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GROUP SOUNDS
por Roberto Iwai Ciência? Não, nem precisamos disso para saber que algo muito diferente ocorria na cabeça dos japoneses no efervescente sixties. É só escutar. Bandas que faziam sucesso e demarcavam seus parâmetros nas paradas encarando canções no patamar de um andamento torto, um inglês misturado à pronúncia japonesa, e muita, muita liberdade musical. Esse era o Group Sounds.
Com os resultados da Segunda Guerra Mundial, a metade dos anos 60 no Japão foi totalmente tomada pela influência americana. A comoção que grupos como The Ventures causavam nos garotos ávidos por fazer parte de uma banda era quase que exclusivamente latente. Isso foi bastante expresso através de nomes como o cantor e guitarrista Kayama Yuzo. Mas em 1966, um certo grupo de Liverpool adentrava o nipônico país para fazer o que fizeram no restante do mundo. Os Beatles faziam sua turnê como fazia em toda parte do globo, e exatamente naquele momento, o Group Sounds nascia. O Group Sounds (ou G.S., como também é conhecido) foi um movimento sob forte influência da cultura britânica. A partir dos Beatles, toda a concepção musical dos orientais mudaria radicalmente.
E era assim que caminhava o Group Sounds: entre versões de clássicos e canções próprias, primavam pelo diferencial. Mesmo que esse beirasse ao estranho, sem eles nem saberem.
O The Spiders seguiu fazendo belas canções beat que não fariam feio em nenhuma compilação do gênero. Muitas inspiradas canções autorais, como "Furi Furi '66", "Teardrops", "Go Go", "Hey Boy" (sem relação com Os Mutantes), "End Of Love" (essa com inserção de sonoplastia de espelhos quebrados, como Ronnie Von faria anos depois), e a versão mais macarrônica de um enrolado linguajar na acelerada "Johnny B. Good".
Beatles, Zombies... as influências sempre estavam presentes, mas nunca necessariamente explícitas ou digamos... A versão do Tokyo Beatles, outra banda bem conhecida no G.S., de "All Day And All Of The Night" dos Kinks inseria andamentos a mais no riff, fazendo a canção sair totalmente do tempo normal, dando um nó aos acostumados com a original britânica. E muito antes da cover garageira dos The Mummies para o clássico dos mods "Land Of 1000 Dances", a banda The Bunnys gravava uma inacreditável e ruidosa versão da mesma canção, com duração de apenas um minuto e meio. À medida que o tempo passava, as bandas do Group Sounds foram notando as possibilidades sonoras que eram possíveis dentro do universo que chegavam a eles. Derivando em caminhos próprios e idéias distintas. Dessas idéias, saíram alguns dos momentos mais inspirados do rock de garagem mundial. The Out Cast, a banda mais furiosa do período, não trazia em seu som nada mais, nada menos do que saturações de guitarra fuzz e órgão em tudo que gravavam. Foi dessa fórmula que se originou a mais explosiva versão de "Long Tall Sally" já vista na face da Terra: nada parecida com a original, com um órgão fazendo o riff da canção, totalmente berrada do início ao fim, e com uns palavreados meio balbuciados em japonês. E a grande e contagiante versão de "Everything's Alright" (com brilhante e acelerada levada de bateria), original do The Mojos, que anos depois viria a ser regravada por David Bowie no seu disco Pinups.
Incluia-se ainda a surf fuzz "Let's Go On The Beach" (sic), que se inicia com um retorno de guitarra estrondoso e uma ruidosa platéia de garotas (mesmo não sendo ao vivo) e o clássico G.S. "You Gat a Call Me" (sic). Uma das últimas grandes bandas do Group Sounds a a se destavar foram os The Mops. Se criando à imagem de Eric Burdon e o seu The Animals, fazendo versões de "San Franciscan Nights" e "Inside Looking Out", tinham ainda grandes canções autorais em seu primeiro clássico disco. O período notável do Group Sounds terminaria em 1969, quando a partir daí os orientais começam a adotar uma postura mais séria, e sonoridade mais calcada na psicodelia, no flower power e em pesadas guitarras. Dentro de todo esse experimentalismo e ousadias do Group Sounds, existia um verdadeiro laboratório sonoro em cima do que era feito, caminhos harmônicos e melódicos que muitos nunca pensariam, sonoridade rasgante, e isso ainda sem a influência do garage que ocorria lá fora. Sem contar ainda o total descaso com a língua inglesa, assassinando-a sempre que não possível pronunciá-la ou escrevê-la com grafia correta.
Dentro dessa busca, as bandas, mesmo sendo englobadas em um grupo que permitia certa diversidade sonora, acabavam se encontrando dentro dessa inquietude toda. E isso é o que fez o Group Sounds ser algo tão distinto como é visto no mundo inteiro atualmente. Uma das cenas mais criativas do beat e garage mundial, que se iniciou como uma simples visita de Lennon, McCartney, Harrison e Ringo Starr. Sgt. Pepper's eles até poderiam imaginar, mas essa, nem eles esperavam.
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