THE WHO
SINGS MY GENERATION

40 ANOS DE MY GENERATION!



por Leonardo Bomfim

 

!1965 - Um ano de lançamentos impactantes - 1965!

Rubber Soul (Beatles) - Highway 61 Revisited (Bob Dylan), A Love Supreme (John Coltrane), Mr. Tambourine Man (Byrds), Out of Our Heads (Rolling Stones) e dezenas de outros clássicos viram a luz do sol neste ano. Na cinzenta Londres, um furioso quarteto deu as caras com um dos discos de estréia mais explosivos da música pop. Era o The Who, com a bolacha Sings My Generation.

A começar pela capa, com a foto de quatro jovens feios mas bem vestidos, encarando a quem arriscasse um olhar. Poderia ser uma turma mod, mas era uma banda. Era a banda que fazia o melhor show da época, a julgar pelos registros de áudio e vídeo no lendário Marquee e no Richmond Jazz Festival. Keith Moon surrava a bateria, Daltrey imitava os negões do r´n´b e Entwistle "só" tocava, enquanto Townshend fazia de seus riffs um passo além do manifesto juvenil de sua poesia. Já a capa da versão americana (lançada apenas em 1966), mostrava os quatro, ainda feiosos, posando à frente do Big Ben, o maior símbolo londrino. Fracasso lógico nas terras norte-americanas.


A capa da versão americana

Sings My Generation virou ícone do movimento mod, adiantou em quase uma década o nascimento do punk, e completou 40 anos em dezembro de 2005 com um frescor incrível. Basta colocar o vinil na vitrola que a festa está garantida. Segue abaixo o disco inteiro comentado: música a música, riff a riff, pedrada a pedrada.

Out In The Sreet (Pete Townshend)
Após intodução nervosa de guitarra, Roger Daltrey rasga arrogância direcionada a alguma mulher. Seria um r´n´b clássico se Keith Moon não atropelasse tudo empurrando a banda para frente. Um início fonográfico com a cara do Who: sujo, agressivo, arrogante e pesado.

I Don´t Mind (James Brown)
Se Daltrey pudesse escolher ser outra pessoa, seria James Brown. O Who aqui paga tributo ao negão com uma versão fiel, só que muito mais pesada, de uma das grandes baladas soul dos anos 60. A letra mantém a trilha arrogante de "Out In The Sreet".

The Good´s Gone (Pete Townshend)
Um belo dedilhado de Pete que, em alguma Fender Telecaster sobrevivente, introduz esta bela canção, de melodia repetitiva e vocais bastante graves. A letra, desta vez, mostra um cara meio ressentido, depois de sacar que o amor pela sua garota não é mais o mesmo. Townshend sabia como ninguém passar para o papel as bobagens juvenis de sua geração.

La-La-La Lies (Pete Townshend)
Agora surge um belo casal apaixonado, que não está nem aí para as mentiras que aparecem, de todos os lados, para tumultuar a relação. A canção, com uma das pegadas mais pop do disco, tem um pé no beat, apesar da bateria trepidante de Keith Moon.

Much Too Much (Pete Townshend)
O Who foi uma banda que, apesar de se destacar com o instrumental, sempre tomou bastante cuidado com os arranjos vocais. Em "Much Too Much" isso fica bem claro, embelezando ainda mais esta simples pop-song de Pete. Desta vez, o narrador não aguenta mais sua garota e inventa algumas desculpas esfarrapadas para dispensá-la.

My Generation (Pete Townshend)
O que falar de um dos maiores hinos da história da música pop? Em "My Generation" Pete Townshend inventou o punk, Moon atropelou todo mundo, Entwistle fez seu baixo cantar alto, e Roger gaguejou a clássica frase, "Espero morrer antes de envelhecer", para alegria dos mods anfetaminados.

The Kids Are Alright (Pete Townshend)
Nesta canção o Who brinca de Beatles e se sai muito bem, com a ajuda do maravilhoso timbre Rickenbacker de Townshend. Definitivamente a canção mais pop da banda, narrando a história de um corno manso que deixa sua garota dançar com os outros caras. Jóia rara!

Please, Please, Please (James Brown)
Outra de James Brown. É curioso ouvir o britânico Roger Daltrey fazendo uma magistral interpretação "made in USA". Toda banda inglesa tinha seu negão favorito, e o Who não escondia a admiração por Brown.

It´s Not True (Pete Towshend)
Cômica letra de Pete, mais uma vez abordando o tema "mentira". O cara deveria ser só um pouquinho traumatizado com isso. "It´s Not True" foge do r´n´b cru mais presente no disco, e também vai além do beat inglês, com inclinações melódicas a lá Dylan e belos arranjos vocais. Keith Moon mais uma vez faz o que bem entende na bateria.

I´m A Man (Elias McDaniel)
Clássica canção, imortalizada por Bo Didley, e versionada por todo mundo que era cool na ilha da Rainha (Spencer Davis Group, Creation, Yardbirds e Jeff Beck também gravaram o lento blues). A versão do Who apresenta um pouco do caos sonoro que fazia parte de suas apresentações, com direito a microfonias de guitarra, baixo solando e bateria demolindo tudo. O session man Nicky Hopkins também dá um show em seu piano.

A Legal Matter (Pete Townshend)
Com riff de guitarra muito semelhante a "Last Time" dos Stones, "A Legal Matter" mostra Pete nos vocais, com muita influência de Bob Dylan, inclusive com algumas partes faladas, em que narra com uma excelente letra, a história de um típico malandro, tão sincero, quanto grosseiro com sua garota.

The Ox (Townshend, Moon, Entwistle, Hopkins)
O clássico Sings My Generation termina com uma jam pra lá de bizarra, introduzida pela bateria alucinada de Moon e, novamente, o piano de Hopkins. "The Ox" soa como uma surf music doente mental, com guitarra afinada em ré, microfonias e viagens sonoras. Em 65 o Who já fazia a psicodelia do seu jeito. Punk é pouco!


The Who Sings My Generation foi relançado em 2002, repleto de canções bônus e trazendo um maravilhoso encarte com declarações do produtor Shel Talmy. Entre os destaques, está o hit single "I Can´t Explain", os hinos mod "Circles" e "Anyhow, Anyway, Anywhere", além de versões para "Heat Wave", "Shout & Shimmy", "Motoring" e "Leaving Here", pérolas da música soul americana.

Passados 40 anos do lançamento original, a estréia do The Who continua fulminante, mostrando a banda no auge da sua insanidade juvenil, que acabaria logo com os maduros (e não menos geniais) A Quick One e Sell Out, os dois discos posteriores, banhados em pop art e com acabamento mais refinado. Se você quer o Who selvagem e inconsequente, procure o Sings My Generation, com certeza não se arrependerá!


 
     

 

 
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