sua última tentativa de voltar às paradas lançando um disco solo. Close saiu em 69, mas foi ignorado por praticamente todo mundo. O vocalista percebeu que era hora de se recolher e se afastou totalmente da mídia. Hoje ele é um simpático velhinho fervorosamente católico, que vive numa garagem em condições bastante precárias e briga na justiça com a Original Sounds pelos direitos autorais de suas canções. Recentemente terminou o livro Beyond the garage, aonde conta tudo o que viveu no showbizz. Depois dos anos 60, os outros integrantes também se afastaram do mundo da música, exceto Keith Olsen, que se tornou um dos produtores mais requisitados dos Estados Unidos, responsável por discos de babas como Whitesnake e Scorpions.

Basicamente, em um disco o Music Machine deixou o seu legado para história. Até hoje surgem diversas bandas influenciadas pelos cinco darks de Los Angeles. Fuzztones, Jon Spencer Blues Explosion e até novidades brasileiras como FuzzFaces, The Honkers e Transistors mostram que aprenderam muito bem as lições de Sean Bonniwell e o seu Music Machine.


 

 
     

 

 
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