RONNIE VON
VANGUARDA & JOVEM GUARDA




por Marcelo Birck

E a Jovem Guarda, quem diria, também teve o seu disco conceitual e engajado. Me refiro ao quarto LP de Ronnie Von. Tema recorrente: a hesitação e os temores da passagem definitiva para o mundo adulto, costurado por flashes da vida urbana, letras que poderiam muito bem ser interpretadas como referências à situação política do país (entre outros temas polêmicos), utilização de recursos característicos das vanguardas musicais do Século XX, faixas que se interpenetram tanto temática quanto musicalmente, paródias à gêneros musicais do passado, e uma constante ironia, compondo um mosaico surpreendente se considerarmos a coisa toda no seu devido contexto (e mesmo fora dele).

Com produção e arranjos primorosos de Damiano Cozzella (parceiro de Rogério Duprat, colaborador do movimento de poesia concreta e do grupo tropicalista e integrante de um dos mais importantes e influentes grupo de compositores de vanguarda no Brasil, o "Música Nova", mas cujo nome inexplicavelmente não é citado na famosa Enciclopédia da Música Brasileira), e lançado provavelmente em 1968 (há discordância entre as datas da contra-capa e do rótulo do LP, o disco funciona como um veículo de idéias que operam a nível de recontextualização, tanto dos procedimentos de vanguarda (pela sua inserção nos veículos de mídia) quanto da imagem de Ronnie e da própria Jovem Guarda.

Lado A

Meu Novo Cantar - começa com uma declamação que vai assumindo um caráter ritualístico, do qual o intérprete extrai a convicção para o LP que se inicia. Versando sobre temas como crise de identidade e a busca desta em imagens simbólicas, constatação que os parâmetros de outras épocas se tornaram ineficientes, consciência da necessidade de auto conhecimento, e a decisão de agir (cantar), aos poucos vão sendo introduzidos improvisos de guitarra distorcida e sons esparsos na bateria, antecipando a entrada do instrumental restante. Destaque para o teclado, que lá pelas tantas executa agregados aleatórios de notas (clusters). Versos como "doa a quem doer/ então eu vou cantar/meu canto é pra valer/meu canto é pra mudar". Apesar do declarado ímpeto de transformação, a letra escorrega em algumas pieguices, mas que não chegam a comprometer.

Chega de Tudo - introdução com um pandeiro que remete à música indigena (o que voltará a ocorrer na penúltima faixa), também passível de ser interpretada como elemento ritual. Novamente o ímpeto de mudança ("chega de tudo, eu não quero saber/me dê a sua mão/e abra o portão/vamos sair"). Constatação da dinâmica do presente, ode ao vigor e iniciativas da juventude, mas ainda existe uma sugestão de adiamento de responsabilidade ("o ontem não existe/no amanhã depois eu penso/hoje é tudo enfim/pra você e pra mim/vamos sorrir").

Espelhos Quebrados - mais uma introdução, que a esta altura assumem definitivamente o caráter ritualístico: vidros quebrando seguidos de uma orquestra de câmara num arranjo neo-clássico. Letra com sintaxe correta e semântica absurda. Simultaneidade de imagens sem nenhuma relação aparente. Segue um jingle - paródia de um bar imaginário, cujo primariedade musical contrasta de maneira brilhante com a orquestra de câmara. Pela proximidade com ambas, funciona tanto como encerramento da faixa anterior quanto abertura da seguinte.

Sílvia: 20 Horas, Domingo - palavras de um mesmo verso atipicamente espaçadas, e com as repetições das frases musicais em números ímpares. Descreve um encontro amoroso no ambiente urbano. Na última aparição do refrão, um coro se encarrega deste e Ronnie canta aleatoriamente refrões de seus hits anteriores, mesmo que não tenham nada a ver com a base.

Menina de Tranças - a mais tropicalista das faixas do disco. Mistura de situações e termos folclóricos e urbanos. Pela destacada presença de uma flauta doce, remete ao arranjo que Cozzella fez para "Clara", de Caetano Veloso (de quem Ronnie havia gravado a canção "Pra Chatear").

Nada de Novo/Lábios Que Beijei - descrição do dia a dia de um adolescente de cidade grande, em meio ao caos de informação de um ambiente repleto de tecnologia. Temas atípicos para um cantor de Jovem Guarda (sexo, bebidas, terrorismo, barulho de trânsito, e a busca de entretenimento como fuga para a indecisão sobre como agir). Poucas repetições, com a idéia inicial durando em torno de um minuto e meio, e por sua vez finalizando colada aleatoriamente a uma seresta (prática mais relacionada ao ambiente herdado da tradição rural), contrastando com os flashes urbanos da primeira parte. Tal recurso faz com que a faixa soe como mero pretexto para este contraste. Na parte final, só voz e acompanhamento de guitarra, com som de gramofone, o que acaba ressaltando a tecnologia (tecnologia comentando a si mesma pela intencional falha na qualidade de som).

Lado B

Esperança de Cantar - repetições em períodos ímpares (três compassos de bateria solo e cinco de uma inspirada frase no piano, que será recorrente na faixa). Exceto a melodia inicial, o piano parece improvisar do início ao fim, assim como uma guitarra fuzz, cujas intervenções soam como se editadas durante a mixagem. Descreve um momento de grande desorientação e desesperança. Pela primeira vez no disco os conflitos do amadurecimento são encarados de frente (não por acaso, primeira faixa do lado B). Segue-se em frente em busca de perspectiva, mas com grande tristeza pela perda dos parâmetros anteriores. Além de um certo arrependimento pela decisão de cantar (decisão apresentada no início do LP), existe também a esperança de superação ("eu sigo e canto a me perder no meu caminho/eu sigo e canto até poder encontrar/o meu caminho onde a chegança é festa/e onde resta uma esperança pra cantar/e alguém que canta por saber chorar", em contraste com o verso inicial, "...mas eu não choro/ pois o sol secou meu pranto/e o encanto que eu tinha/já não tenho pra cantar").

Anarquia - abre com um telefonema de Cozzella para o estúdio, aonde todas as etapas envolvidas estão registradas (tirar o fone do gancho, discagem, sinais, secretária atende, até chegar em Ronnie e arrematar com a piada final: Cozzella - "o que você acha da moda?" ... Ronnie - "a moda já tá fora de moda, né?", ou seja, usar o conceito para negá - lo). Isto dura um quarto da faixa inteira. Uma absurda apresentação por extenso de um evento aparentemente banal, em um contexto que se caracteriza pela concisão e comunição direta. Logo em seguida, Ronnie entra cantando como se fosse um pano rápido: "prepare tudo que é seu/veja se nada você esqueceu/pois amanhã vamos pra rua fazer/fazer uma tremenda anarquia". Um reverber incomumente longo na voz, que salta aos ouvidos principalmente nas pausas, e dá a impressão de que Ronnie canta num megafone, o que é reforçado pelo verso "pois as ordens vem de um alto falante que só nós/não conseguimos escutar". Somados a frases como "e não ligamos pra quem vai nem quem vem/atrapalhar/a quem nos queira atrapalhar", o que existe aqui é a sugestão de que conflitos podem ser aproveitados criativamente.

Mil Novecentos e Além - introdução com ruídos produzidos pelo teclado, que aliás não faz outra coisa que não seja ruído durante toda a faixa. A letra descreve uma experiência psicodélica, e a mixagem da voz se sobrepondo aos instrumentos, numa base consideravelmente barulhenta, cria dois planos distintos que ilustram o estado psicológico sugerido pela letra.

Tristeza num Dia Alegre - os clusters do teclado do final da faixa anterior grudam na faixa seguinte (mistura de sons acústicos e eletrônicos, sem tonalidade ou pulsos definidos, em uma prática mais comum à música erudita, mas que perderia boa parte da sua eficácia se colocada em seu contexto óbvio). A ligação com uma guitarra fuzz é feita por alguém de carregado sotaque paulista dizendo "Varte, traz as porpeta". Considerações sobre a morte em meio a um dia luminoso e a constatação dos sofrimentos da existência e a necessidade do amor irrestrito ("enquanto o sol brilha pra mim há sombra além"). Desejo de transformação da realidade para que se possa desfrutar da existência em sua plenitude.

Contudo, Todavia - crimes, destroços de avião, comércio internacional, pedintes de esmola. Seções completamente distintas umas das outras. Forma assimétrica: seções A, B (que tem todas as características de um refrão, exceto pelo fato de que não é repetido), C (muda para um ritmo de valsa com acompanhamento de um violino ironicamente melancólico), D (aonde a voz canta sobre uma base apenas de percussão combinada a cantos de pássaros, remetendo pela segunda vez no disco à música indígena), e volta para a seção C, com outra letra. No final a base é misturada aleatoriamente a uma gravação de marcha militar, o que poderia ser interpretado como referência/afronta ao regime. Também digno de nota é o contraste que se estabelece entre as sociedades não - letrada (pela percussão indígena e canto de pássaros na seção D) e a letrada (Marshall McLuhan: "O órgão dominante de orientação social e sensorial nas sociedades anteriores ao alfabeto era o ouvido" ... "A história ocidental foi modelada durante cerca de três mil anos pela introdução do alfabeto fonético, um meio que depende somente dos olhos para levar à compreensão" ... "A pena de ganso ... trouxe estradas, exércitos e a burocracia". John Cage: "Sintaxe, segundo Norman O. Brown, é a estrututra do exército. Quanto mais nos separamos dela, desmilitarizamos a linguagem").

Canto de Despedida - mistura de fox-trot com banda de coreto de cidade do interior. O intérprete canta que vai sair para a vida, e apesar da alegria da composição, há um inequívoco tom melancólico, nostálgico, pelo abandono de lembranças e afetos, e pela consciência de que tudo que ele até então conhece em breve se tornará passado. Esta última faixa pode ser considerada como o começo de uma saga, e fazendo uma retroação, é possível entender as faixas anteriores como a trajetória de um personagem, que acaba por se envolver com guerrilhas e morre na penúltima faixa ("hoje ele vai morrer longe dos braços de quem lhe quiser", em contraste com esta última composição do disco, aonde ele está cercado de amigos e parentes, dos quais está se despedindo).

Várias idéias se interrelacionam neste LP. A principal é a hesitação em abandonar o paraíso da infância e seguir em frente com a mesma motivação e sem fugir dos conflitos, nem transferir suas responsabilidades a outrem (os pais ou qualquer projeção destes). Ou seja, a traumática passagem para a vida adulta. Tema da maior relevância, neste momento em que a década de 60 se transforma definitivamente em História. Versos como "via que as flores já não tinham cores/só o vermelho restava", "pois amanhã vamos pra rua fazer/fazer uma tremenda anarquia", "quem manda hoje somo nós mais ninguém" , "doa a quem doer/então eu vou cantar/meu canto é pra valer/meu canto é pra mudar", poderiam muito bem ser interpretadas como provocação ao regime militar.

Assuntos polêmicos como terrorismo, morte, etc ... e a utilização dos recursos das vanguardas musicais do Século XX (que ainda hoje causam estranhamento a ouvintes desavidos) tornam este disco no mínimo atípico no panorama musical brasileiro, ainda mais se levarmos em consideração que seu intérprete é um representante da "alienada" Jovem Guarda, e que em sua trajetória posterior não fez nada nem parecido. A sua audição desperta inúmeras dúvidas. Ao mesmo tempo que uma aparente ingenuidade de Ronnie confere um interesse extra, não se pode ignorar a época em que este disco foi lançado (com AI-5 e tudo). Talvez tanto intérprete quanto produtor tivessem a intuição de que a imagem de Ronnie o protegeria de qualquer perseguição (na época, ele era o "Pequeno Príncipe", livro que por sinal é objeto de análise realizada pela célebre discípula de Jung, Marie Louise von Franz, justamente sobre o conceito do Puer Aeternus).

Por tudo isto, das inúmeras questões que poderiam ser levantadas, uma delas certamente diz respeito aos porquês deste disco ficar esquecido por tanto tempo.



* matéria originalmente publicada em www.senhorf.com.br

 

 
     

 

 
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