MARCOS VALLE
1969-1974: O GAROTÃO DE IPANEMA MUITO ALÉM DA BOSSA NOVA

 

por Leonardo Bomfim


Aproveitando a entrevista com Marcos Valle, apresento aqui a resenha de todos os discos lançados pelo compositor entre 1969 e 74. Uma coleção de clássicos que ainda não recebeu o devido valor, mas que certamente figura no topo da música popular brasileira.

Depois da fase bossa nova dos primeiros discos, os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle (que assinam a autoria de quase todas as canções) começaram a se ligar em novidades vindas de todos os lados. No encarte do disco Viola Enluarada de 1968, eles citam os Beatles, a Tropicália, o sexo, a bomba, os movimentos estudantis entre outras referências. Musicalmente, o disco é o começo da guinada sonora e poética da dupla, que foi consolidada mesmo em Mustang Cor de Sangue ou Corcel Cor de Mel, de 1969.

A partir deste ano, Marcos Valle lançou um clássico atrás do outro, e ainda por cima algumas fantásticas e cultuadas trilhas sonoras, como a do documentário de Emerson Fittipaldi, do seriado infantil Vila Sésamo, além de diversas canções nas novelas da Rede Globo. Por aqui, dei preferência aos discos de carreira do compositor.


Mustang Cor de Sangue ou Corcel Cor de Mel - 1969

É o disco que marcou a mudança definitiva na carreira de Marcos Valle, que deixou de soar brasileiro para soar universal. Há influência de samba, jazz, soul, psicodelia, Beatles, Burt Bacharach e Pilangragem, tudo fermentando um som completamente original. Um texto de Marcos e Paulo Sergio explicava alucinadamente o conceito do disco. Vale a pena reproduzí-lo na íntegra:

"Se o filósofo Diógenes vivesse hoje, procuraria um homem de verdade como os faróis de um Mustang... Muito louco, pois só perdendo o juízo eu acho a cabeça. E veja os Dentes Brancos do Mundo... sorrindo, rindo, marijuanizado. E o mendigo que morreu enforcado no ´hall´ (ou Hal) do elevador seria Cristo? Christo - próton - Deus - Segundo Evangelho de S. Quentin. Das 3 às 6 graxa pelo chão, torre de petróleo, meu pássaro é o avião, a a ve a nave, amando o Tigre da Esso - que Sucesso. Neste mundo anormal alucinógeno para ficar normal. Só perdendo o juízo achamos a cabeça."

A loucura do texto também estava presente em canções como a "pilantra" "Os Dentes Brancos do Mundo", que citava maconha, masturbação e ressaltava a perigosa frase do encarte: "Só perdendo o juízo, eu acho a cabeça"; a soul-psicodélica "Mustang Cor de Sangue" e a lounge "Tigre Esso que Sucesso", que faziam uma crítica bem humorada ao consumismo exagerado; e na inusitada "O Evangelho Segundo San Quentin", que lamentava a morte do redentor enforcado no hall do elevador, traçando um paralelo com o filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick.

Outras canções também se destacavam, como "Samba de Verão 2", de letra bem poética; "Dia de Vitória", sobre a passeata dos cem mil e o tema jazzy "Azimuth".

Em 1969, os Valle já estavam bem à frente da maioria dos artistas do cenário brasileiro.


Marcos Valle - 1970

No disco homônimo de 70, Marcos manteve a sonoridade gostosa do Mustang mas deu um passo à frente em relação à poesia. Os irmãos estavam mais afiados do que nunca. Nota-se logo em "Pigmalião", recheada de tiradas sensacionais como "a verdade pode estar na caspa e não no xampu" ou "é na margem que eu encontro a lucidez", praticamente inaugurando um novo gênero: a MPB marginal.

Boas tiradas também estão "Esperando o Messias", folk-rural com vocais de apoio dos Golden Boys, novamente tratando sobre a temática religiosa, "Quarentão Simpático", sobre um tipo cafajeste mas gente boa e a regravação da debochada "Os Grilos", com um excelente arranjo bossa-fuzz.

O disco também traz três ótimas canções instrumentais, "Ele e Ela", com solfejos simbolizando uma relação sexual (representando bem a capa, que mostra Marcos Valle em um quarto de motel), a arrepiante "Freio Aerodinâmico", perfeita trilha para um pega em alta velocidade e a viajante "Suíte imaginária: Canção - Corrente - Toada - Dança", com 9 minutos e detalhes orquestrados, beirando ao Rock Progressivo.


Garra - 1971

Em 1971 Marcos Valle lançou seu maior clássico. Garra é uma coleção de canções antológicas, com letras memoráveis e sonoridade ainda mais sofisticada, com ecos de beatles pós-66 e muita influência de soul music. Entre a barroca faixa de abertura "Jesus Meu Rei", até última canção, a porrada black "O Cafona", aparecem pérolas do repertório de Marcos e Paulo Sergio Valle. É complicado destacar algumas, mas as as suingadas "Que Bandeira e Paz e Futebol", a homenagem aos negros de "Black Is Beautiful", a polêmica "26 Anos de Vida Normal" (antes gravada por Erasmo Carlos no seminal disco Carlos, Erasmo), e a irônica "Garra" merecem um lugar no topo da música brasileira. Há ainda, seguindo a linha da MPB marginal, a excepcional "Com Mais de 30", que afirma uma total descofiança em todo mundo que tem mais de 30 anos, 30 vestidos, 30 ternos, 30 conselhos e depois explica em uma confusão urbana bastante sugestiva: "faço a vida na fumaça".

Garra é um dos discos de Marcos Valle mais valorizados na Europa, de alta cotação nos sebos londrinos e obra influenciadora de muita gente como Sean Lennon, Stereolab e até os nacionais Los Hermanos. Obra-prima é pouco.


Vento Sul - 1972

Marcos Valle radicalizou de vez em Vento Sul, o disco mais experimental de sua carreira. Sambas psicodélicos invadiram o repertório, composto em uma aldeia hippie e gravado com integrantes do grupo O Terço. A temática das letras passeia por climas bucólicos, com muitas referências ao ar, à liberdade e à paz. Apesar disso, "Revolução Orgânica" abre o disco com guitarras pesadas e falando de morte. Depois é só calmaria. "Vôo Cego" poderia fazer parte do repertório mais espacial do Grateful Dead, enquanto "Deixa O Mundo E O Sol Entrar", um folk-rock de primeira, chega a emocionar.

Ainda há canções mais inusitadas como "Rosto Barbado" e "Vento Sul", dois belos hinos hippies, a assustadora "Democústico" e a mezzo balada, mezzo hard-rock "Mi Hermoza", cantada quase toda em falsete.

Vento Sul é um disco de rompimento com a música brasileira tradicional e assustou muita gente. Tornou-se de cara um clássico esquecido do rock brasileiro.


Previsão do Tempo - 1973

Previsão do Tempo é o disco de Marcos Valle com os timbres mais cool. Na época, ele contou com o grupo Azimuth para gravá-lo e o resultado foi uma quantidade enorme de sintetizadores, e pianos como o Fender Rhodes nos arranjos, mas nada que se sobressaísse às canções. A capa de Previsão do Tempo já adianta o que está por vir: um pesado disco de protesto. Destacam-se canções como o samba debochado "Flamengo Até Morrer", a literalmente doida "Tiu-Ba-La-Quieba" e "Mentira", com seu irresistível groove dançante. No entanto, a canção seminal é a deprimida "Samba Fatal", que traz uma excelente letra mostrando exatamente como era ser um jovem na década de 70, com todas as pressões da esquerda e da direita. "Ele acordou entre o mágico e o místico, o prático e o político, profético e o poetico, tragico e o tétrico/Amanheceu entre estudar e calar, fumar ou lutar,sonhar ou falar/ cantar ou gritar... Ele pensou entre morrer de medo ou salvar o pelo, em guardar segredo ou cortar o cabelo/Ele saiu dizendo adeus, rezando a Deus, pensando nos seus e o fez pelos teus. Heróico ou paranoico, histórico ou histérico, suicidio ou morticidio/ Seu ato de morte foi um fato da vida...". Uma homenagem arrepiante ao poeta Torquato Neto, mas que se encaixava perfeitamente nas cabeças confusas de muitos jovens daquele período turbulento da história do Brasil.


Marcos Valle - 1974

O disco homônimo de 74 é o canto dos cisnes da fase 70's de Marcos Valle. Depois do lançamento, o compositor se mandou para os Estados Unidos e não voltou para o Brasil até a década de 80. Apesar da despedida, o tom do disco é alegre, repleto de melodias ensolaradas e reforçado pelas harmonias vocais arranjadas por Tavito, integrante do lendário grupo Som Imaginário, que participou ativamente do Clube da Esquina. Apesar da aparente alegria, as letras logo revertem o panorama, apresentando personagens fracos como o "Meu Herói", que "já morreu de medo e é um fracasso", e um alcóolatra em "Remédio Pro Coração". Outros aparecem buscando a liberdade como em "No Rumo do Sol" e "Casamentos, Filhos e Convenções", que aborda um tema extremamente polêmico para a época: o adultério.

Um belo disco para fechar com chave de ouro esta etapa da carreira, (que só foi retomada, sem o mesmo brilhantismo, na década de 80) dos irmãos Valle, ainda pouco reconhecida pelo grande público, mas saboreada com prazer pelos aficcionados por música de qualidade.

 

 

 
     

 

 
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