TOP 10
PRESENTINHOS DE ROBERTO & ERASMO

Por Leonardo Bomfim


O final da década de 60 foi o momento de afirmação para Roberto & Erasmo. Anteriormente, os dois gozavam de grande sucesso popular, mas foi só em 1968, quando a Tropicália surgiu e assumiu publicamente toda a sua simpatia pela Jovem Guarda, que os Carlos passaram a ser reconhecidos como grandes autores, e não apenas como ídolos teen.
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É fato, diversas canções gravadas pelos Carlos entre 1968 e 75 ultrapassaram os limites da genialidade. Naqueles anos, Roberto & Erasmo eram os compositores mais "quentes" do Brasil, tendo músicas requisitadas por Tropicalistas, MPBistas, negões, branquelas e até pela Rede Globo, que chegou a lançar a novela O Bofe (1972), com a trilha inteira composta pela dupla.

O Top 10 do mês apresenta os melhores presentinhos dos Carlos para outros artistas. Aparecem aqui canções que marcaram época, outras que foram esquecidas e até momentos bastante inusitados da parceria mais prolífica da música brasileira.

Salve Roberto & Erasmo!

 

10 - Wanderléa - Canção De Enganar o Coração
(Para Ganhar Meu Coração/1968)

"Canção De Enganar o Coração", com interpretação muito suave da Ternurinha, é uma das melhores da safra barroca dos Carlos. Após alguns discos mais ingênuos, Wanderléa acertou o ponto no final dos 60´s e teve grandes lançamentos, com direito a versão para os garageiros do The Seeds e alguns souls da Motown. "Canção De Enganar o Coração", apoiada pelo divino arranjo com flautas, cravo e até cordas, é um dos momentos mais bonitos desse período, mas certamente tornaria-se um clássico eterno interpretada na voz do Rei Roberto.


09 - Edy Star - Claustrofobia
(...Sweet Edy.../1974)

Uma das canções mais inusitadas dos Carlos. Lançado por Raul Seixas no disco Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, o cantor andrógino Edy Star iniciou a onda glam no Brasil. "Claustrofobia" é um pedido de liberdade cantado por uma bicha completamente histérica. É no mínimo engraçado imaginar Roberto Carlos cantando trechos como "Eu dou vexame/Porque preciso de espaço/Quero respirar/Senão acabo no bagaço.../ " ou ainda "Pare de me sufocar/Eu quero tocar bonito/Porque senão eu grito/E dou vexame". Apesar do rumo diferente da carreira dos dois nos 70´s, o Rei não escondia a simpatia pelo figuraça, afirmando no encarte de ...Sweet Edy...: "bicho, eu parei na de Edy Star".

08 - Elis Regina - Mundo Deserto
(Ela/1970)

Durante a década de 60, a pimentinha abominava qualquer coisa vinda do pessoal da Jovem Guarda. A própria, com a ajuda de Geraldo Vandré e outros malas, chegou a organizar em 1968 uma ridícula passeata contra a guitarra elétrica. Percebendo a derrota, Elis rendeu-se aos encantos da Tropicália e também às canções dos Carlos. Mostrando não guardar rancor no coração, a dupla presenteou à cantora com a excepcional "Mundo Deserto", que tem uma das letras mais marcantes de todos os tempos. Versos como "No mundo deserto de almas negras/Eu me visto de branco" são para poucos. A versão de Elis, com guitarrinhas até abusadas, tem seu valor mas não é nada comparada com a gravação posterior de Erasmo Carlos no seminal Carlos, Erasmo (1971).

07 - The Youngsters - Tema de Kiko
(Pigmalião 70 - Trilha Sonora/1970)

Roberto & Erasmo se especializaram em gravar músicas para novelas da Rede Globo durante os anos 70. Na trilha de Pigmalião 70, a dupla deu o toque soul, com o groove "Tema de Kiko", gravado pelo grupo The Youngsters, uma das primeiras encarnações do fantástico Azimuth. A canção, com guitarra fuzz e orgão bem sacados, além de metais envenenados, parece ser da mesma safra de "A Bronca da Galinha (Porque Viu o Galo com Outra)", do disco Erasmo & Os Tremendões (1970). Os Carlos queriam colocar todo mundo para dançar, e conseguiram!

06 -Trio Mocotó - O Sorriso de Narinha
(Muita Zorra/1971)

No início da década de 70, Erasmo Carlos flertou bastante com o Samba-Rock. A canção "Coqueiro Verde" tornou-se, instantaneamente, o hino do novo ritmo. O Trio Mocotó, um dos grandes expoentes do gênero, lançou em seu primeiro disco uma versão para este hit dos Carlos. Além da bombástica regravação, o disco Muita Zorra também trazia a menos badalada "O Sorriso de Narinha", composição inédita da dupla, que anunciava com sua pungente letra: "quero voltar, moço quero voltar.../ e se der algum problema, Narinha vai me esperar.../ mas nem que me apontem um fuzil, nunca mais eu deixo meu Brasil". Por trás de um simpático samba-rock existia uma alfinetada certeira na ditadura militar.

05 - Silvinha - Você Já Morreu e Se Esqueceu de Deitar
(Silvinha/1971)

Um recado curto e grosso para os sobreviventes da turma "bregalhona" da Jovem Guarda. Paulo Sérgio ou Wanderley Cardoso certamente foram um dos musos inspiradores da furiosa canção "Você Já Morreu e Se Esqueceu de Deitar", gravada por Silvinha em seu disco lisérgico de 1971. Com influências de soul, psicodelia, além da presença de muita guitarra fuzz, a música apresenta a lindona Silvinha berrando com a firmeza necessária versos como: "As coisas mudaram bastante/Ninguém mais esconde a verdade..."/ ou "Tire o paletó de lamê e a calça santropez/.../Abandone a carruagem, tire a maquiagem/Ponha o carro na pista/.../Não seja tão convencional.../A sua tradição é de rocha". Antológico é pouco!

04 - Gal Costa - Vou Recomeçar
(Gal Costa/1968)

De todos os Tropicalistas, Gal Costa foi quem mais escancarou a paixão por Roberto & Erasmo. A dupla não fez por menos e compôs o soul maravilhoso "Vou Recomeçar" especialmente para a cantora, que o gravou em seu disco de estréia. O guitarrista Lanny Gordin dá o seu show particular com solos curtos entres os marcantes versos: "Não vou ser mais triste, vou mudar daqui pra frente/E a minha escrita será muito diferente, a filosofia vou mudar em minha mente/ Pois agora eu vou recomeçar."

03 - Mutantes - Preciso Urgentemente Encontrar Um Amigo
(A Divina Comédia... 1970)

A canção "Preciso Urgentemente Encontrar Um Amigo" marca o encontro dos dois grandes ícones do rock nacional: os Mutantes e Roberto & Erasmo. A versão dos paulistanos disfarça a melodia iê-iê-iê com um super arranjo hard-psych, com destaque para Arnaldo Baptista e seu órgão desenfreado. A interpretação debochada de Rita Lee também merece aplausos. Em 1972, Erasmo colocou a canção em seu excepcional disco Sonhos & Memórias, com um clima mais psicodélico "viajandão", porém não superou a gravação original e definitiva dos Mutantes.

02 - Toni Tornado - Papai, Não Foi Esse o Mundo Que Você Me Falou
(BR3 - 1970)

A fase soul de Roberto Carlos, marcada por lançamentos do nível de O Inimitável (1968) e o famoso "disco da praia" (1969), foi certamente o melhor momento de sua carreira. A aproximação total ao gênero deu-se através da amizade com o cantor black power Toni Tornado, que em seu disco de estréia gravou dois presentinhos dos Carlos. Além da balada a lá Tim Maia "Não Lhe Quero Mais", Toni soltou sua voz no petardo funk Papai, "Não Foi Esse O Mundo Que Você Me Falou", uma das canções mais ressentidas dos Carlos. A letra funciona perfeitamente como uma primeira versão, muito mais agressiva, para a clássica Traumas, gravada por Roberto em 1971. "Papai, Não Foi..." é uma das maiores pérolas da soul music tupiniquim.

01 - Gal Costa - Meu Nome É Gal
(Gal/1969)


"Meu nome é Gal/E desejo me corresponder
Com um rapaz que seja o tal/Meu nome é Gal
E não faz mal/Que ele não seja branco, não tenha cultura
De qualquer altura/Eu amo igual/Meu nome é Gal
E tanto faz que ele tenha defeito/Ou traga no peito
Crença ou tradição/Meu nome é Gal/Eu amo igual
'Meu nome é Gal, tenho 24 anos
Nasci na Barra Avenida, Bahia
Todo dia eu sonho alguém pra mim
Acredito em Deus, gosto de baile, cinema
Admiro Caetano, Gil, Roberto, Erasmo,
Macalé, Paulinho da Viola, Lanny,
Rogério Sganzerla, Jorge Ben, Rogério Duprat,
Waly, Dircinho, Nando, E o pessoal da pesada
E se um dia eu tiver alguém com bastante amor pra me dar
Não precisa sobrenome, pois é o amor que faz o homem.'"

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