THE BYRDS
FIFTH DIMENSION

O VÔO MAIS ALTO DOS BYRDS



por Leonardo Bomfim

If your time to you is worth savin'
Then you better start swimmin'
Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'

Bob Dylan


Os tempos realmente estavam mudando durante a década de 60, e tudo com uma rapidez impressionante. Havia várias revoluções por minuto, no cinema, artes plásticas, música, no comportamento, no sexo, nas mulheres... O poeta Dylan ainda sentenciou: "quem não começar a nadar, afundará feito uma pedra".

Considerando apenas a música, cinco franjas americanas não se cansaram de nadar, mantendo-se assim no topo das revoluções sixties (atrás apenas das quatro franjas de liverpool). Eram os Byrds, grupo que em menos de meia década conseguiu criar três sonoridades que viraram o mundo de cabeça pra baixo e até hoje influenciam muita gente.

A primeira revolução dos Byrds foi a criação do Folk-Rock, colocando lado a lado a poesia de Dylan com as melodias e vozes dos Beatles. Os dois primeiros discos, Mr. Tambourine Man e Turn Turn Turn, ambos de 1965, são os clássicos eternos do gênero.

Em 1968, os californianos também inauguraram um novo estilo, com o fantástico disco Sweetheart of Rodeo, resultado da aproximação com música country (sem esquecer do rock e da psicodelia) e das diversas mudanças na formação. O álbum foi o marco-zero do chamado Country-Rock.

No entanto, o que nos interessa aqui é a segunda revolução da banda, que aconteceu em março de 1966, com lançamento do single Eight Miles High/Why, que inclui as primeiras canções - reconhecidamente - psicodélicas dentro do mundo pop. O novo som dos Byrds confirmou-se em julho, mês em que Fifth Dimension chegou às lojas.

Começaremos pelo single, de importância histórica e com qualidade musical altamente refinada. Em 1965, a maioria das composições era de autoria do vocalista Gene Clark, que levava a banda para um caminho mais folk-pop. No entanto, os guitarristas-vocalistas David Crosby e Jim McGuinn começaram a despertar o interesse por outras sonoridades. Crosby estava fascinado pela música indiana, especialmente Ravi Shankar e sua cítara. Já McGuinn, não tirava da vitrola seus discos do jazzista John Coltrane. Em "Eight Miles High" e "Why" é bastante perceptível a influência dos dois mestres.

"Eight Miles High" nasceu com a idéia inicial de Gene Clark, durante um papo com Brian Jones em sua primeira tour em Londres. Os Byrds estavam impressionado com a atraente cidade e suas luzes, arquitetura, chuva e até os mods... Todas as novidades entraram na poesia de Clark. O fato é que ninguém acreditou muito, já que a expressão "high" também indicava algo mais viajante. A canção chegou a ser banida em muitas rádios dos Estados Unidos, que alegaram clara apologia ao uso de drogas. Polêmicas à parte, musicalmente "Eight Miles High" elevou os Byrds ao topo da vanguarda musical dos 60´s, com seu arranjo jazzy, aliado à pegada certeira da cozinha e ao arranjo vocal fantasmagórico. Mais tarde, McGuinn creditou as inovações da canção a dois músicos: Rod Argent, organista dos Zombies, pelos breaks jazzísticos, e John Coltrane, assumindo tentar copiá-lo nos solos de sua Rickenbacker 12 cordas.



Já "Why", simpática pop-song de Crosby e McGuinn , além de refrão chiclete, traz guitarras emulando o som de cítara. Vale lembrar que foram os Byrds que apresentaram o instrumento indiano aos Beatles, em 1965, durante algumas festinhas em L.A regadas a LSD e Ravi Shankar.

Com o lançamento do polêmico single, os Byrds prepararam terreno para o disco, mas infelizmente tiverem uma baixa durante as gravações: a saída mal explicada de Gene Clark. Diz a lenda que o maior motivo foi o seu terrível medo de avião. Jim McGuinn até teria dito: "se você tem medo de voar, não pode ser um Byrd!". Curiosamente, a última composição de Clark no grupo foi a "aérea" Eight Miles High. Sem o principal cantor e compositor, tudo ficou nas mãos de Crosby e McGuinn, e os dois não decepcionaram. À frente dos Byrds, a dupla (ao lado de Chris Hillman- baixo e voz- e Michael Clarke- bateria-) finalizou e lançou Fifth Dimension.

Lado A

"Apenas relaxe e preste atenção", pede McGuinn em "5D", música de abertura do disco, com melodia marcante e arranjo sofisticado. A participação do pirado Van Dyke Parks (que pouco depois começaria a compor com Brian Wilson o ex-frustrado Smile) tocando órgão incrementa ainda mais a canção, baseada no livro 1-2-3-4, More, More, More, More de Don Landys e na famosa teoria da relatividade de Einstein. Continuando a sessão relax, a banda emenda a harmoniosa Wild Mountain Thyme, canção tradicional americana interpretada magistralmente com o trio de vozes, completado por Chris Hillman, substituindo Gene Clark. Um detalhe interessante é a presença de cordas, nunca utilizadas anteriormente pelo grupo.


A terceira música, "Mr. Spaceman", também de McGuinn, narra a história de um caipira que encheu a cara e acabou encontrando alienígenas durante a noitada. A melodia, que reúne riffs de country com toques psicodélicos, leva o ouvinte a um inusitado bang bang no espaço. Mantendo o ouvinte em órbita, a composição da dupla Crosby/McGuinn "I See You", apresenta uma levada bem dançante, com destaque para a bateria de Michael Clarke. A letra, desta vez, aborda o espaço de uma forma mais romântica. A viagem segue com "What´s Happening?!?", um das canções mais drogadas de todos os tempos. Com interpretação debochada, o doidão David Crosby e sua bela voz lamentam não entender nada do que está acontecendo (por que será? tsc, tsc, tsc...). A guitarra de McGuinn dá um show simulando novamente o som de uma cítara.



A canção de temática mais pesada da carreira dos californianos. "I Come And Stand At Every Door", fecha o lado a com uma interpretação apática de McGuinn, no papel do fantasma de uma criança morta. A letra, baseada em um poema de Nazim Hikmet, assusta: "Eu só tinha sete anos quando morri/Em Hiroshima tempos atrás/... Quando crianças morrem, elas não crescem mais/Meu cabelo foi queimado pelas chamas revoltas/Meus olhos escureceram-se, meus olhos foram cegados/ A morte veio e transformou meus ossos em cinzas." Para fazer seu protesto contra a guerra do Vietnã, o grupo trouxe um passado que os americanos fingiam ou queriam esquecer. Mórbido e arrepiante.

Lado B

O lado B abre com o clássico já comentado "Eight Miles High". O tamanho êxito do single levou a banda a colocar a canção também no disco, sendo a única com assinatura de Gene Clark no Fifth Dimension. No álbum, a versão não foi editada, trazendo na íntegra o fantástico solo de McGuinn, soando como o saxofone de Coltrane.

"Hey Joe" era a música da moda em Los Angeles. Bandas como Leaves, Love e Music Machine gravaram a canção-xodó de David Crosby, que já a cantava anteriormente nos shows do grupo. A versão dos Byrds mostra o limite máximo do garage rock que a banda atingiu. Realmente, Crosby era o membro com maior inclinação roqueira. Outra canção mais garage é "Captain Soul", tema instrumental com levada black e solos de guitarra com timbre bem sujo. Os destaques são o groove do baixo de Chris Hillman e a gaita gravada por Gene Clark. Momento inusitado.

Depois do rock, surge a pérola "John Riley", certamente a canção mais bonita da carreira da banda. Com o apoio de um instrumental discreto, as três vozes conduzem com maestria a tradicional canção americana, antes gravada pela cantora folk Odetta. É o arranjo de voz mais doce já escutado no planeta terra. Vale ressaltar que os Byrds sempre gravavam canções tradicionais, como "We´re Meet Again" e "He Was a Friend of Mine", lançadas nos discos anteriores. Já as famosas versões para as músicas de Bob Dylan não tiveram vez em Fifth Dimension, coisa rara na carreira da banda. A última canção do disco, "2-4-2 Fox Trot (Lear Jet Song)", traz um riff marcante e alguns efeitos sonoros interessantes para época, mas nada que a justifique ter tomado o lugar da bela "Why".

Apesar de não repetir o sucesso absoluto dos dois discos anteriores, Fifth Dimension manteve os Byrds nas paradas. No entanto, sua verdadeira importância deve-se ao pioneirismo dos arranjos, com inéditas misturas de jazz, música oriental e soul com folk-rock, sendo reconhecido até hoje como um dos precursores do psicodelismo. Meses depois, os Byrds entrariam de vez para o primeiro time das bandas sixties, com o lançamento do aguardado e não menos espetacular Younger Than Yesterday. Também em 1967, o grupo participou do Monterey Pop Festival, como a grande estrela do evento. Mas aí já são outras histórias, outras canções e outros momentos que, assim como Fifth Dimension, marcaram a história da música pop.


 
     

 

 
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