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TOM ZÉ por Roberto Iwai
Tom Zé é com certeza o músico com os maiores feitos da música brasileira, inverso e avesso em seu caminho de poucos atalhos. Seu maior feito foi ter chegado em 2005 com um álbum como Estudando o Pagode: Na Opereta Segregamulher e Amor, o ápice, por enquanto, do que Zé é capaz. O termo "por enquanto" é correto. Pois desde 1968, quando iniciou sua carreira vertendo Jovem Guarda em sarro no próprio estilo e ainda com tímidos compassos de samba em seu primeiro disco, Tom Zé rumava em um caminho que extrapolava até os próprios tropicalistas. Se comportou em 1970 como novamente quebrou alicerces em 73, não sem antes gravar um disco repleto de bonitos sambas e suas mais belas canções, em 1972. Ora, grande feito de Tom Zé também residiu em 1984, quando lançou o mais digno álbum dos nefastos anos 80 para a música brasileira, em que arranjos eram devidamente banalizados com guitarras plásticas e sintetizadores qualquer nota. Mas anteriormente, com sua intimidade natural com samba, conexões com Adoniran Barbosa e temas mais do que ácidos, registrou em 1976 o clássico Estudando o Samba. E é aí que Estudando o Pagode nos linka à musicalidade de Tom Zé. Nos "por enquantos" de seu som. Seguindo uma musicalidade que Zé deixara como certa pista em 2000 na música "Sonhar (Sonho da Criança-Futuro-Bandido da Favela Na Noite de Natal)" (do disco Jogos de Armar), Estudando o Pagode é um disco que conta a história de duas personagens e seus amores. Em se tratando de opereta, as vozes, o uso do contraponto masculino e feminino é e são, formando a forma de resposta e pergunta, afirmação e dúvida, xingamentos de classe e acusações com um delicado dedo na cara, entre seres falando sobre o amor. Em três atos. No primeiro ato, Tom Zé abre o disco com uma catarse sonora que se extende por seis músicas. Ou cenas. Nelas, Zé expande sua produção com efeitos que contribuem ao máximo para não tornar música escravo de moderno. Um verdadeiro compressor sonoro, aonde desde inversões de sons e instrumentos inusitados de sopro fazem com que o som não ande em nenhuma direção a não ser para frente, e com rapidez. Derivado do texto o som, ou vice-versa, onde ocorre a perseguição, julgamentos e acusações da Segregamulher e afins. Em segundo ato, o ritmo se torna mais brando, e em letra, todo o questionamento do posicionamento da mulher, sexo, amor livre e transições é posto em discussão, até sucumbir ao terceiro ato, onde Adoniran Barbosa e Beatles são citados. As críticas de Tom Zé à toda essa atmosfera de relacionamento, não exatamente de um homem por uma mulher, mas da posição da mulher em geral, traduz a ironia com que o amor vive atualmente, narrado em cenário pitoresco. Tal cenário dá um clima que, para os mais românticos, remete a algum clássico da literatura brasileira. E que para os mais céticos, remete à mais fina pornochanchada que a história do cinema brasileiro orgulhosamente carrega em sua história. E que não deixa de ser romântico. Finalizando assim a história, e o disco, com tais dizeres: "'ninguém é de ferro e, afinal, é preciso namorar.' Mas no fim, quando começa a ficar muito piegas, Teresa se aborrece". Beatles a granel, seu vagabundo. O próprio estudo
de Zé acima de si mesmo.
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