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MARCOS VALLE
por Leonardo Bomfim
A partir deste ano, Marcos Valle lançou
um clássico atrás do outro, e ainda por cima algumas fantásticas
e cultuadas trilhas sonoras, como a do documentário de Emerson
Fittipaldi, do seriado infantil Vila Sésamo, além de diversas
canções nas novelas da Rede Globo. Por aqui, dei preferência
aos discos de carreira do compositor. É o disco que marcou a mudança definitiva na carreira de Marcos Valle, que deixou de soar brasileiro para soar universal. Há influência de samba, jazz, soul, psicodelia, Beatles, Burt Bacharach e Pilangragem, tudo fermentando um som completamente original. Um texto de Marcos e Paulo Sergio explicava alucinadamente o conceito do disco. Vale a pena reproduzí-lo na íntegra: "Se o filósofo Diógenes vivesse hoje, procuraria um homem de verdade como os faróis de um Mustang... Muito louco, pois só perdendo o juízo eu acho a cabeça. E veja os Dentes Brancos do Mundo... sorrindo, rindo, marijuanizado. E o mendigo que morreu enforcado no ´hall´ (ou Hal) do elevador seria Cristo? Christo - próton - Deus - Segundo Evangelho de S. Quentin. Das 3 às 6 graxa pelo chão, torre de petróleo, meu pássaro é o avião, a a ve a nave, amando o Tigre da Esso - que Sucesso. Neste mundo anormal alucinógeno para ficar normal. Só perdendo o juízo achamos a cabeça." A loucura do texto também estava presente em canções como a "pilantra" "Os Dentes Brancos do Mundo", que citava maconha, masturbação e ressaltava a perigosa frase do encarte: "Só perdendo o juízo, eu acho a cabeça"; a soul-psicodélica "Mustang Cor de Sangue" e a lounge "Tigre Esso que Sucesso", que faziam uma crítica bem humorada ao consumismo exagerado; e na inusitada "O Evangelho Segundo San Quentin", que lamentava a morte do redentor enforcado no hall do elevador, traçando um paralelo com o filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick. Outras canções também
se destacavam, como "Samba de Verão 2", de letra bem
poética; "Dia de Vitória", sobre a passeata
dos cem mil e o tema jazzy "Azimuth". Em 1969, os Valle já estavam bem
à frente da maioria dos artistas do cenário brasileiro.
No disco homônimo de 70, Marcos
manteve a sonoridade gostosa do Mustang mas deu um passo à
frente em relação à poesia. Os irmãos estavam
mais afiados do que nunca. Nota-se logo em "Pigmalião",
recheada de tiradas sensacionais como "a verdade pode estar na
caspa e não no xampu" ou "é na margem que eu
encontro a lucidez", praticamente inaugurando um novo gênero:
a MPB marginal. O disco também traz três
ótimas canções instrumentais, "Ele e Ela",
com solfejos simbolizando uma relação sexual (representando
bem a capa, que mostra Marcos Valle em um quarto de motel), a arrepiante
"Freio Aerodinâmico", perfeita trilha para um pega em
alta velocidade e a viajante "Suíte imaginária: Canção
- Corrente - Toada - Dança", com 9 minutos e detalhes orquestrados,
beirando ao Rock Progressivo.
Em 1971 Marcos Valle lançou seu
maior clássico. Garra é uma coleção
de canções antológicas, com letras memoráveis
e sonoridade ainda mais sofisticada, com ecos de beatles pós-66
e muita influência de soul music. Entre a barroca faixa de abertura
"Jesus Meu Rei", até última canção,
a porrada black "O Cafona", aparecem pérolas do repertório
de Marcos e Paulo Sergio Valle. É complicado destacar algumas,
mas as as suingadas "Que Bandeira e Paz e Futebol", a homenagem
aos negros de "Black Is Beautiful", a polêmica "26
Anos de Vida Normal" (antes gravada por Erasmo Carlos no seminal
disco Carlos, Erasmo), e a irônica "Garra" merecem
um lugar no topo da música brasileira. Há ainda, seguindo
a linha da MPB marginal, a excepcional "Com Mais de 30", que
afirma uma total descofiança em todo mundo que tem mais de 30
anos, 30 vestidos, 30 ternos, 30 conselhos e depois explica em uma confusão
urbana bastante sugestiva: "faço a vida na fumaça". Marcos Valle radicalizou de vez em Vento
Sul, o disco mais experimental de sua carreira. Sambas psicodélicos
invadiram o repertório, composto em uma aldeia hippie e gravado
com integrantes do grupo O Terço. A temática das letras
passeia por climas bucólicos, com muitas referências ao
ar, à liberdade e à paz. Apesar disso, "Revolução
Orgânica" abre o disco com guitarras pesadas e falando de
morte. Depois é só calmaria. "Vôo Cego"
poderia fazer parte do repertório mais espacial do Grateful Dead,
enquanto "Deixa O Mundo E O Sol Entrar", um folk-rock de primeira,
chega a emocionar.
O disco homônimo de 74 é
o canto dos cisnes da fase 70's de Marcos Valle. Depois do lançamento,
o compositor se mandou para os Estados Unidos e não voltou para
o Brasil até a década de 80. Apesar da despedida, o tom
do disco é alegre, repleto de melodias ensolaradas e reforçado
pelas harmonias vocais arranjadas por Tavito, integrante do lendário
grupo Som Imaginário, que participou ativamente do Clube da Esquina.
Apesar da aparente alegria, as letras logo revertem o panorama, apresentando
personagens fracos como o "Meu Herói", que "já
morreu de medo e é um fracasso", e um alcóolatra
em "Remédio Pro Coração". Outros aparecem
buscando a liberdade como em "No Rumo do Sol" e "Casamentos,
Filhos e Convenções", que aborda um tema extremamente
polêmico para a época: o adultério.
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