CINEMA FANTÁSTICO
INVADE PORTO ALEGRE


 

por Leonardo Bomfim


Durante o mês de outubro, o centro de Porto Alegre foi invadido por fantasmas, zumbis, bruxas, vampiras gostosonas e muito, mas muito sangue. Tudo culpa da 1a edição do Festival de Cinema Fantástico da cidade, que apresentou grandes clássicos, obras cultuadas, novidades do gênero, e ainda algumas sessões comentadas.

O evento, produzido pelo Clube de Cinema de Porto Alegre, apresentou 26 filmes, exibidos na Casa de Cultura Mário Quintana e na sala P.F. Gastal. Segundo Davi de Oliveira, um dos programadores do festival, a idéia surgiu quando se a observou a falta de espaço para filmes voltados ao cinema fantástico, tendo como referência os festivais Fantasia, no Canadá, e o Fantasporto, em Portugal. "São festivais que estimulam a produção contínua de filmes dos gêneros", afirmou. Valorizando a produção nacional, foram apresentados diversos curtas do gênero, como o hilário Crônicas de um Zumbi Adolescente (2003) de André ZP.

Fantásticos ao pé da letra, dois dos filmes exibidos resumiram a idéia principal do Festival: Santa Sangre (1989), do cultuado diretor chileno Alejandro Jodorowsky, que apresenta aberrações circenses, cenas surreais de deficientes mentais cheirando cocaína, fanatismo religioso e toda a relação estranha do protagonista com sua mãe, temas recorrentes em quase todos os seus filmes; e Suspiria (1977), do clássico Dario Argento, que narra a história de uma falsa academia de danças governada por velhas bruxas. O grande toque fantástico do filme é a forma sonhadora de como as cores são apresentadas, capazes de saltarem aos olhos do espectador à frente mesmo do próprio enredo. Um filme de beleza singular.

Além de Suspiria, outras pérolas do horror italiano foram apresentadas, entre elas o sanguinário The Beyond (1981), de Lucio Fulci e o artístico La Casa Dalle Finestre Che Ridono (1976), de Pupi Avati, que comprovaram uma característica marcante dos filmes locais: final feliz realmente não é coisa de italiano! Partindo para o oriente, a fantasia japonesa também teve seu espaço, destacando The Legend of Zu (1973), de Tsui Hark. Sintetizando o evento, David de Oliveira afirma que a excelente seleção dos filmes, somada à grande aceitação do público foram os pontos positivos da primeira edição.


O público, que prestigiou calorosamente as sessões do festival, deliciou-se com a exibição de Vampyros Lesbos (1973), de Jesus Franco, que esbanja lindas cenas de lesbianismo vampirístico, além da fantástica e cultuada trilha sonora (composta pela dupla Manfred Hübler e Sigi Schwab), que ajuda a dramatizar algumas seqüências para lá de psicodélicas. Outro ponto alto do filme é a beldade Soledad Miranda, que fez subir o sangue de todos os presentes na sala de cinema. Já a anti-musa do festival foi Catherine Deneuve, que desfilou toda a sua amargura em Repulsa ao Sexo (1966), primeiro filme do diretor Roman Polanski fora da Polônia. A atriz francesa interpreta uma jovem manicure frígida e completamente neurótica, que acaba assassinando dois homens por culpa de seus fantasmas sexuais. O toque de mestre de Polanski é a atmosfera pesada e escura do apartamento da jovem e os enormes momentos de silêncio, criando um ambiente perturbador.


Outras estrelas estiveram presentes nos filmes do festival. O magnífico Vincent Price estrelando A Casa dos Maus Espíritos (1959), de Willian Castle, um dos pontos altos do evento. Como o maior ator do gênero, Price bem que merecia um festival só para ele, com clássicos do nível de O Abominável Dr. Phibes (1971) e As Sete Máscaras da Morte (1973), indispensáveis para quem gosta filmes de terror com uma boa história por trás. O famoso diretor Peter Jackson, mais conhecido pela trilogia Senhor dos Anéis, também cometeu no início da carreira alguns deliciosos trash movies. Almas Gêmeas (1994), exibido no festival, marca o começo de sua ascensão profissional e já não apresenta mais nada de trash. O filme, pelo contrário, aborda uma fantasiosa história baseada em fatos reais, misturando inocência e delírios de duas adolescentes apaixonadas, destacando Kate Winslet em um dos seus primeiros trabalhos. No entanto, foi sentida a ausência de seu melhor filme Fome Animal (1992), um dos maiores banhos de sangue da história do cinema, repleto de cenas bizarras, envolvendo até sexo entre zumbis. Um clássico eterno do cinema b. .

Davi de Oliveira entende que a grande graça do cinema fantástico é exatamente o rompimento com as regras do cinema convencional. "Por ser, em sua maioria, filmes b, o cinema fantástico possui maior liberdade para articulação de formas criativas, menos convencionais, além da fotografia, o som e a montagem, afastando-se do cinema como irmão da literatura", explica. O programador ainda finalizou: "são esses filmes que abrem as portas para as novidades".

O 1o Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre fez a sua parte e abriu as portas para os fãs do gênero e curiosos de plantão. É difícil presenciar nos dias de hoje um evento de cinema que apresente tanta gente espetacular como Mario Bava, George A Romero, Klaus Kinski, Werner Herzog, David Cronemberg, Christopher Lee, além dos já comentados. Agora é só aguardar outubro de 2006, período previsto para a segunda invasão do Cinema Fantástico pelo centro da cidade. Os zumbis de Porto Alegre agradecem.


 
     

 

 
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