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TOM GOMES & LUIS
VAGNER
por Roberto Iwai Iniciando o raciocínio pelo recente presente, muitos dos que são familiarizados com o nicho de soul e samba-rock que se estabeleceu durante a década de 70 já podem identificar Luis Vagner como um dos grandes expoentes da vertente, autor de muitos clássicos do remelexo brasileiro. Até poderíamos traçar uma linha de raciocínio hoje entre Luis Vagner e a banda Ultramen, para os que apontam a banda como sendo a mais destoante do cenário sulista. Sim, Vagner é gaúcho, assim como a trupe de Tonho Crocco, e ambos seguem a linha sonora que Luis intensificou durante todas as décadas de 70, 80 e 90. Segue aqui toda a linha de raciocínio que quiserem. Porém, aonde queremos chegar é uma década anterior aos clássicos do sacolejo. Então, retornamos à década de 60, período onde esteve na ativa uma das bandas mais inventivas que essas terras já proporcionaram. Os Brasas iniciaram suas atividades
no meio da década de 60, deixando como registro um LP e vários
compactos em sua discografia. Oriundo da banda, Luis Vagner,
além de registrar momentos memoráveis ao lado da banda
como o compacto com a versão garageira do clássico da
MPB "Mulher Rendeira", ou o clássico "Lutamos
Para Viver", iniciou nessa época talvez uma das mais criativas
e frutíferas parcerias com um talento das composições
pop.
Os Brasas Tom Gomes, atualmente no ramo da música nos termos mais empresariais e executivos, foi, em parceria com Vagner, responsável por muitas e muitas pérolas compostas nas décadas de 60, 70 e 80 no país. Porém, é em seu período sessentista e setentista que a dupla manifestou suas melhores composições, permeando uma fina linha entre a soft-psychedelia e o apuro pop. Tais canções, sejam elas interpretadas pelos próprios Brasas, caso de "Sou Triste Por Te Amar" ou a perfeita "Não Vá Me Deixar", ou espalhadas pelos diversos cantos da música brasileira, abrangeram grandes nomes da música, desde a dupla Leno & Lilian, passando por Ronnie Von, e pelo grupo vocal Os Caçulas. Ronnie Von foi um grande presenteado pela
dupla. São duas as canções que Tom Gomes e Luis
Vagner escreveram para o cantor, localizadas na mais que cultuada tríade
de álbuns psicodélicos de Ronnie. "Pare de Sonhar
Com Estrelas Distantes" é uma pérola pop presente
no disco A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império
de Nuncamais, de 1969. Emoldurada pelos arranjos quase cósmicos
de Damiano Cozzella, maestro sempre presente neste período de
Von, retrata o tema da saudade e solidão através das distâncias,
não-distâncias e proximidades.
Ronnie Von
Silvinha Araújo, que também ganhou uma inspirada composição da dupla. Na época conhecida apenas como Silvinha, gravou em seu primeiro disco o empolgado rock "Não Posso Ser Feliz", com o tema ainda presente nos amores da Jovem Guarda, apesar da sonoridade já não mais muito parecida com o período, tendo uma garra que era particularidade da própria carreira de Silvinha. Diferenças e distinções que fariam a cantora gravar um belo disco psicodélico na década de 70, calcado nos vocais de Janis Joplin. A dupla Leno & Lilian gravou em 1972
a mais bela canção da dupla Tom Gomes e Luis Vagner, a
bucólica "O Que Fazer em São Paulo Na Primavera".
Registrada já na segunda fase de Leno & Lilian, aonde deixariam
um pouco de lado a sonoridade Jovem Guarda que ficaram conhecidos para
seguirem uma verve um pouco mais folk, "O Que Fazer em São
Paulo Na Primavera" é praticamente uma canção
escrita botando em uso a memória saudosista de uma São
Paulo florida, uma primavera amena, das praças e climas londrinos,
casacos e passos sem pressa. Uma polaroid no momento de momento e nada
mais.
![]() Silvinha e Leno & Lilian Inversamente em euforia é a canção "Que Você Está Fazendo Neste Lugar Tão Frio", composição da dupla registrada pela cantora Vanusa, em 1969. Presente no segundo e mais psicodélico disco da cantora, a canção fala sobre a espera de uma chegada, em torno disso felicidade, vontades grandes, e intensificação pelos belos arranjos de Portinho. Em 1968, já distante dos anos de extremo sucesso dos seus clássicos, Celly Campello também registrou duas composições de Tom Gomes e Luis Vagner. "No Outono (Nos Encontraremos Outra Vez)" e "Marquei Encontro Com Você Nos Meus Sonhos" são belas canções pop, onde registram uma Celly Campello distante da pré-Jovem Guarda e do twist, e já inserida no próprio estilo que ajudou a criar, mas que desde então havia sofrido algumas mutações. A dupla também compos para Wilson Simonal a música "Moro No Fim da Rua", em 1970. Mas talvez uma das composições
mais marcantes de Tom Gomes e Luis Vagner esteja presente em 1969. "A
Moça do Karman Ghia Vermelho", interpretada pelo não
menos marcante grupo Os Caçulas, reúne um número
grande de elementos ímpares dentro de uma canção. Com um tema nada recorrente nas composições da época, conta a história de uma canção composta via amor ouvida pela garota que moveu tal sentimento, em seu Karman Ghia. Vermelho. Um popular carro da época. Musicalmente, traz Os Caçulas, com seus arranjos vocais sombrios peculiares, imersos em uma ampla psicodelia em conjunto com os arranjos de Portinho, o mesmo de Vanusa, e uma das passagens mais belíssimas de guitarra da década de 60 brasileira.
Como já dito, durante as décadas de 80 e 90, Tom Gomes e Luis Vagner continuaram compondo, ora juntos, ora separados, cedendo suas composições para diversos outros artistas. Aonde o mundo dá voltas, Luis Vagner enveredou, como já dito também, pelo samba-rock, mantendo uma carreira respeitada. Mas sempre, neste período entre os anos 60 e 70, a dupla rendeu frutos nunca antes vistos nesse Brasil, com temas nunca antes decretados, com sonoridades que conseguiram soar tão vanguardistas quanto pop. E que residem no imaginário inconsciente sendo adorados por muitos, em sua natureza de compositores, que não se pronunciam como tais, mas são venerados.
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