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ALEJANDRO JODOROWSKY
por J.W. Kielwagen
Não cabe a mim questionar aqui os métodos de trabalho da maior indústria de cinema do mundo. Afinal, quando se trata da concepção de um produto, nada melhor que uma equipe de profissionais especializados para garantir que o resultado final seja impecável. Por outro lado, se falamos da concepção de uma obra de arte, a delegação das diversas funções a pessoas diferentes põe em risco o resultado do trabalho, pois dilui a visão do autor. Nesse ponto, o leitor pode estar se perguntando: então quem são os "autores" das superproduções de Hollywood? É difícil responder a essa pergunta. Quem é o autor de uma lata de ervilhas ou de uma revista de entretenimento? Estamos tratando de produtos com fins comerciais, que não têm valor artístico - a não ser em uma exposição de Andy Warhol. Uma resposta possível seria que os autores, nesses casos, são certos parâmetros de mercado. E estamos novamente às voltas com o velho dilema moral que sempre acompanha a comercialização da arte: até que ponto deve-se tentar agradar o público? O cinema é a forma de arte mais completa que há, envolvendo todas as demais - literatura, música, teatro, até mesmo moda - além de oferecer um meio de expressão próprio e exclusivo, a edição. Produzir um filme é trabalho geralmente colossal, que só os mais obstinados encaram sozinhos. É justamente um desses obstinados que desejo apresentar ao leitor.
O chileno Alejandro Jodorowsky nasceu em 1929, na cidade de Iquique. Estudou em Santiago e trabalhou como palhaço de circo até 1955, quando mudou-se para Paris e se enturmou com os surrealistas da época. Em 1962 ele e mais dois amigos - Roland Topor e Fernando Arrabal - fundaram o Movimento Panico (Panic Movement) em homenagem ao deus Pan, que envolvia várias formas de expressão artística. Em 67 lançou seu primeiro filme, Fando y Lis - adaptado de uma peça de Arrabal - e uma revista em quadrinhos chamada "Fabulas Panicas". Esses primeiros trabalhos já indicavam a direção que Jodorowsky tomaria em seguida: o surrealismo, o panteísmo, tudo caminhava para o misticismo psicodélico que o consagraria para sempre, alguns anos mais tarde. El Topo, de 1970, tornou-se um clássico cult instantâneo. Conta a história de um pistoleiro místico - interpretado pelo próprio Jodorowsky - que vaga pelo deserto em busca de auto-conhecimento. Em sua jornada, enfrenta os quatro mestres pistoleiros do deserto, morre e renasce, encontra a iluminação, fica loiro, ajuda o um povo deformado que vive preso em uma caverna, e por fim torna-se uma espécie de monge franciscano com uma metralhadora.
![]() El Topo Apesar de sua filmografia não ser muito extensa, Jodorowsky conseguiu criar um estilo próprio que merece, no mínimo, atenção. Recentemente, planejava filmar a continuação de El Topo, que chamar-se-ia "Los Hijos del Topo" e contaria com a particapação de Marilyn Manson como produtor e ator - no papel do personagem bíblico Caim. Infelizmente, por alguma razão obscura, o projeto fracassou, e os fãs ficaram a ver navios. Nenhum de seus filmes foi lançado no Brasil até então, e é improvável que passem nos cinemas ou na televisão. No entanto, se você puder ir a Paris, poderá se consolar fazendo uma consulta de tarot com o próprio Jodorowsky. Sim: a cada Quarta-feira, ele atende vinte e duas pessoas gratuitamente, no café Le Téméraire. É só chegar bem cedo e pegar um senha. Se você não tem dinheiro para ir a Paris, talvez tenha para importar os filmes em DVD via amazon ou outras lojas virtuais. Se a verba estiver realmente curta, ainda há a opção de copiar os filmes inteiros da internet com a ajuda de programas p2p, como Kazaa ou Emule. Não importa; apenas não deixe de conferir o trabalho de Jodorowsky, um sul-americano genial, ignorado pela américa do sul, provando mais uma vez que santo de casa não faz milagre.
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