|
|
MUSIC MACHINE
A música dos anos sessenta geralmente é lembrada como algo colorido e repleto de melodias ensolaradas, mas na contra-mão disso tudo, apareceram alguns 'demônios' garageiros (principalmente nos Estados Unidos) que anteciparam em quase uma década o punk, tanto no som quanto na estética. A banda que mais simbolizou esse antagonismo ao lado 'groovy' dos sixties foi o Music Machine, cujos componentes, em plena efervescência de Los Angeles, só usavam roupas pretas e tocavam o diabo em músicas berradas e distorcidas. As raízes do Music Machine estão
no trio The Raggamuffins, liderado pelo cantor, guitarrista e compositor
Sean Bonniwell. Sean tinha largado, em 65, o Wayfares, mais voltado
para o folkpop, para se juntar a Greg Olsen e Ron Edgar e tentar fazer
um som com influências da british invasion. Edgar era um baterista
com formação jazzística e já era amigo antigo
de Bonniwell, enquanto Olsen foi recrutado quando tocava baixo na banda
de apoio da cantora neozelandesa Gale Garnett. As poucas canções
registradas pelo Raggamuffins já apresentam mais peso, ainda
sem largar o folk de vez. O vocalista Bonniwell pensava em algo
chocante para o visual, e decidiu que só usariam roupas pretas
(incluindo luvas!). Além do figurino, eles também pintaram
todos os instrumentos e equipamentos e tingiram os cabelos na cor preta,
isso sem falar no clássico corte 'tigelinha' que a banda inteira
fez. Enquanto isso do outro lado do atlântico um inglês
magrelo cantava 'Paint it black'... Coincidência?
O Music Machine começou a tocar nos bares e clubes noturnos da cidade e em uma dessas apresentações, chamou bastante a atenção do pseudo-produtor e filhinho de papai Brian Ross, que logo os contratou para sua pequena gravadora Original Sound. Os shows da banda realmente chamavam atenção, o visual dark e as músicas agressivas levavam os jovens ao delírio.Eles ainda tinham uma postura arrogante em cima do palco. Mais de uma vez um show do Music Machine terminou em pancadaria. Em setembro de 1966 eles entraram em estúdio
para gravar o primeiro single, que sairia com a lenta "Come On
In" no lado A e "Talk Talk" no lado B. Na última
hora, a banda achou melhor trocar, resultado: "Talk Talk"
chegou ao número quinze nas paradas da Billboard e foi número
um nas rádios de Los Angeles.Um fato inédito até
então, se tratando de uma autêntica banda de garagem.
Os caras estavam com tudo e logo entraram
em estúdio para gravar o primeiro disco. As gravações
não demoraram e ainda no ano de 66 Turn On estava nas
lojas. O disco de estréia é um dos clássicos do
punk garageiro de todos os tempos. São sete canções
de Bonniwell e seis covers, destacando "Hey Joe", numa versão
mais lenta e climática, e a antiga "See See Rider",
antes gravada pelo Animals. Mas o que interessa mesmo no Turn On,
são as músicas próprias. Nelas, o Music Machine
criou um estilo totalmente único com a combinação
do fuzz seco e rasgante (cortesia do baixista Keith Olsen que sacava
tudo de eletrônica e criou o primeiro pedal Fuzz Box, que depois
seria utilizado por nove entre dez bandas de garagem) com o órgão
farfisa e a voz grave e berrada de Sean Bonniwell. Músicas como
"Trouble", "People In Me" e "Masculine Intuiton"
são perfeitas para animar qualquer festinha garageira. O Music
Machine era certeiro em músicas agressivas e ao mesmo tempo dançantes.
Apesar de todos os problemas, Bonniwell resolveu seguir em frente e rompeu o contrato com a Original Sound, o que significava perder o nome 'Music Machine', propriedade do produtor Brian Ross. Mesmo assim, ele recrutou uns amigos músicos, assinou com a Warner e gravou o segundo disco da banda, chegando às lojas no início de 67 sob o nome de Bonniwell Music Machine. O disco é bastante irregular e foi um fracasso. Entre as poucas músicas que se salvaram, "Bottom Of My Soul" e "Talk Me Down" foram resgatadas das sessões do Turn On, ainda com a formação original. O restante ainda apresenta momentos que lembram o Music Machine do primeiro ano, mas a grande maioria já aponta para outras direções, como a balada "To The Light" e a pop "Tin Can Beach". O fuzz ainda estava presente mas já dava uma brecha para dedilhados de violão. Fuja da edição original e compre Beyond The Garage, compilação lançada em 1995, que traz o disco inteiro e mais alguns sensacionais singles lançados durante o ano. "Double Yellow Line" e "The Eagle Never Hunts The Fly" são as melhores músicas do Music Machine após o primeiro disco. Como já era de se esperar, o Bonniwell Music Machine não chamou a atenção de quase ninguém e Sean resolveu acabar com a banda no começo de 69. Bonniwell ainda fez sua última tentativa de voltar às paradas lançando um disco solo. Close saiu em 69, mas foi ignorado por praticamente todo mundo. O vocalista percebeu que era hora de se recolher e se afastou totalmente da mídia. Hoje ele é um simpático velhinho fervorosamente católico, que vive numa garagem em condições bastante precárias e briga na justiça com a Original Sounds pelos direitos autorais de suas canções. Recentemente terminou o livro Beyond the garage, aonde conta tudo o que viveu no showbizz. Depois dos anos 60, os outros integrantes também se afastaram do mundo da música, exceto Keith Olsen, que se tornou um dos produtores mais requisitados dos Estados Unidos, responsável por discos de babas como Whitesnake e Scorpions. Basicamente, em um disco o Music Machine
deixou o seu legado para história. Até hoje surgem diversas
bandas influenciadas pelos cinco darks de Los Angeles. Fuzztones, Jon
Spencer Blues Explosion e até novidades brasileiras como FuzzFaces,
The Honkers e Transistors mostram que aprenderam muito bem as lições
de Sean Bonniwell e o seu Music Machine.
|
|||||
| 2006. Freakium! e-zine. Todos os direitos reservados. | ||