WILSON SIMONAL
A VIDA É SÓ PRA CANTAR, A VIDA É SÓ...




por Roberto Iwai

Muitos conhecem Wilson Simonal como o criador da pilantragem, do jeito inédito que o brasileiro tratava o jazz, o soul e o samba nos anos 60. Invadindo ainda território da Jovem Guarda e fazendo da MPB festa certeira onde até na bossa nova que interpretava o banquinho não tinha vez, Simonal teve várias alcunhas sem detrimento a nenhuma. Até 1970, esse gênio da comunicação musical reinava absoluto sobre tudo o que se supunha dizer em relação a balanço e remelexo.

Mas em 1977 Wilson Simonal ultrapassou todas as barreiras do que se conhecia, ou até então, se ouvia dizer sobre o samba e seus agregados. O disco A Vida é Só Pra Cantar foi lançado já por o artista com sua carreira em frangalhos, e apostava na regravação de hits em forma de medleys, e algumas canções inéditas.

Tal fórmula que geralmente nunca surge com nada de interessante em comparação às originais saem totalmente das vias de regra nas novas versões que Simonal trazia. Escudado pelo Originais do Samba, A Vida é Só Pra Cantar transmuta o estilo de Simonal em patamares agradáveis. E deu tudo de si.

A música "Homenagem Rubro-Negra (Joga Corinthians)" abre o disco versando sobre o conhecido time de futebol nos versos de Jorge Ben, em um samba-rock gordo, sacolejante e com uma bonita orquestração torta no início da faixa. Mas tudo é aperitivo para o rumo que o disco toma, partindo da faixa seguinte, o medley de "Sá Marina/Na Galha do Cajueiro/Vesti Azul/Mamãe Passou Açucar Em Mim".

Uma impressionante introdução com uma guitarra estridente e aquele clima conhecido de improviso que Wilson Simonal proporciona. As seis cordas continuam dando o tom durante todo o restante da faixa, berrando, desaguando em improvisos e fazendo bom uso do wah-wah, tendo forças para transformar até a melancólica e saudosa "Sá Marina" em um festeiro sem fim.

O clima de improviso, de camaradagem e amizade - as interlocuções tradicionais que Simonal faz um seus discos estão presentes aqui também - continuam no outro medley, "The Banana Boat Song/Nanã/Tributo a Martin Kuther King", apanhando outros clássicos do início de carreira de Wilson Simonal. Mais uma vez a melancolia é deixada de lado, e transmuta "Nanã" em um balanço de classe.

A guitarra sempre retorna e revolta nos meios dos compassos de samba, como em "Meu Ofício é Cantar" e "A Volta do Samba, Lê, Lê". Simonal se faz presente e envolvido na sonoridade como nunca e integralmente, fazendo constantemente as canções rumarem para um balanço apenas por onomatopéias ou a simpatia com timing que lhe é natural.

O exemplo mais perfeito da temática do disco é a versão e faixa-título "A Vida é Só Pra Cantar". É inteiramente um balanço irresistível, com mais uma vez a guitarra abusando de estridentes e magníficos wah-wah's e similares. O disco ainda prossegue com uma linda canção gospel, "Queremos Deus", e finaliza com o samba-rock amoroso "Bia", e a ecológica "E Viva a Planta".

Em A Vida é Só Pra Cantar Wilson Simonal cria um samba-rock amalucado, onde guitarras berram por ele, e ele justamente canta. E onde cantar, nada nunca será a mesma coisa. Total calor humano que desafia os sentidos sinestésicos de que um ser humano como Simonal é capaz.


 

 
     

 

 
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