GLÓRIA A MOSSY NAS ALTURAS!

 

por Leonardo Bomfim


Quando a discussão é sobre cinema nacional, muito se fala em Cinema Novo e Cinema Marginal, mas também muito se esquece das lendárias Pornochanchadas, que invadiram as telas dos cinemas brasileiros durante a década de 70, mas que, injustamente, sempre tiveram sua qualidade questionada. O gênero é freqüentemente confundido com filmes pornográficos, mas carrega na sua essência um humor tipicamente brasileiro, sem nenhum exagero e nem tomadas "anais", apesar da temática realmente voltada para o sexo.

Grandes estrelas atuaram em Pornochanchadas (algumas você pode até encontrar na sua novela favorita), como Nuno Leal Maia no antológico O Bem Dotado Homem de Itu (1978), e Vera Fischer em A Super Fêmea (1973). No entanto, o grande mestre do gênero foi Carlo Mossy, o israelense mais carioca de todos os tempos. Para a sorte dos fãs do ator, o Cine Odeon do Rio de Janeiro organizou uma mostra especial, entre os dias 17 de fevereiro e 2 de março, com 10 dos seus melhores filmes.

Durante os anos 70 e 80, Mossy atuou, produziu e dirigiu mais de 20 filmes, quase todos dentro do estilo, e fez de seu simpático e safado sorriso uma marca registrada do gênero. Na época, Mossy montou a produtora Vidya, e começou a rodar um filme atrás do outro. Independente da trama, o ator sempre fazia o papel do garanhão, mas não com pose de cafajeste. As personagens do galã sempre foram do tipo "gente boa", que conquistava as mulheres no papo e no charme.

Realmente, charme e humor dão a tona em clássicos como Quando As Mulheres Querem Provas (1975) e Essa Gostosa Brincadeira a Dois (1974). O primeiro, do diretor Claudio McDowell, traz Mossy no papel de Bira, um carioca metido a gostosão que está a fim de transar com todas as mulheres em suas férias no Espírito Santo. Apesar da pose, o cara acaba com fama de gay por culpa de um cômico engano. Rapidamente todas as mulheres da cidade resolvem devorar o suposto homossexual para tentar colocá-lo no caminho certo. Assim que percebe a situação, Bira passa a aproveitar o lado positivo da fama. Destacam-se também Pedro de Lara e Henriqueta Brieba, no papel de dois velhos rabugentos e militantes da moral da sociedade brasileira.

Essa Gostosa Brincadeira a Dois, dirigido por Vitor di Mello, é uma espécie de road-movie que parte de uma tradicional Pornochanchada para terminar em um ode ao romantismo. Mossy e Dilma Loes interpretam Carlos e Beth Bombardeio, dois amigos inseparáveis que enchem o saco de tudo e partem para a Bahia atrás de diversão. Em meio a golpes em hotéis, noitadas com hippies, transas intermináveis com Vera Fischer e até participação no programa do Chacrinha, os dois descobrem que o mais importante no mundo é a amizade. O tocante final é reforçado pela maravilhosa trilha sonora, composta por José Itamar de Freitas.


Cena de Essa Gostosa Brincadeira a Dois

Outros destaques da mostra foram o cultuado Giselle (1983), também dirigido por Victor Di Mello, que apresenta uma família rica cercada por orgias e até momentos de estupro e pedofilia; o engraçado As Granfinas e o Camelô (1977), dirigido por Ismar Porto, trazendo o galã no papel de um pobretão que acaba recebendo aulas de boas maneiras (e algo mais!) de três ricas e lindas mulheres; e o o surreal Com As Calças Na Mão (1976), dirigido pelo próprio Mossy, que interpreta Reg, um atrapalhado vendedor que recebe pedidos absurdos, como um jogador de golfe, um padre exorcista e 20 dúzias de camisinhas. Obviamente, as clientes são sempre mulheres gostosonas que tentam Reg até não poder mais.

A única bola fora foi a não exibição do raríssimo A Beata Libertina (1983), trocado pelo pesado Ódio (1977), um ótimo filme, mas que fugiu da proposta da Mostra. Apesar da falha, o Cine Odeon está de parabéns por valorizar um gênero tão marginalizado e raramente respeitado hoje em dia. Em um país repleto de sacanagem por todos os lados, as Pornochanchadas deveriam ser reconhecidas como a nossa Bíblia, e consequentemente, Carlo Mossy como nosso Deus. Uma frase dita por uma das personagens de Quando As Mulheres Querem Provas, resume bem a importância de Mossy para o cinema brasileiro: "se você não é homem, então ninguém mais é!". Amém!


 
     

 

 
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