TOP 10
OS NÃO-AMORES DA JOVEM GUARDA

por Roberto Iwai



Quando se fala em Jovem Guarda, uma gama de pessoas não titubeiam ao responder que o amor corre solta, as palavras doces permeiam sempre, e que tudo é meticulosamente meloso nessa vida bela dos anos 60 brasileiro. É casamento, é família feliz, é tudo brilhando. Claro, sem negar o fato que existia sim grande quantidade de amor inserido na Jovem Guarda, existia também vez e outra um pedacinho desse amor todo, uma banda que deixava escapar e que resolvia gentilmente homenagear tal sentimento, ligando sua guitarra fuzz em uma carícia agradável, ou estraçalhando em versos algum tipo de posição de vitória que as pessoas buscam nisso tudo.

Segue aqui, em composições originais ou em versões muito bem sacadas, dez músicas que falam dessa carícia amorosa que é a vingança, o desprezo, a necessidade de não mais ter, em pleno anos 60 da eterna Jovem Guarda, que todos clamam ser amor e amor.


Os Caçulas

10. "Tem Que Aceitar Como Eu Sou" - Os Caçulas (1969)

Essa canção d'Os Caçulas destoa de um discurso amoroso de que tudo vale e tudo é feito quando se trata de retomar um relacionamento. Os Caçulas primam por seus arranjos vocais, tão belos quanto sombrios, parecendo sair de um Mamas and The Papas reprocessado via mil vezes amargura. Por mais que a tristeza, de uma forma bastante densa, fosse o assunto mais corrente no repertório do grupo, "Tem Que Aceitar Como Eu Sou" trata justamente do que fala o título, com achados como "minha opinião é meu coração/certo ou errado/já está falado"... "se você me quer/eu não quero assim/eu não sou ruim/diga sim ou não para mim".

09. "Coração de Pedra" - Os Jovens (1967)

Seria um discurso até meio ingênuo se não fosse inteiramente a maravilhosa guitarra fuzz de Renato Barros e o acompanhamento de Renato e Seus Blue Caps escancarar toda uma interpretação que soa como um apontar no meio da cara. Tudo é emoldurado para a dupla vocal Os Jovens clamarem versos como "Meu bem, eu não suporto mais você/De uns tempos para cá você mudou (...) Esquece que me viu e vá embora", e definir o termo "coração de pedra" para dar a volta por cima.

08. "Como Perdi Duas Garotas Num Minuto"' - Pedro Paulo (1970)

Essa inacreditável canção de Pedro Paulo trata da traição de um modo peculiar. Com versos como "passando um dia na praia eu vi/Um broto lindo a olhar pra mim/No meu coração já morava alguém/Pensei: 'vai dar pra ela também'/Cheguei pertinho e conversei/Podemos logo nos encontrar/Com a cabeça ela disse sim/E levantou logo o seu polegar", "Como Perdi Duas Garotas Num Minuto" versa sobre a cafajestice humana em um tom pueril que torna a música mais descarada ainda. Tom pueril até meio tardio para 1970, ano em que essa canção foi gravada, já no final da Jovem Guarda.

07. "Chega (Makin' Love)" - Renato e Seus Blue Caps & Cleide Alves
(1961)


Em 1961, ainda na pré-Jovem Guarda, uma cantora de voz doce, quase juvenil, cantava sobre o prazer de fazer alguém se ferrar por causa de traição. Essa irônica versão de "Makin' Love" de Floyd Robinson trata do assunto de forma inversa à original, retratando com versos como "eu não quero mais conversa/pois a minha paciência se esgotou", "me arrependo de lhe conhecer/Estando ao seu lado eu só tenho a perder" uma época aonde o amor era interpretado com amor, mesmo que estivesse apenas encobrindo algo totalmente sem nexo.


The Brazilian Bitles

06. "Dedicado A Quem Amei" - The Brazilian Bitles (1969)

Se assemelhando em nome com um conhecido título de um clássico dos Mamas and The Papas, "Dedicado a Quem Amei" é totalmente inverso em discurso da trupe de John Phillips. Versando sobre o descaso por merecer, traz palavras e versos que em 1969 emocionava adeptos ("Às vezes penso como pude lhe amar/Sinceramente é difícil acreditar [...] E agora já posso dizer/Eu não gosto mais de você"). O que fazia grande diferença no impacto da música era a interpretação e postura dos vocais, a ironia que era peculiar na banda, e também a bela guitarra, um dos registros mais selvagens do instrumental que se tem conhecimento no Brasil.

05. "Aonde Você For, Eu Não Irei (Tomorrow's Gonna Be Another Day)" - The Sunshines (1967)

O Sunshines ficou conhecido pela versão de "Last Train To Clarksville" dos The Monkees. Porém seu primeiro disco contém grandes pérolas, valendo até mencionar a insinuante e ao mesmo tempo pudica "Você Quer Brincar". Porém, "Aonde Você For, Eu Não Irei", trata do amor como descaso, e novamente em uma versão dos Monkees, dessa vez de "Tomorrow's Gonna Be Another Day".

04. "Não Sou Bobo" - Os Abutres (1967)

É engraçado os termos usados em "Não Sou Bobo", e acreditar que em 1967 uma banda cantava versos como "Eu não ando contigo/Sabe por que?/Eu não sou bobo/Vou lhe mostrar/Pegue um otário para casar", e usar isso como sinônimo de ser prá frente, não-atrasado, e tudo mais. Os Abutres tratam desse assunto de uma forma bastante particular, já que o discurso da banda quase sempre foi a onda de se sentir prá frente.


Roberto Carlos

 

03. "Você Não Serve Pra Mim" - Roberto Carlos (1967)

Não poderia faltar este clássico de Roberto Carlos, que é o exemplo de uma elegância para tocar no assunto de término de relacionamentos. Ainda assim, é também um exemplo de como dispensar uma pessoa sem dó e com carinho. Esse clássico de Renato Barros trata do amor como uma coisa que não é essencial, algo que se encontra até de forma simples, e não nos devaneios e vassalagens de que é peculiar em um estrondo do sentimento.

02. "Nem Sim, Nem Não" - Eduardo Araújo (1968)

Além da já clássica história da primeira participação de Lanny Gordin em uma gravação em disco, "Nem Sim, Nem Não" trata de um assunto corrente e recorrente nas relações mundo afora: a indecisão. Ela prima pela letra simples justamente pela eficácia tremenda de tratar exatamente do assunto que trata, de versos como "Pare de brincar, de esconder/Me diga logo o que eu quero/O que eu quero saber (...) Quero a decisão e você não quis/Nem sim, nem não", esse clássico merece ser lembrado como um tema agradável quando o assunto é a impaciência.


Os Incríveis

01. "Vai, Meu Bem (Hideaway)" - Os Incríveis (1967)

Enquanto o Brasil inteiro se emocionava em 1967 com os versos pró-paz do clássico "Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e Rolling Stones", no mesmo disco Os Incríveis remetiam ao amor desacreditado na versão de "Hideaway" da banda Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich. "Vai, Meu Bem" é um exercício de ironia até então inédita na carreira da banda. Usando do discurso de lembranças e flashbacks desastrosos, assumindo primeiro uma terceira pessoa para depois dizer sobre si mesma ("Vai, meu bem/Que eu amo só você/Assim acreditei, sem perceber/Que em meu lugar/Havia outro alguém"), descamba em uma crença de que o amor não mais existe ("É por isso que hoje aprendi/Não mais crerei quem diz/Amo você"). Soma-se também gratificantes resquícios de guitarra fuzz que Os Incríveis trouxeram de seu anterior e clássico disco Neste Mundo Louco.


 
     

 

 
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