JAMES TAYLOR QUARTET
ÓRGÃO HAMMOND PARAS AS NOVAS GERAÇÕES

 



por Pedro Brandt

 

Uns anos atrás, estava discotecando num tradicional evento da noite brasiliense dedicado somente aos discos de vinil, quando resolvi ousar e tocar a versão do organista Lafayette (ele mesmo, o que gravou os discos do Roberto) para Day Tripper dos Beatles. Imediatamente, a geral torceu o nariz. Uma menina chegou pra mim e falou: "Pô DJ, teclado não!". Até entendo a rejeição das pessoas àquele som, já que de alguma forma o som dos teclados ficou relacionado, de uma forma geral, ou ao excesso ou à cafonice. É só lembrar do rock progressivo, de sub-gêneros do pop durante os anos 80 (new wave, synth pop, etc), da new age e mais recentemente, no Brasil, do forró movido a teclados fajutos, entre outros. Todos eles se utilizaram em maior ou menor escala do instrumento. Pra piorar, a falta de discernimento do grande público no que diz respeito às sonoridades de órgãos, pianos elétricos e teclados torna tudo uma coisa só. Bem, só posso lamentar para quem não gosta de uma boa tecladeira. Aos selecionados leitores da Freakium, deixo aqui - em minha primeira colaboração para a revista - uma dica para os fãs das teclas: The James Taylor Quartet.

No começo da década de 80, no auge do Mod Revival, o inglês James Taylor (não o confundir com seus homônomos: o americano autor de "You've got a friend" e o vocalista do Kool And The Gang) mandava ver no órgão hammond na banda The Prisioners. Com o fim da banda, ele decidiu criar um projeto de rock instrumental e em 1986 surgiu o James Taylor Quartet. Além de James no órgão, completavam o time Alan Crockford no baixo (também ex-Prisioners), e dois egressos da banda The Daggermen, o baterista Simon Howard e o guitarrista e irmão de James, David Taylor. No repertório inicial do quarteto estavam algumas músicas de Booker T. And The MG's e temas de filmes como Mrs. Robinson e Blow Up.

E por falar em Booker T, a comparação entre o James Taylor Quartet (principalmente em seus primeiros discos) e a banda da casa da Stax/ Motown é de certa forma inevitável. Além da sonoridade soul instrumental, o caldeirão de influências do JTQ agrega muita coisa de funk dos anos 70 (funk, jazz-funk), jazz (fusion jazz, organ jazz, rare grooves), trilhas sonoras diversas (dos 60's e 70's) e, é claro, o rock que James e sua turma ouviu ao longo dos tempos.

Da virada da década de 80 até meados da década 90, o James Taylor Quartet teve seu nome associado à emergente cena do Acid Jazz. Muito mais do que um selo, Acid Jazz acabou se tornando uma referência musical. Naquela mesma época, os DJs mais antenados de Londres (como Gilles Peterson) começaram a tocar em seus programa de rádio e em festas exatamente os sons que influenciavam o JTQ e outros grupos do Acid Jazz. Esse som era jazzy, funky, groovy, enfim, música classuda para dançar, tocada por músicos de primeira e retirada de discos relativamente obscuros ou esquecidos pelo tempo. Ou seja, era a antítese da vigente Acid House, que então fazia a cabeça da moçada nos clubs, raves e danceterias.

Nos shows, o James Taylor Quartet vira um monstro. Não é preciso nem ir a uma apresentação deles, basta ouvir uma gravação ao vivo. Com um vigor punk, James faz miséria no hammond. O resto da banda (que muitas vezes é acompanhada por sopros, percussão, backing vocals e até vocalistas convidados) ajuda a manter a pegada ora com levadas mais mod-jazz, ora mais funky. Som para dançar, curtir no balcão do bar tomando um drinque ou simplesmente se surpreender com a performance. Não à toa, seus shows são geralmente lotados.

Apesar do sucesso que conseguiu ao longo dos anos, principalmente devido às suas apresentações ao vivo, o JTQ nunca foi muito bem em vendas de discos. Em 20 anos de carreira, o grupo passou por diversos selos, gravadoras, lançou vários singles, EPs, álbuns e coletâneas. A habilidade de James Taylor com o hammond também foi requisitada para a gravação de discos de bandas como Manic Street Preachers, Pogues e U2. Ao longo dessa trajetória, diversos músicos passaram pela banda e seu som também mudou bastante. Alguns de seus discos, inclusive, são bem irregulares.

Uma boa dica é começar justamente por uma coletânea, o que dará ao ouvinte um panorama abranjente de todas as fases do grupo. Se a idéia é buscar suas melhores músicas na internet, a nata de sua produção são os discos The Money Spyder (1993) - uma trilha sonora para um filme imaginário - e Mission Impossible (1987). Seu trabalho mais novo, The Oscillator (2003), mais setentista, é igualmente recomendado.


The Money Spyder

No Brasil, já foi lançada uma coletânea intitulada The Collection (http://www.painelmusical.com.br/detalhe.asp?produto_id=5445192). Em trilhas sonoras como a do filme Austin Powers, músicas do grupo também podem ser encontradas. Por incrível que pareça, o JTQ teve alta rotatividade na TV brasileira uns anos atrás. O canal por assinatura Cartoon Network exibia com freqüência uma vinheta do desenho animado Johnny Quest, na qual os personagens apareciam como bonequinhos de jogo de tabuleiro, com a banda interpretando o tema de abertura da animação. Uma pena esta versão matadora não ter saído em disco.

Em recente entrevista ao jornal britânico The Observer (http://arts.guardian.co.uk/jamming/story/0,,1684867,00.html#article_continue), James Taylor contou que está numa fase boa de sua vida. Se livrou do vício do álcool e após participar de cursos de psicoterapia, ajuda outros a se livrar do mesmo problema. Nada mal para quem passou os últimos 20 anos tocando na noite, fazendo a festa de boêmios e cool cats e, de quebra, mostrando para as novas gerações como o órgão hammond pode ser excitante.

Site oficial: http://www.jtq.co.uk

Site não oficial: http://jtqgroove.com/jtqgroove


 
     

 

 
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