A maneira como o movimento psicodélico
floresceu na costa oeste americana, vinha sendo maturada desde os beatniks
nos anos 40/50, e alcançou seu ponto máximo de fervura
entre 65 e 66. De todo caldeirão cósmico, uma das mais
impactantes(e talvez subestimadas) manifestações artísticas,
e que se transformou na marca visual dessa época, foram os pôsteres
psicodélicos.
Os
primeiros cartazes que utilizaram elementos mais elaborados foram para
promover as festinhas de Ken Kesey e seus Merry Pranksters - os famigerados
acid tests. Tudo poderia ter continuado como brincadeira de poucos,
quando George Hunter e Michael Fergunson dos Charlatans tiveram a grande
sacada de fazer um pôster anunciando sua apresentação
no Red Dog Saloon, em Nevada, no dia 21 de junho de 1965.
Os desenhos traziam referências
do oeste selvagem, com letras densas e irregulares, e salpicados de
informações visuais desconcertantes, numa sublime conexão
com o estilo da banda, influenciando decisivamente todo o imaginário
gráfico psicodélico.
São Francisco era o centro nervoso
da efervescência hippy, foco propagador das primeiras fagulhas
do acid rock de bandas como Warlocks (que depois mudaria o nome para
Grateful Dead), Jefferson Airplane, Moby Grape, Quicksilver Messenger
Service, e outras... Em suas endiabradas performances, abusavam de parafernálias
e trucages eletrônicas/sonoras/visuais e de hipnóticos
light shows. O LSD ainda não era proibido, e numa espécie
de transe metafísico-coletivo, todos se encharcavam de ácido
nesses happenings ultra lisérgicos.
No
início de 66, o empresário Bill Graham contratou o artista
Wes Wilson exclusivamente para produzir os cartazes de divulgação
de seus Mime Troupe Shows e dos concertos que promovia no Filmore Auditorium.
Com trânsito na cultura alternativa local - a poesia beat e a
cena jazz - Wilson vinha sistematicamente trabalhando com este tipo
de arte. Misturando as suas principais influências: Klimpt, Egon
Shiele, Van Gogh e principalmente a art noveau de Alphonse Mucha e os
efeitos ópticos/ilusórios da op art, desenvolveu uma técnica
exuberante com desenhos pulsantes e contrastes magníficos de
cores fluorescentes. As letras derramadas, distorcidas e muitas vezes
ilegíveis embasbacava os olhos causando uma atordoante convulsão
visual.
Sua
série de pôsteres sedimentou os caminhos estéticos
de outra turma: os tresloucados Family Dog; emergidos diretamente das
cercanias da Haight-Ashbury, no coração da psicodelia
Frisco - e encabeçados pelo figuraça Chet Helms, produziam
os mas insanos eventos e concertos chapantes no Avalon Ballroom. Os
artistas Stanley "Mouse" Miller e Alton Kelley foram os primeiros
contratados de Helms, e seguiram magistralmente o processo evolutivo
de Wes Wilson, aliando o traço altamente alucinógeno de
Mouse e os devaneios experimentais de Kelley (que recortava, colava,
triturava,...) produziram cartazes impregnados de cultura pop, em sintonia
absoluta com as melhores vibrações musicais. E no melhor
estilo flower power, afirmavam: "Essas não são obras
de arte. São obras de amor."
Os próximos agregados à
"Família" foram Victor Moscoso e logo em seguida Rick
Griffin. Nascido em La Coruña, na Espanha, e perambulando por
São Francisco desde 59, Moscoso foi talvez quem melhor reproduziu
os efeitos do LSD no papel, graças a uma profusão de cores
incandescentes, abrasivas, saturadas... Fluídos mágicos
que desintegravam o desenho principal irradiando novas percepções
sensoriais.
Em
meados dos anos 60, Griffin colaborava com a revista Surfer e fazia
alguns quadrinhos para revistas alternativas como East Village Other
e Big Daddy. Começou a tocar cítara com alguns amigos
no Jook Savages, mas suas pretensões musicais terminaram no início
de 66 quando fez o pôster anunciando um show da banda. Logo se
transformou num dos mais prestigiados desenhistas da cena psicodélica.
Combinando desenhos vertiginosos e emblemáticos, repletos de
misticismos, figuras indígenas, e todo tipo de piração;
preenchia obsessivamente o papel com linhas estilizadas criando nuances
quase barrocas/surreais com sutis alusões aos expansores da mente.
Griffin ainda se tornaria um ícone dos quadrinhos underground
(juntamente com Moscoso, associando-se à Robert Crumb na Zap
Comix) e criador de antológicas capas de discos.
Mantendo
a qualidade intrínseca dos mestres Wilson, Mouse, Kelley, Moscoso
e Griffin, outros artistas também embarcaram nessa febre, como:
Gary Grimshaw, Bob Fried, John Van Hamerveld, Jim Franklin, Gilbert
Shelton (que depois fez fama com seus Freak Brothes), Bonnie Maclean,
Lee Conklin, Rebecca Galdeano, Randy Tuten, Norman Orr, e tantos outros.
A cena inglesa também teve representantes
da mais alta estirpe como Nigel Weymounth e Michael English do grupo
Hapshash & the Coloured Coat que desenhavam insólitos cartazes
para clubes como UFO, Electric Garden, Saville Theather, Roundhouse;
promovendo apresentações dos ainda desconhecidos Pink
Floyd, Soft Machine, Tomorrow, Move... Outra importante figura da swingin'
london foi Martin Sharp, responsável pelos melhores grafismos
da mítica revista Oz e famoso pelas capas dos discos Disraeli
Gears e Wheels of Fire do Cream. Sem falar em Simon Posthuma, Jesje
Leeger e Marijke Koger, fundadores do The Fool, que revolucionaram a
estampa beatle, pintando o quarteto de Liverpool com cores mais brilhantes.

Rompendo as barreiras geográficas/comportamentais,
o Brasil também sofreu uma influência marcante dessa arte
fosforescente. Entre os principais
expoentes,
destacam-se a concepção gráfica desenvolvida por
Rogério Duarte para o movimento tropicalista cravejada de afrescos
exóticos e texturas insinuantes; os desenhos de Alain Voss para
as capas dos discos Jardim Elétrico e País dos Bauretz
dos Mutantes com explícita conotação alucinógena,
e especialmente os trabalhos de Antonio Peticov e sua agência
de eventos alternativa "Lesmazul", que no final dos anos 60
produziram cartazes vibrantes extraindo a essência lisérgica
filtrada pela ótica tupiniquim.
No sincretismo dos tempos atuais, esses
pôsteres perderam muito do sentido original, alvo fácil
para detratores que consideram uma arte rançosa e datada. Pode
até ser... Mas para os remanescentes psicodélicos, interessados
em cultura sixtie e hippies inveterados, esses desenhos continuam imunes
à ação corrosiva do tempo e absolutamente irresistíveis.