ALEJANDRO JODOROWSKY
BEZERROS CRUCIFICADOS

 

por J.W. Kielwagen
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Há quem diga que cinema é "mais arte" quando é autoral, ou seja, fruto da visão de um autor, com o mínimo possível de interferência externa e/ou de terceiros. Para tal, é necessário que o autor realize sozinho grande parte das funções da produção de seu filme, como roteiro, direção, edição, trilha sonora, figurino, etc. Na indústria do cinema de Hollywood, o que se vê é justamente o contrário: grandes produções onde cada função é delegada a um profissional especializado. Muitos diretores consagrados, por exemplo, consideram o trabalho de edição muito chato, deixando-o a cargo de terceiros e limitando-se a dar uns palpites aqui e ali. Outros podem não entender nada de iluminação ou enquadramentos, logo arranjam um diretor de fotografia para lidar com a câmera.

Não cabe a mim questionar aqui os métodos de trabalho da maior indústria de cinema do mundo. Afinal, quando se trata da concepção de um produto, nada melhor que uma equipe de profissionais especializados para garantir que o resultado final seja impecável. Por outro lado, se falamos da concepção de uma obra de arte, a delegação das diversas funções a pessoas diferentes põe em risco o resultado do trabalho, pois dilui a visão do autor.

Nesse ponto, o leitor pode estar se perguntando: então quem são os "autores" das superproduções de Hollywood? É difícil responder a essa pergunta. Quem é o autor de uma lata de ervilhas ou de uma revista de entretenimento? Estamos tratando de produtos com fins comerciais, que não têm valor artístico - a não ser em uma exposição de Andy Warhol. Uma resposta possível seria que os autores, nesses casos, são certos parâmetros de mercado. E estamos novamente às voltas com o velho dilema moral que sempre acompanha a comercialização da arte: até que ponto deve-se tentar agradar o público?

O cinema é a forma de arte mais completa que há, envolvendo todas as demais - literatura, música, teatro, até mesmo moda - além de oferecer um meio de expressão próprio e exclusivo, a edição. Produzir um filme é trabalho geralmente colossal, que só os mais obstinados encaram sozinhos. É justamente um desses obstinados que desejo apresentar ao leitor.

O chileno Alejandro Jodorowsky nasceu em 1929, na cidade de Iquique. Estudou em Santiago e trabalhou como palhaço de circo até 1955, quando mudou-se para Paris e se enturmou com os surrealistas da época. Em 1962 ele e mais dois amigos - Roland Topor e Fernando Arrabal - fundaram o Movimento Panico (Panic Movement) em homenagem ao deus Pan, que envolvia várias formas de expressão artística. Em 67 lançou seu primeiro filme, Fando y Lis - adaptado de uma peça de Arrabal - e uma revista em quadrinhos chamada "Fabulas Panicas". Esses primeiros trabalhos já indicavam a direção que Jodorowsky tomaria em seguida: o surrealismo, o panteísmo, tudo caminhava para o misticismo psicodélico que o consagraria para sempre, alguns anos mais tarde.

El Topo, de 1970, tornou-se um clássico cult instantâneo. Conta a história de um pistoleiro místico - interpretado pelo próprio Jodorowsky - que vaga pelo deserto em busca de auto-conhecimento. Em sua jornada, enfrenta os quatro mestres pistoleiros do deserto, morre e renasce, encontra a iluminação, fica loiro, ajuda o um povo deformado que vive preso em uma caverna, e por fim torna-se uma espécie de monge franciscano com uma metralhadora.

A obra prima de Jodorowsky é Holy Mountain, de 1973. Os ocultistas e esotéricos costumam se borrar todos com esse filme, que é recheado de simbolismo astrológico e cabalístico. Conta a história de um homem em uma jornada mística rumo à imortalidade. Logo no início o protagonista se depara com um mestre espiritual - interpretado por Jodorowsky - que o instrui acerca dos segredos da magia. Em seguida é apresentado a seis pessoas que representam seis planetas do sistema solar, cada uma com as características astrológicas correspondentes. Os sete, mais o mestre e um assistente, partem em uma jornada rumo à Montanha Sagrada, para matar os deuses que lá vivem e tomar-lhes o lugar, alcançando assim a imortalidade. Algumas cenas são inesquecíveis, como a procissão de bezerros crucificados ou a invasão do México por sapos espanhóis, seguida de banho de sangue. O leitor leigo não deve se sentir intimidado pela simbolismo velado: não é preciso ser um iniciado nas artes ocultas para apreciar essa obra-prima que vai do mais grotesco até a mais rara beleza, com um final zen.


Após um longo período de inatividade, Jodorowsky lançou alguns filmes mais comerciais - na medida do possível, claro. Santa Sangre, de 1989, conta a história de um louco lutando contra sua própria loucura. O surrealismo está presente, embora contido, aparecendo discretamente aqui e ali, apenas o suficiente para não assustar muito o público. O filme faz bastante sentido até para os mais ingênuos, e tem algumas cenas realmente inspiradas, como o enterro do elefante e o show de marionetes.


El Topo

Apesar de sua filmografia não ser muito extensa, Jodorowsky conseguiu criar um estilo próprio que merece, no mínimo, atenção. Recentemente, planejava filmar a continuação de El Topo, que chamar-se-ia "Los Hijos del Topo" e contaria com a particapação de Marilyn Manson como produtor e ator - no papel do personagem bíblico Caim. Infelizmente, por alguma razão obscura, o projeto fracassou, e os fãs ficaram a ver navios.

Nenhum de seus filmes foi lançado no Brasil até então, e é improvável que passem nos cinemas ou na televisão. No entanto, se você puder ir a Paris, poderá se consolar fazendo uma consulta de tarot com o próprio Jodorowsky. Sim: a cada Quarta-feira, ele atende vinte e duas pessoas gratuitamente, no café Le Téméraire. É só chegar bem cedo e pegar um senha. Se você não tem dinheiro para ir a Paris, talvez tenha para importar os filmes em DVD via amazon ou outras lojas virtuais. Se a verba estiver realmente curta, ainda há a opção de copiar os filmes inteiros da internet com a ajuda de programas p2p, como Kazaa ou Emule. Não importa; apenas não deixe de conferir o trabalho de Jodorowsky, um sul-americano genial, ignorado pela américa do sul, provando mais uma vez que santo de casa não faz milagre.


Filmografia:
The Rainbow Thief (1990) - Santa sangre (1989) - Tusk (1980) - The Holy Mountain (1973) - El Topo (1970) - Fando y Lis (1967) - Les Têtes interverties (1957)


* artigo publicado anteriormente no site www.bulhorgia.com.br



 
     

 

 
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