TINTAS ÁCIDAS
AS BANDEIRAS MULTICOLORIDAS DO PSICODELISMO



por Rodrigo Pinto
rodrigop@ifi.com.br

A maneira como o movimento psicodélico floresceu na costa oeste americana, vinha sendo maturada desde os beatniks nos anos 40/50, e alcançou seu ponto máximo de fervura entre 65 e 66. De todo caldeirão cósmico, uma das mais impactantes(e talvez subestimadas) manifestações artísticas, e que se transformou na marca visual dessa época, foram os pôsteres psicodélicos.

Os primeiros cartazes que utilizaram elementos mais elaborados foram para promover as festinhas de Ken Kesey e seus Merry Pranksters - os famigerados acid tests. Tudo poderia ter continuado como brincadeira de poucos, quando George Hunter e Michael Fergunson dos Charlatans tiveram a grande sacada de fazer um pôster anunciando sua apresentação no Red Dog Saloon, em Nevada, no dia 21 de junho de 1965.

Os desenhos traziam referências do oeste selvagem, com letras densas e irregulares, e salpicados de informações visuais desconcertantes, numa sublime conexão com o estilo da banda, influenciando decisivamente todo o imaginário gráfico psicodélico.

São Francisco era o centro nervoso da efervescência hippy, foco propagador das primeiras fagulhas do acid rock de bandas como Warlocks (que depois mudaria o nome para Grateful Dead), Jefferson Airplane, Moby Grape, Quicksilver Messenger Service, e outras... Em suas endiabradas performances, abusavam de parafernálias e trucages eletrônicas/sonoras/visuais e de hipnóticos light shows. O LSD ainda não era proibido, e numa espécie de transe metafísico-coletivo, todos se encharcavam de ácido nesses happenings ultra lisérgicos.

No início de 66, o empresário Bill Graham contratou o artista Wes Wilson exclusivamente para produzir os cartazes de divulgação de seus Mime Troupe Shows e dos concertos que promovia no Filmore Auditorium. Com trânsito na cultura alternativa local - a poesia beat e a cena jazz - Wilson vinha sistematicamente trabalhando com este tipo de arte. Misturando as suas principais influências: Klimpt, Egon Shiele, Van Gogh e principalmente a art noveau de Alphonse Mucha e os efeitos ópticos/ilusórios da op art, desenvolveu uma técnica exuberante com desenhos pulsantes e contrastes magníficos de cores fluorescentes. As letras derramadas, distorcidas e muitas vezes ilegíveis embasbacava os olhos causando uma atordoante convulsão visual.

Sua série de pôsteres sedimentou os caminhos estéticos de outra turma: os tresloucados Family Dog; emergidos diretamente das cercanias da Haight-Ashbury, no coração da psicodelia Frisco - e encabeçados pelo figuraça Chet Helms, produziam os mas insanos eventos e concertos chapantes no Avalon Ballroom. Os artistas Stanley "Mouse" Miller e Alton Kelley foram os primeiros contratados de Helms, e seguiram magistralmente o processo evolutivo de Wes Wilson, aliando o traço altamente alucinógeno de Mouse e os devaneios experimentais de Kelley (que recortava, colava, triturava,...) produziram cartazes impregnados de cultura pop, em sintonia absoluta com as melhores vibrações musicais. E no melhor estilo flower power, afirmavam: "Essas não são obras de arte. São obras de amor."

Os próximos agregados à "Família" foram Victor Moscoso e logo em seguida Rick Griffin. Nascido em La Coruña, na Espanha, e perambulando por São Francisco desde 59, Moscoso foi talvez quem melhor reproduziu os efeitos do LSD no papel, graças a uma profusão de cores incandescentes, abrasivas, saturadas... Fluídos mágicos que desintegravam o desenho principal irradiando novas percepções sensoriais.

Em meados dos anos 60, Griffin colaborava com a revista Surfer e fazia alguns quadrinhos para revistas alternativas como East Village Other e Big Daddy. Começou a tocar cítara com alguns amigos no Jook Savages, mas suas pretensões musicais terminaram no início de 66 quando fez o pôster anunciando um show da banda. Logo se transformou num dos mais prestigiados desenhistas da cena psicodélica. Combinando desenhos vertiginosos e emblemáticos, repletos de misticismos, figuras indígenas, e todo tipo de piração; preenchia obsessivamente o papel com linhas estilizadas criando nuances quase barrocas/surreais com sutis alusões aos expansores da mente. Griffin ainda se tornaria um ícone dos quadrinhos underground (juntamente com Moscoso, associando-se à Robert Crumb na Zap Comix) e criador de antológicas capas de discos.

Mantendo a qualidade intrínseca dos mestres Wilson, Mouse, Kelley, Moscoso e Griffin, outros artistas também embarcaram nessa febre, como: Gary Grimshaw, Bob Fried, John Van Hamerveld, Jim Franklin, Gilbert Shelton (que depois fez fama com seus Freak Brothes), Bonnie Maclean, Lee Conklin, Rebecca Galdeano, Randy Tuten, Norman Orr, e tantos outros.

A cena inglesa também teve representantes da mais alta estirpe como Nigel Weymounth e Michael English do grupo Hapshash & the Coloured Coat que desenhavam insólitos cartazes para clubes como UFO, Electric Garden, Saville Theather, Roundhouse; promovendo apresentações dos ainda desconhecidos Pink Floyd, Soft Machine, Tomorrow, Move... Outra importante figura da swingin' london foi Martin Sharp, responsável pelos melhores grafismos da mítica revista Oz e famoso pelas capas dos discos Disraeli Gears e Wheels of Fire do Cream. Sem falar em Simon Posthuma, Jesje Leeger e Marijke Koger, fundadores do The Fool, que revolucionaram a estampa beatle, pintando o quarteto de Liverpool com cores mais brilhantes.

 

 

Rompendo as barreiras geográficas/comportamentais, o Brasil também sofreu uma influência marcante dessa arte fosforescente. Entre os principais expoentes, destacam-se a concepção gráfica desenvolvida por Rogério Duarte para o movimento tropicalista cravejada de afrescos exóticos e texturas insinuantes; os desenhos de Alain Voss para as capas dos discos Jardim Elétrico e País dos Bauretz dos Mutantes com explícita conotação alucinógena, e especialmente os trabalhos de Antonio Peticov e sua agência de eventos alternativa "Lesmazul", que no final dos anos 60 produziram cartazes vibrantes extraindo a essência lisérgica filtrada pela ótica tupiniquim.

No sincretismo dos tempos atuais, esses pôsteres perderam muito do sentido original, alvo fácil para detratores que consideram uma arte rançosa e datada. Pode até ser... Mas para os remanescentes psicodélicos, interessados em cultura sixtie e hippies inveterados, esses desenhos continuam imunes à ação corrosiva do tempo e absolutamente irresistíveis.

 

 
     

 

 
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