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ENTREVISTA: ZÉ GUILHERME
por Roberto Iwai
Em 1968 Ronnie Von cometia
sua maior ousadia registrando em meio a uma carreira de sucesso, um disco
cuja guinada o fez entrar, décadas depois, para a história.
Um dos mais clássicos álbuns do psicodelismo brasileiro,
envolto em altas experimentações e brutos happenings,
vinha sempre também acompanhado de riffs e passagens de guitarra
fuzz fervorosas. Confira o que o dono do clássico riff de "Silvia: 20 Horas, Domingo" tem a dizer sobre um dos capítulos obscuros da história da música no Brasil, aqui revelado. Entre um bate-papo e reproduções ao vivo fiéis dos riffs e passagens do disco, o guitarrista falou um pouco sobre Ronnie Von, a gravação, os arranjos e outros detalhes.
Fale um pouco sobre sua carreira, como ela começou. Isso é uma herança de família. Meu pai, José Guilherme, era violinista, e aos cinco anos ganhei meu primeiro violão. Com onze anos tinha minha primeira banda profissional, chamada The Rebels [em 1961. Nota: não confundir com o homônimo grupo da Jovem Guarda], que seguia um som mais instrumental... Ventures, Shadows... participamos do programa do Júlio Rosemberg com a música chamada "Wipeout", e aí comecei a minha carreira. Existia um programa na TV Cultura de um excelente apresentador, Ubiratan Gonçalves, e ele tinha uma banda no programa que se chamava Os Fugitivos. Muita gente da Jovem Guarda, Deny e Dino, Sérgio Reis, Bobby di Carlo, passaram pelo programa do Ubiratan. Um dia, com 13 anos, eu estava em casa assistindo o programa na televisão, o solista da banda saiu, e eu falei para o meu irmão me levar lá. Ele disse "pô, você é louco, 13 anos, os caras são todos marmanjos...", e eu enchi o saco dele. Só sei que o dia em que ele me levou para fazer o teste, eu integrei a banda no mesmo dia, com a roupa que eu estava. Como eu era menor, minha mãe vivia indo no Juizado de Menores conseguir o alvará para eu tocar... enfim... Aí com a minha entrada nesse programa da TV Cultura, com Os Fugitivos em 64, fiquei um ano. E a partir daí, como foi sua ligação com o Ronnie Von? Eu tinha um vizinho no meu bairro chamado Eduardo Assad, com quinze anos já era considerado maestro, um virtuoso, muito conhecido, e ele freqüentava a minha casa, a gente se trombava em festas... ele sabia que eu tocava guitarra, e eu sabia que ele tocava piano. Mas ele tocava clássico, e eu já estava na onda de guitarra... e o Eduardo foi para a TV Record, na época daquela história dos Festivais. Ele acabou conhecendo, tendo contato com o Ronnie Von, e aí começa a história. [nota: Eduardo Assad, renomado maestro, produtor, arranjador e compositor, foi grande músico que acompanhou grande parte dos artistas que passavam pela televisão nos anos 60. Foi responsável por grande parte de temas instrumentais e jingles para rádio e televisão nas décadas de 70 e 80, tendo ainda depois enveredado pela carreira de radialista. Gravou poucos discos, tendo em sua discografia arranjos como maestro, registros em CD's de temas instrumentais voltados para o easy listening. Com a formação de Eduardo e Seus Menestréis incluindo Zé Ghilherme, gravou o compacto contendo "Marcha Turca" e "Prova de Fogo". Faleceu em 12 de fevereiro de 1990]
Então o Eduardo, conhecendo você... E aí, o que rolou... o Eduardo começou a acompanhar o Ronnie Von no programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von. Esse programa, a primeira banda que acompanhou o Ronnie foram Os Mutantes. Os Mutantes eram o Serginho [Sérgio Dias] na guitarra, o Arnaldo [Arnaldo Baptista] no baixo, e a Rita Lee cantando com pandeiro... aliás, os Mutantes tinham um vocal muito legal, e cantavam muito The Mamas and The Papas, faziam também muito as músicas vocais dos Beatles. Mas isso não dava uma sustentação para o Ronnie como banda, ele queria fazer Beatles mesmo. Os Mutantes ficaram um período muito curto, e o Eduardo Assad acompanhava o Ronnie só no piano em algums números, Beatles também, mas em uma situação voltada mais para o clássico, mais performático. Mas precisava de barulho mesmo, de banda, de rock'n'roll... aí o Ronnie pediu ao Eduardo arrumar, montar uma banda de alto nível para acompanhá-lo no seu programa. Até a gente montar essa banda, que depois se chama Eduardo e Seus Menestréis, nome também dado pelo Ronnie, por causa de ser o pequeno príncipe, teve antes no programa Os Mutantes, Os Baobás, Os Bruxos, que não levaram nem seis meses. Aí o Eduardo me chamou, foi até em casa, no Belém [bairro da Zona Leste de São Paulo], onde ele também morava, e me convidou para entrar no Eduardo e Seus Menestréis. E eu e o Eduardo fomos atrás dos outros elementos do grupo: Gilberto no baixo, Vilceli na bateria. E a partir daí, a gente começou a acompanhar o Ronnie Von no programa O Pequeno Mundo...
E o que vocês costumavam tocar? A gente fez uma carreira de Beatles com o Ronnie que poucas ficaram sem ser tocadas... em 66, 67, Beatles já começa a evoluir para uma situação de orquestra. A gente tocou com o Ronnie Beatles até o Magical Mystery Tour... fizemos arranjos muito bonitos... tinha coisas que a gente fazia com a banda, e como a gente estava dentro da TV Record e tinha uma estrutura de orquestra, às vezes a gente fez arranjos com orquestras. A gente teve oportunidade de reproduzir Beatles no palco com orquestra. Acontece que a tal banda Eduardo e Seus Menestréis ficou uma banda muito legal, até porque a gente não era somente uma banda de rock, e até pela influência do Eduardo, que era um músico erudito, trabalhava com a orquestra e tal, meio que a gente acabou ficando banda da TV Record... tocava de segunda a segunda. Muitos programas na TV Record, musicais: Astros do Disco, Show do Dia 7, Elizeth [programa de Elizeth Cardoso], O Fino da Bossa...
E como surgiu o B-612? O Eduardo Assad montou essa banda para o Ronnie, mas em determinado momento foi fazer outros trabalhos, que tinha mais interesse profissional para a carreira dele, e restou os quatro elementos: guitarra solo, guitarra base, baixo e bateria. E decidimos permanecer com o Ronnie. Nesse momento o Ronnie deu o nome para a banda de B-612. E aí o trabalho foi se intensificando ainda mais. Nesse momento, pega fogo no Teatro Record da Consolação, pega fogo no Teatro Paramount na Brigadeiro, e aí vamos para a TV Excelsior, e o programa muda de nome, vira Assim Caminha a Juventude. E de onde veio o nome da banda? O nome B-612 se originou do livro O Pequeno Príncipe, era o asteróide onde o Pequeno Príncipe nasceu.
Eram os mesmos músicos do Eduardo e Seus Menestréis: Gilberto Amado Teixeira (Giba) no baixo, Vilceli Marcio de Mattos (Celly) na bateria, Adalberto de Oliveira (Nenê) na guitarra base, e eu na guitarra solo. Agora sobre o famoso disco de 68... A nossa banda era rock'n'roll. Minha formação era, e é Hendrix. Nós fomos tocar com Ronnie, e ele tinha um saldo anterior de repertório, começou com "Meu Bem", grava a marchinha "A Praça", aí vieram outras marchas... a gente encheu o saco de tocar isso pelo Brasil inteiro. O próprio Ronnie cantava, mas não sentia isso. E nos ensaios, nos shows que fazíamos fora da mídia, fora da televisão, fazíamos Beatles pra caramba... claro, abríamos com o "A Praça", "Meu Bem", mas depois era pancadaria... Nesses shows, nesses ensaios, a gente foi criando essa personalidade que deu no disco. E eu muito conectado na voz dele, nas possibilidades vocais dele, no timbre, na extensão vocal. Desenhando os arranjos, achando os tons... tive uma parceria com o Ronnie, entre os arranjos e o vocal. E aí, fomos gravar outro disco, esse disco. Brincando com as músicas.... Isso é importante dizer, porque o clima deste disco foi legal. Sempre no meio de brincadeiras, e no final acabou ficando registrado no próprio disco.
Como foi a escolha do repertório? Nós passávamos os dias na casa do Ronnie Von no Morumbi [bairro nobre de São Paulo], e ele recebia um balde de fitas cassete todos os dias de compositores. Ouvíamos as fitas, e 80% do que chegava, era marchinha. E ele ouvia aquele negócio, e eu lembro da cara dele, não estava mais com saco de gravar aquilo... a primeira música que a gente mudou o jogo, que despertou conceitualmente pra definir o novo disco foi "Silvia: 20 Horas, Domingo". E as outras vieram atrás. E qual foi a importância do papel de Arnaldo Sacomani no disco [Sacomani é responsável por seis das doze composições do disco]? O Sacomani foi visitando o Ronnie nessa fase, trazendo as músicas, e mostrava para a gente no violão... mostrava para a gente como era, o que tinha imaginado, e nós acrescentávamos. E os arranjos? O psicodelismo estava na cabeça do Ronnie. O conceito, a viagem, o Bar Íris, as piadas, as gozações, tudo vinha da cabeça dele. Ele tinha as idéias, e no meio dos ensaios viabilizávamos os arranjos. Ou ele cantava e eu via o que ele queria, o que eu tinha entendido. O Ronnie se apoiava muito no meu acompanhamento, até porque não tocava nenhum instrumento. E eu procurava captar seu gosto musical, para poder estruturar os arranjos de tal forma que ele gostasse e aprovasse. Tudo mesmo em clima de brincadeiras. Uma parte em grupo com muitas idéias de todos, e uma parte era o trabalho da banda de conversar tecnicamente sobre a estrutura dos arranjos e que influencias estaríamos colocando neste arranjos musicais. Muitas vezes após as sessões, eu ficava períodos sozinho estruturando uma guitarra, um arranjo, ou ainda com os elementos do B-612 discutindo os arranjos da banda. Nessa época tinha algumas bandas que a gente gostava de ouvir: Procol Harum, Young Rascals, e tinha umas viradas que eles faziam com baixo e bateria, e a gente usou muito esse fraseado. "Silvia: 20 Horas, Domingo" tem muito disso. Na hora em que a gente colocou essa música de pé, as outras começaram a vir. A gente ouvia muito outras bandas também... Beatles, Hendrix, Classics IV...
E as outras músicas, como se decorreram? Acho legal a gente dar a referência de aonde fomos buscar para criar o arranjo. o arranjo de "Esperança de Cantar", por exemplo, foi inspirada em uma banda que a gente gostava muito de tocar, que se chamava Procol Harum. Se o disco tivesse sido gravado com o Eduardo teria saído muito parecido com o Procol... mas o Damiano tocou piano, e o Procol usa um órgão. Infelizmente a mixagem escondeu o solo, que se alguém for ouvir o Procol Harum, vai ouvir uma puta guitarra, mas aí entrou piano, entrou tudo na frente, a guitarra fica no oitavo plano. Assim como em todas as músicas, a mixagem jogou a guitarra lá para o terceiro plano. Essa foi uma frustração porque os arranjos da banda elétrica, os arranjos de rock estavam prontos e depois o Damiano foi colocando outros instrumentos em cima, e na mixagem, o resultado final não me agradou particularmente. Pra variar temos 50 anos de problemas de mixagem no Brasil. Uma coisa louca é que não existia a bateria eletrônica que temos hoje e os tons da bateria não faziam o eco que fazem hoje por processos eletrônicos. O Procol Harum criou um conceito de quando o baterista batia nos tons, o baixista tocava uma corda do baixo e escorregava o dedo para baixo, ou seja, caindo os tons. Isso dava um efeito de como se o tom tivesse um super eco. Usamos isso na música "Meu Novo Cantar", na introdução. "Tristeza Num Dia Alegre" tem uma influência meio latina, Santana... na época você recebia influência de cítara, de "Taxman" dos Beatles, o solo dessa música tem muito dessa influências... mas basicamente ele é um rock latino. "Chega de tudo" tinha uns negócios de big bands, as metaleiras... "Contudo, Todavia" é um mosaico. Ela foi sendo construída dentro do estúdio mesmo. foi sendo composta dentro do estúdio, sem uma concepção definida do que iria rolar. "Anarquia" tem uma guitarra muito rápida, muito... um estilo meio surf rock. Tem uma banda que se chama The Trashmen, eles tem uma música chamada "King Of The Surf", e essa guitarra foi montada um pouco em cima disso... "Nada de Novo/Lábios Que Beijei" é outra latina. Esse "uhhh!" é o baterista quem dá. Esse grito no começo era uma alusão a bandas de baile, big bands, que ainda tocam agora no Clube Piratininga [conhecido e tradicional clube paulistano, no bairro nobre de Higienópolis]... Românticos de Cuba... então, esse arranjo, teclado, trompete, foi tudo já na tiração de sarro. Tem até uma piada, em relação aos bailes, que até a gente contou na hora, o grito saiu por causa disso, que o bicão que entrava no baile não tinha grana, aí cada um entrava levando um instrumento, e o bicão não tinha nenhum mas queria entrar... chegava na porta e perguntavam "o que você faz?", ele respondia: "não, sou aquele cara que aperta o saco do cara quando ele grita 'uhhh!'"... essa piada surgiu no contexto da gravação, e o grito saiu também. E a idéia de inserir "Lábios Que Beijei" na música? Essa idéia de "Lábios Que Beijei" é idéia do Ronnie, é piração minha e dele. Eu que o acompanho no violão. Pintou de brincadeira, que até eu disse que em casa quando criança rolava muito chorinho, essas coisas, eu comecei, ele encanou e foi junto. E sobre as letras? Vocês foram os primeiros a gravarem o tema anarquia fora da perspectiva que a maioria das pessoas está acostumada a definir. Sobre o contexto político, o contexto de "Anarquia", o do "novo cantar"... qual era o significado para o Ronnie? O Ronnie não era nenhum grande cantor, mas era uma pessoa inteligente. Uma pessoa com grande conhecimento. O "cantar" para ele era uma forma de interpretar e passar para os outros sua maneira ver o mundo, acredito. É uma pessoa de bom gosto musical. Embora sempre achei que faltou direção artística para seu trabalho. O Ronnie abriu um leque muito grande de opções e estilos e acabou meio que confundindo seu público, que acabou se dividindo também em suas diversas fases. Se analisarmos bem, começa com Beatles, depois marchinhas, depois rock psicodélico, depois romântico. Até ai, sem problemas, porque Beatles também fez meio que isso. Mas o maior problema que vejo é que não é a sua historia que é contada, ou seja, as composições não são suas. Isso é o que muda. Daí passa a receber influências de muitos autores e de repente, as musicas não tem link umas com as outras. Acho que o disco de 1968 é o melhor neste sentido porque o Ronnie pelo menos colocou inserções como em "Meu Novo Cantar", que diz muito disso... o texto de introdução é do Ronnie. Eu lembro, foi inserção dele. E participou mais do trabalho colocando sua personalidade. "Canto de Despedida" por exemplo... essa música, cá entre nós, era uma resposrta do Ronnie Von para o saco cheio que ele estava de cantar as marchinhas. No arranjo dessa música inclusive, tem um detalhe de guitarra, que eu peguei um pedaço de papel alumínio e coloquei debaixo das cordas, para simular um banjo. O disco foi um grande barato de se fazer, a gente se divertiu pra caralho... essa coisa de tirar um barato fica implícito nas entrelinhas, esse disco era um instrumento de contestação, para chamar a atenção, para fazer as pessoas prestarem atenção... E o arranjo de "Silvia: 20 Horas, Domingo"? O riff de "Silvia: 20 Horas, Domingo" já é Hendrix... Hendrix na época nem todo mundo tocava, e é um dos arranjos mais significativos até porque é a escola do Hendrix... esse foi um arranjo que eu fiz para mim. Depois de ter tocado tudo, violão, tudo, eu disse "posso me expressar agora?".
E a importância de Damiano Cozzela no disco? Nós trabalhamos alguns meses com o Ronnie para fazer os arranjos todos, para conceituar o negócio todo. Passamos meses trabalhando na casa do Ronnie... e quando fomos para o estúdio, estavam todas as músicas com os arranjos prontos. E gravamos tudo. Aí ele chegou. Colocou metais, colocou teclado, colocou sopros, fez os efeitos dentro do estúdio... o teclado quem tocava era ele. A parte do telefonema de "Anarquia" por exemplo, foi todo gravado em estúdio. A gente gravava a parte rock'n'roll, e o Damiano e o Ronnie faziam esses links... pena que com essas inserções, com a nova mixagem que o Cozzela dava ao disco, a guitarra foi renegada ao terceiro plano. Você vê que o piano toma a frente nas músicas. Mas me perdoe o Damiano, porque na minha opinião como ele não participou da criação dos arranjos primários, muita coisa do que colocou em cima do que estava feito modificou um pouco o rock que queríamos passar. E a mixagem acabou de prejudicar ainda mais e descaracterizar o trabalho. Mas valeu. Foi um avanço em termos de Brasil naquele momento. Houve algum arranjo que Cozzela participou desde o início? "Menina de Tranças" é uma música com arranjo inteiramente de Damiano. Ele chegou no estúdio com a partitura e disse: "Zé, toca isso no violão". Sou eu que toca o violão. Essa música é meio que um tributo, que o Ronnie faz, de não deixar o pessoal da MPB da época, da bossa nova... esse violão é parecido com o violão de Paulinho Nogueira... tem essa coisa de dar uma colher de chá para o pessoal da bossa nova na época. "Mil Novecentos e Além" tem arranjo do Damiano Cozella. Tem umas influências jazzísticas, 6/8... aliás, diga-se de passagem, esse tipo de batida de guitarra era uma batida de música de protesto, na época... tinha um cantora que se chamava De Kalafe [cantora folk que, ao lado da banda A Turma, no qual fazia parte Lanny Gordin, gravou dois raros compactos], que usava isso... aí você vai vendo que elementos foram pegos para formar o disco. O arranjo é todo do Damiano Cozella, a gente gravou, mas orientado pelo Cozella... ele faz uns barulhos com o teclado... E o famoso jingle de "Bar Íris", como surgiu? Você se lembra? Na verdade eu não sei de onde veio o jingle, cara... o Bar Íris existia, mesmo... a idéia da guitarra era de novo a idéia do banjo com o papel alumínio, o começo, o "dois, três..." é o Cozzela... mas cara, eu realmente não lembro quem compôs esse jingle, se o Ronnie encomendou a alguém...
Aonde o disco foi gravado? O disco foi gravado no Estúdio Scatena, na Rua Dona Veridiana, no bairro de Santa Cecília [bairro do centro de São Paulo]. E qual foi o equipamento que usou para gravar o disco? A minha guitarra era uma guitarra Giannini Supersonic. Tinha uma semi-acústica Gianini para fazer as bases, e uma Hofner também para fazer as bases. E meu amplificador era o amplificador True Reverber, da Giannini, valvulado. Eu tive um único pedal, que tem uma história bem interessante... eu comprei o pedal do Luís Roberto Gama e Silva, filho do ex-ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva. O Roberto tocava também, tocava em uma banda do Círculo Militar [bandas que tocavam nos bailes promovidos pelo Círculo Militar de São Paulo, e promoviam entre elas um intercâmbio musical na cidade], e vendeu a meu pai esse pedal. Era um pedal fuzz, um circuito dentro de uma caixinha de madeira!... que foi o pedal que eu gravei "Silvia...". Você se lembra se houve algum empecilho por parte de censura quando o disco teve de passar pela análise de letras? Esse disco teve um boom na mídia de dois, três meses... isso se teve, só. Mas não teve nenhum problema em passar pela censura, pelo que eu me lembre. E até aconteceu o seguinte: o movimento da Jovem Guarda, que foi um movimento da TV Record, quando a TV Record tinha forças para lançar os artistas... quando o canal pega fogo... só com a Paramount em chamas foi meia Record... acaba o movimento. O Ronnie Von vai para a Excelsior, com o Assim Caminha a Juventude, mas aí o movimento como um todo começa a se dissipar. Esta emissora já não tinha a mesma força que tinha a Record. Daí... termina a Jovem Guarda. E o disco, fica meio que sem a força de mídia que havia na TV Record para ser divulgado. Um golpe do destino, porque ficamos sem saber se o público realmente aceitaria o trabalho deste disco ou não. Mas o Brasil também ia devagar no setor cultural no meio da implantação do militarismo. O Roberto Carlos conseguiu se segurar com um bom empresário, acho que Marcos Lázaro. E neste ponto o Ronnie não estava com bons empresários. Sua carreira como cantor começou a declinar. E por parte da gravadora? Eu lembro do seguinte, o Ronnie teve alguns problemas com a carreira de cantor, envolvendo uma série de assuntos, e deve ter tido sim um desgaste com a gravadora...
E os shows? Como aconteciam, qual era a dinâmica do dia-a-dia? Pô, quase dois anos a gente trabalhou... na Consolação, na época do programa O Pequeno Mundo..., a platéia era organizada, essa torcida que ia nos assistir na Consolação... aliás, tem um fato exdrúxulo, curioso... exdruxulamente curioso: as flores que elas jogavam para a gente nos programas de auditório, elas jogavam flores de montão, na Rua da Consolação, vinham do cemitério [risos]. Elas pegavam as flores, tacavam, ou vinham trazer para a gente... [nota: o Teatro da TV Record era muito próximo do Cemitério da Consolação] Bem, viajamos o Brasil inteiro, de A a Z... você vê, nessa época eu estava no ginásio, eu estourava em falta sempre, porque... freqüentava 40% das aulas. Tinha que fazer exame... bom, acho que bombei uns dois anos. Porque a gente viajava direto... Do visual da banda e do Ronnie no palco, eu até me sinto um pouco responsável por isso... eu tinha essa coisa de visual, em 67 subia vestido de noiva, vestido... e o Ronnie estava nessa história de terninhos, de pequeno príncipe... aí a gente ia fazer show e eu subia no palco todo zoado, de chapéu, fazia os caras subirem de bermuda, sem camisa para tocar... ele gostou pra caralho! Era o que ele queria fazer. E com quais artistas o B-612 tocou além do Ronnie? A gente tocou com tanta gente, que é difícil citar todos sem deixar alguns de fora. Inclusive, o Ronnie tinha outro programa na TV Record, e é engraçado que é um programa que muita gente passa batido... chamava Ronnie e Ronaldo. Que era um programa de entrevista. Daí veio a história de cortar o cabelo, onde o Ronaldo, que era o Ronnie, tinha o cabelo curto. E ele separou essas duas personalidades nesse programa. E a gente era a banda... Na verdade ele usava mais a mim para acompanhar os cantores entrevistados, de repente o cara ia dar uma palhinha e cantava uma música. Uma vez ele me meteu em uma fria: o Ronnie Von ia entrevistar o Chico Buarque, e ele tinha acabado de gravar uma música com uma harmonia dificílima, e o Ronnie disse: "pô, o Zezinho te acompanha, o Zezinho sabe tudo!", e pô, eu tinha ouvido a música uma vez. Aí o Chico olhou para mim, deu uma risadinha, e disse, até tentando me proteger: "pô, eu sei que o carinha é bom, mas essa música é chatinha de harmonia". Aí eu comecei a tocar, programa ao vivo, e quebrei a cara... aí o Chico pegou o violão e continuou tocando. Mas então, eu toquei com todos, com o Roberto eu toquei, com a Elis Regina eu toquei, dividi o palco com Os Mutantes, algo de Beatles a gente fez junto com Os Mutantes no Pequeno Mundo de Ronnie Von... a gente não saia do palco o programa inteiro. Inclusive teve uma época de shows... no programa O Pequeno Mundo... teve Teddy Lee, De Kalafe... algumas pessoas que não iam no programa do Roberto Carlos. No Ronnie ia um pessoal acho, mais cabeça... o Beat Boys... e aí se formou uma equipe, um pool de artistas, e a gente fazia muito show com esse pool de artistas pelo Brasil inteiro. Além do disco de 68, o B-612 participou de mais algum registro em disco ao lado do Ronnie Von? Então, a gente participou
também do compacto que tem a música "Spooky",
uma versão dos Young Rascals [nota: o compacto em questão
é Ele Tem Você/O Susto (Spooky), lançado pela
Polydor em 1968]. Depois do disco que participamos, ele chegou a falar sobre os disco seguinte com a gente [nota: o disco A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais, de 1969]. O disco já estava em gestão, mas aí a gente saiu.
E quando o B-612 acabou? A gente fez o disco, trabalhamos um pouco a promoção dele em shows, participamos do programa Assim Caminha a Juventude na TV Excelsior, e nos despedimos do Ronnie na Excelsior mesmo. O programa foi caminhanho, e a medida que ia a gente saiu. Um dos motivos foi a situação financeira mesmo. Mas acabou o Assim Caminha a Juventude, acabou os programas do Ronnie na televisão na época. A banda B-612 até continuou, rolou uns shows depois disso, mas depois acabou. Para finalizar, fale um pouco da sua carreira após o B-612. Nos anos 70 eu ainda estava tocando bastante. Era o auge das bandas de rock. Depois do fim do B-612 eu retornei ao Eduardo e Seus Menestréis, com o Eduardo Assad, e logo depois que eu sai montei uma banda chamada Capop, ao lado do Simba, que depois integrou o Casa das Máquinas. Aí me aposentei um pouco dessa carreira do rock. Mas já tinha tocado com várias pessoas, toquei ainda com o MakoShark, banda do Círculo Militar, ao lado do Watt '69, do Sunday, do Memphis, encontro de bandas boas que tocavam no Círculo Militar. Participei também do projeto do bar Blackmore, um bar muito conhecido de rock em São Paulo, e atualmente estou com uma banda chamada Crazy Joe, ao lado do meu filho Gabriel, tocando clássicos dos anos 70.
* contatos: zeguilherme.banda@terra.com.br
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