ENTREVISTA: MARCOS VALLE
A MPB MARGINAL DE MARCOS VALLE

 

por Leonardo Bomfim



À margem de toda a poeira das velhas e repetitivas estrelas da MPB, existe um carioca simpático, com pinta de surfista, sorriso aberto e uma obra genial ainda pouco valorizada. Seu nome: Marcos Valle.

Quando é lembrado, Marcos Valle sempre é associado à bossa nova, muito por "culpa" dos deliciosos primeiros hits de sua carreira, "Samba de Verão", " A Resposta" , "Preciso Aprender a Ser Só", entre outros. No entanto, o cantor e compositor não ficou parado no tempo repetindo a fórmula do sucesso. A partir dos anos 60, sua carreira virou de cabeça para baixo, com obras-primas surgindo ano a ano, inovando na sonoridade e na poesia (méritos para seu irmão Paulo Sérgio Valle, co-autor de quase todas as letras). Jazz, soul music, samba, pop-art, cinema de vanguarda, psicodelia, trilhas de novela, corridas de fórmula 1, rock progressivo e outras loucuras temperavam o caldeirão sonoro dos Valle.

Infelizmente essa preciosa fase é muito mais reconhecida no exterior do que no Brasil. Por aqui, a maioria de seus discos sequer foi lançada em cd, enquanto no Japão, por exemplo, existem versões com capa de luxo e até faixa-bônus. A Freakium sabe o que é bom, e aproveitou um show do cantor em Porto Alegre para fazer uma entrevista sobre o brilhante período de sua carreira.

 


Você apareceu no cenário musical brasileiro durante a chamada "segunda geração" da bossa nova, e obteve bastante destaque nos Estados Unidos ainda nos anos 60. Depois de uma viagem para lá em 1967, você voltou um pouco mudado. Viola Enluarada, o primeiro disco após a viagem, traz no encarte referências a movimentos estudantis, tropicalismo, Beatles, bomba, sexo, computadores, entre outras novidades. De que forma você sentiu o impacto dessas novidades?

Antes mesmo de começar minha carreira, eu sofria bastante influência de baião, jazz, música clássica, samba, música negra americana... Tudo foi batendo na minha cabeça até chegar a bossa nova. O impacto da bossa nova em mim foi muito forte no início, principalmente nos meus dois primeiros discos. Nos outros discos, começam a aparecer todas as outras características da minha música, que acabaram cativando o público na Europa até hoje.

Eu fui pela primeira vez para os Estados Unidos para tocar com o Sérgio Mendes. Ele queria que eu ficasse lá, mas eu quis voltar. Em 1967 a música "Samba de Verão" estourou por lá. Eu fui e gravei um disco instrumental chamado Braziliance, com arranjos de Eumir Deodatto. Fiz vários programas de televisão também, de costa a costa, e gravei um novo disco vocal chamado Samba 68.

Um lançamento em inglês...

A maioria era em inglês sim. Era para eu ter ficado por lá, mas mais uma vez eu senti saudades. Eu adoro o Brasil, tenho que morar aqui.

E lá você teve contato com bandas e artistas diferentes?

Eu conheci compositores como Johnny Mandel, Henry Mancini, Quincy Jones, mas ainda voltei em 1968. Eu estava com muitas saudades do Brasil, que estava vivendo aquele período político difícil. O Viola Enluarada é totalmente de protesto, e bem brasileiro mesmo. Foi quando eu conheci o Milton Nascimento, fizemos espetáculo e passamos dois anos trabalhando juntos. Eu e o meu irmão sempre fomos irriquietos, não gostávamos de ficar parados, fazendo a mesma coisa. Musicalmente eu sempre busco algo novo, estou atento ao que está acontecendo. Nas letras, eu sempre quis provocar de alguma maneira, em termos políticos, como em "Viola Enluarada", no comportamento, como em "Com Mais de 30", ou falando mal da sociedade industrial, do consumismo louco, em "Mustang Cor de Sangue". A gente sempre teve essa coisa de provocar...

De ser a "caspa", como diz a letra de "Pigmalião".

Exatamente! Eu continuei a carreira nos anos 70, mas as músicas começaram a ser censuradas e ficou chato. Em 1975 eu fui pela terceira vez aos Estados Unidos, sem pensar em ficar, mas acabei ficando 5 anos.

Voltando para 1969, quando você lançou o disco que deu uma virada na sua carreira, o Mustang Cor de Sangue ou Corcel Cor de Mel. Tanto na parte musical, quanto na poesia, não existia nada parecido na época. Novas influências musicais apareceram, como Wilson Simonal e todo o som da Pilantragem...

Na época o Wilson Simonal até gravou "Mustang Cor de Sangue". É um disco muito Pop. Depois do Viola Enluarada, que era um disco bem brasileiro, a gente caminhou para esse lado pop. O Simonal era um craque, cantava pra caramba, aquele suíngue era demais. Tem uns toques de Simonal dentro daquele disco. Ali deu aquela abertura, o pessoal comentou: "a música dos Marcos é tudo isso, é choro, samba, pop". Ali que eu acho que as pessoas começaram a verificar que a minha música era bem aberta, e era assim mesmo, nada forçado, porque as influências tinham sido assim na minha vida.

É um disco que conseguiu reunir ritmos brasileiros como frevo, samba, com jazz, e temática pop, com influência de Beatles, Burt Bacharach, cinema de vanguarda...

Essa mistura que formou o tipo de música que a gente fazia. Ficar atento a tudo, querendo ouvir tudo o que estava acontecendo. Nunca se manter ali na coisa tradicional.

O disco até tem uma relação forte com o tropicalismo, pela mistura inusitada de estilos. Quando a tropicália surgiu, muita gente da MPB torceu o nariz, como a própria Elis Regina. De cara, o que você achou de Caetano, Gil e cia?

Eu gostei pra caramba! (risos) Eu achei que era exatamente aquela abertura que eu gosto. Achei o maior barato. Novos instrumentos, nova postura de palco, o comportamento deles, com muita influência dos Beatles. Eles nos facilitaram a abrir mais o nosso trabalho. Muita gente acostumada com a bossa nova se surpreendia, e já tinha outro público novo que estava se formando. Depois de alguns anos as pessoas passaram a entender mais.

É interessante que o disco, além de ter essa coisa pop, as novas referências, também soava com crítica em relação ao consumismo, com a própria "Mustang Cor de Sangue", "Tigre Esso Que Sucesso". Você estava ali cutucando muita gente...

Mesmo quando a gente fez as trilhas de novela, como "Capitão de Indústria", que diz "eu acordo para trabalhar, eu corro para trabalhar". A gente mexia com a cabeça das pessoas em todos os lugares que entrava. É uma característica minha e do Paulo Sérgio. Minha carreira já tem 40 anos e continuo muito impaciente, irriquieto...

Aproveitando que você falou das trilhas, o seu disco seguinte homônimo de 1970, trazia algumas canções que participaram de novelas da globo. Inclusive "Pigmalião", que tem uma letra muito bacana. Há trechos sensacionais como "A verdade pode estar na caspa e não no xampu", "É na margem que eu encontro a lucidez", "No seu mundo oficial sempre fui um marginal". Essa música não teve problemas com a censura?

Nessa aí eu não lembro se tive, talvez... Algumas músicas tinham problemas, mas a gente ia até o censor e explicava "cara, não é bem isso...", e conseguíamos passar. Acho que "Pigmalião" foi uma dessas. Isso acontecia muito. Em "Black Is Beautiful" por exemplo, tinha um trecho sobre o negro dizendo "que melhore o meu sangue europeu". Aí os censores disseram : "pô, por que melhorar? Isso é um problema racial que você está trazendo pro Brasil..." A gente deu um jeito e colocou "que se integre no meu sangue europeu".

Outro tema polêmico que as letras abordavam era a questão da religião. No Mustang Cor de Sangue já aparecia "O Evangelho Segundo San Quentin". No disco de 70 tem "Esperando o Messias", sobre um casal que está sempre esperando o salvador mas está sempre só. São canções que traziam à tona a questão da linguagem do Cristianismo naquele período, final da década de 60... Como era a reação das pessoas ao ouvir essas músicas?

Você tocou num ponto legal. A gente já estava falando de um assunto que mais tarde se tornou mais grave. Essas coisa da Igreja hoje, a busca eterna, algumas a gente sabe que só estão atrás de grana. A gente já estava falando dessa coisa de você ser tomado pela religião, de tomar cuidado, seguir seu caminho e manter sua mente aberta, tanto politicamente, quanto religiosamente. Eu não tenho nada contra Deus, pelo contrário. Mas cuidado pra onde estão te levando. De repente, em termos religiosos, você está sendo ludibriado. A gente sempre quis falar muito para os jovens. Tudo bem, os pais falam as coisas, mas siga o seu caminho, procure na sua geração a solução. A questão religiosa foi algo que a gente quis mexer também, da mesma forma que a questão política.

O disco seguinte, Garra (1972), já abre com "Jesus Meu Rei", uma música que o cantor Leno gravou anteriormente com outro título ("Pobre do Rei", do disco completamente censurado Johnny McCartney de 1971), mas que foi banida...

"Pobre do Rei" foi totalmente cortada. A gente tentou liberar mas não deu, eles sacaram: "mas esse Rei aí é o Presidente!". A música era forte, o Leno já tinha gravado com produção do Raul Seixas. Eu decidi que regravaria a música, e então nós partimos para a religião novamente.

Não pode mexer com o Presidente, mas com Jesus pode...

Não podia falar politicamente, mas no fundo nós estávamos com a mesma intenção. A gente estava usando "Jesus" como se fosse o Presidente, mas aí eles já não puderam mais falar nada.

O Garra até pode ser considerado o Sgt. Peppers da sua carreira, pegando todas as suas influências básicas e soando completamente inovador. Nessa época você entrou de vez no som black, com "O Cafona", "Paz & Futebol", "Black Is Beautiful"...

Essa coisa negra dentro de mim sempre foi muito forte. O Toni Tornado e a Sandrá de Sá diziam pra mim: "você não é branco, você é negro!" . Esse negócio do suíngue, da mão esquerda, esses grooves, é uma coisa realmente negra que eu tenho. Tanto que quando eu fui pros Estados Unidos, eu só gravava com os crioulos, eu estava maravilhosamente entrosado com eles. Isso é uma característica minha mesmo. O Garra tem bastante pegada negra, acho que é uma parte forte da música que a gente fazia.

O Toni Tornado chegou a te elogiar muito na época. Como foi levantar a bandeira black em um momento tão conturbado do país?

Eu e o Paulo Sérgio quisemos dar uma provocada mesmo com "Black Is Beautiful". Nós fomos a Los Angeles e encontramos os crioulos com aquele lance do black power e tudo mais e achamos muito bonito. Ficamos empolgados com a beleza daquilo e quisemos trazer para o Brasil, que tinha um racismo meio escondido. A Elis gravou e fez uma apresentação bombástica no Maracanãzinho, quando o Toni Tornado entrou no palco fazendo o símbolo do black power e acabou todo mundo preso. Eles só se salvaram porque depois a polícia soube que os autores eram Marcos e Paulo Sérgio Valle, dois loiros. Com isso a gente conseguiu dar uma amenizada na história.

No Garra também aparece "26 Anos de Vida Normal", gravada anteriormente pelo Erasmo Carlos. Fale um pouco dessa polêmica composição, e da sua relação com Roberto e Erasmo. Você acompanhava a carreira dos dois?

Eu era muito próximo do Erasmo. Ele tem uma musicalidade interessantíssima, tem um outro lado dele, diferente das músicas que ele faz com o Roberto, com uma linguagem musical muito interessante. Ele acabou namorando minha irmã e eu estava namorando uma amiga dela, então nós saíamos juntos. Várias vezes fomos jantar e dançar juntos. Ele até brinca que a gente acabou com qualquer besteira entre a jovem guarda e a bossa nova, já que estávamos sempre juntos. Eu resolvi dar pra ele "26 anos de Vida Normal", porque ele era o cara ideal para gravá-la. Essa letra é exatamente isso tudo, de não querer ficar a vida inteira vendo televisão, de voltar à vida sendo um marginal. Eu gosto do Roberto e até tive música gravada por ele, mas sou bem mais próximo ao Erasmo.

Depois do Garra, você radicalizou totalmente com Vento Sul (1972). Você chegou a ir para uma aldeia de pescadores compor e fugiu bastante da música brasileira tradicional...

É um disco bem hippie, muito experimental, gravado com O Terço e com outro pessoal. A gente viajava e eu dividia o dinheiro com todo mundo.

Então era realmente bem hippie mesmo! (risos)

A gente ia pra Búzios, litoral do Rio de Janeiro, e compúnhamos lá. Tem muita coisa intertessante. O Vinícius Cantuária cantou comigo e fez muitas coisas ali. Dentro da minha carreira é um disco bem diferente, mas acho legal, porque mostra aquele momento que eu tive, de romper com tudo, descobrir uma outra história.

A questão hippie sempre está ligada às drogas. Na época você gostava?

Logicamente eu experimentei maconha, mas nunca passei disso. Eu tinha sempre um grilo porque com a maconha eu perdia o controle. A única vez que fui para o palco depois de ter fumado, eu me senti completamente inseguro. Eu era esportista, gostava de surfar então não combinou bem. Tive uma experiência durante um certo tempo, mas depois deixei de lado. Não tenho nada contra mas comigo não funcionou bem.

Você lançou o Previsão do Tempo em 1973. É um disco de temática pesada, a começar pela capa, com você supostamente desmaiado ou até morto debaixo da água. É fácil relacionar com as sessões de tortura dos militares...

Todo mundo olha por esse lado mesmo, essa capa acabou dando bem essa idéia de estar sufocado e até na Europa eles olham dessa maneira. Musicalmente, eu acho o Previsão do Tempo bem importante.





Tem uma sonoridade bastante sofisticada...

É o Azimuth que está tocando comigo, a gente usou vários teclados, sintetizadores e aqueles instrumentos da época. Junto com o Garra, é o disco favorito dos europeus. Marcou bem minha carreira lá fora.

"Flamengo Até Morrer", que abre o disco, costuma ser citada como uma canção simpática ao governo, quando é exatamente o contrário. Você dá várias cutucadas na ditatura, é bem debochada até...

Totalmente debochada! Até quando a gente fala: "Fio na reserva, Dario no comando, e o resto a gente sabe mas não diz...", a gente tá sacaneando o exército, mostrando que na verdade quem comandava o povo era alienação causada pelo futebol. Essa era a sacanagem da música. Teve um cara que escreveu um livro e não entendeu nada...

O Paulo César de Araújo, no livro "Eu Não Sou Cachorro Não"...

Não é impossível que ele interpretou como favorável ao exército. A música era realmente pra dar uma sacaneada total no governo.

Essa passou pela censura?

Passou!

Até devem ter gostado!

Eles não devem ter entendido, assim como o cara do livro...

No Previsão do Tempo tem "Samba Fatal", outra música importante. É bem direta, tem a ver com a capa.

É bem a idéia da capa do disco. Inclusive falávamos da morte do Torquato Neto, que tinha se matado. Estamos falando dele, naquela confusão... É uma homenagem a ele.

Depois do Previsão do Tempo, você lançou seu último disco na década de 70, Marcos Valle - 1974, que teoricamente era mais pop, mas não vendeu muito...

Esse disco tem um pouco do Clube da Esquina. Eu parti pro lance dos vocais, que eu adoro, e então chamei o Tavito, que sempre foi um craque nos arranjos vocais. Eu disse para ele que queria algo pop, mas não orquestra, queria mesmo bastante vozes. Então é uma outra história da minha carreira. Esse disco tem "Meu Herói", "No Rumo do Sol"... É bem baseado nessa parte do coro, embora tenha algumas letras bem diferentes...

Com certeza. Tem "Remédio Pro Coração", que aborda o alcoolismo, "Casamentos, Filhos e Convenções", sobre adultério...

Exatamente. A gente manteve o lance irriquieto das letras, mas com essa novidade sonora do vocal.

Uma influência beatle não?

Isso. É um disco totalmente Beatles!

Depois desse disco, você foi para os Estados Unidos e ficou um tempo por lá.

Primeiro eu fui para Nova Iorque e depois para Los Angeles, e gostei logo da praia, do sol. Lá, a Sarah Vaughan me convidou para tocar com ela. Em seguida o Chicago, que eu desde garoto era vidrado, aquela mistura de rock e jazz, quis gravar músicas minhas. Depois veio um cara chamado Leon Ware, que era parceiro do Marvin Gaye... Enfim, quando eu vi, eu fiquei. Só voltei ao Brasil na década de 80.

Todos os seus discos da década de 70 são muito mais valorizados no exterior, como você mesmo comentou sobre o Garra e o Previsão do Tempo. Artistas como o Beck, Stereolab, Sean Lennon e até mesmo os DJ's colocam o seu trabalho em um patamar altíssimo. No Brasil você é um cara meio underground, uma espécie de MPB marginal mesmo. Como você lida com isso?

Eu gosto de olhar a vida pelo lado positivo. Eles me descobriram sem eu fazer nada, podia não ter acontecido nada. Isso abriu tudo. De lá, eu peguei esse público, comecei a gravar e acabou tendo um eco no Brasil, e os jornais começaram a falar.

O brasileiro sempre espera o artista ser valorizado lá fora para depois bater palma...

Isso, teve uma garotada daqui começou a se interessar por causa disso: "pô, vem cá, se o Stereolab está falando, deve ser bom, vamos ouvir o Marcos Valle!" Aí veio o pessoal de outra geração começar a fazer música comigo. Os Paralamas, o Lulu Santos... Isso tudo me deu uma união a esse público novo. Pouco a pouco o lance está aquecendo por aqui. Então eu não tenho nada a reclamar, tenho que agradecer o que está bom e seguir em frente.

Até porque cachê em dólar é sempre melhor! (risos)

Ah sim! É sempre bom! Mas não é só por isso, é porque eu quero é viver de música, fazendo o que gosto. Essa coisa de ter um mercado aqui e lá fora permite que eu ganhe um dinheiro e consiga viver assim. Isso é que é importante.


 

 
     

 

 
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