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THE PRETTY THINGS
S.F. SORROW, O PAI DE TOMMY
por Leonardo Bomfim
Quando se fala
sobre o pioneirismo em óperas-rock, todos logo lembram do The Who
e de seu clássico Tommy, lançado em 1969. Alguns
mais atentos irão recordar do Arthur, discaço lançado
pelos Kinks no começo no mesmo ano. Mas, na verdade, a primeira
ópera-rock que obteve grande destaque, foi S.F Sorrow
(1968) dos também ingleses Pretty Things, que
acabaram aclamados como o pai da criança, apesar de uma outra banda
inglesa chamada Nirvana ter lançando o excelente The Story
Of Simon Simopath no ano anterior.
O Pretty Things, natural de Kent (uma cidade litorânea próxima
a Londres), começou a tocar em 1963 e logo se destacou pelas suas
apresentações nervosas, tocando R&B da melhor qualidade
com uma pegada punk. Não é à toa que eles seriam
reverenciados por quase todas as bandas de garagem que surgiriam depois.
O som do Pretty Things era calcado na excelente guitarra de Dick Taylor
e no vocal rasgado de Phil May.
Lançaram os dois primeiros discos no ano de 1965. The Pretty
Things e Get The Picture? apareceram repletos de versões
animais de alguns ídolos americanos, como Bo Didley e Chuck Berry.
O segundo disco já destacava o lado autoral da banda, com petardos
do nível de "Midnight To Six Man" e "L.S.D"
. A banda passou o ano seguinte fazendo uma longa tour e só foi
lançar o terceiro trabalho em 67. Emotions é o
disco mais criticado dos caras. Nem a própria banda, que diz ter
se transformado num conjunto pop, gosta do disco. O maior problema foi
a produção excessiva que deixou o característico
lado cru e selvagem de lado. As
canções tendiam mais para a psicodelia pop, com temas bem
diferentes dos antigos. Nessa época a formação do
grupo tinha, além de May e Taylor, o organista e “faz tudo”
John Povey, o baixista Wally Allen e o baterista louco Skip Alan.
Ainda em 67, num passeio de carro, quando a banda estava conversando sobre
como seria o próximo disco, Wally Allen sugeriu que as músicas
poderiam ter uma conexão, contando alguma história. Phil
May não demorou para apresentar um pequeno roteiro, contando a
vida de um tal Sebastian Sorrow. A banda adorou a idéia, e passou
a trabalhar nas músicas e no conceito.
Depois do fracasso de Emotions, eles estavam loucos pra gravar
um grande disco, e para isso, nada melhor do que um grande estúdio
e um excelente produtor. Abbey Road e Norman Smith foram os escolhidos.
O Abbey Road era o estúdio mais “quente” da época
em Londres, todo mundo queria gravar lá. E Norman Smith (também
responsável pelo The Piper At The Gates Of Dawn, disco
de estréia do Pink Floyd) foi importantíssimo para o S.F.
Sorrow, sendo até considerado o sexto “pretty thing”
nas gravações. Outra mudança importante foi a entrada
do excelente baterista Twink, que pouco tempo antes tocou com a banda
psicodélica Tomorrow.
S.F. Sorrow
O processo de gravação do S.F. Sorrow foi incrivelmente
lento, começando no meio de 67 e só terminando no final
do ano seguinte. O Pretty Things era uma banda sem muita grana, então
para pagar as contas eles precisavam fazer shows, shows e mais shows,
o que atrasava bastante o processo de gravação. Era aquele
esquema, uma semana gravando, outra tocando... Outro motivo para a demora
foi que, como eles estavam a fim de fazer o melhor disco da carreira,
tudo estava sendo aperfeiçoado, todos os detalhes eram revistos
e lapidados para que o resultado final ficasse perfeito. Finalmente, em
novembro de 1968, S.F. Sorrow estava nas lojas e para surpresa
de todos, em mono (um dos grandes truques de Norman Smith, para deixar
o disco com uma solidez impressionante). A obra mostrava uma visão
extremamente psicodélica e cercada de imagens interessantes, da
triste vida de Sebastian Sorrow.
Lado A
Solos de violão anunciam o nascimento de Sebastian Sorrow. Ouvindo
“SF Sorrow is Born” é impossível não
associar ao início de Tommy, com Pete Townshend criando
climas de violão, para depois anunciar “It’s a boy
Mrs Walker, it’s a boy...”. Na música dos Pretty Things,
a família de Sorrow encontra uma casa vazia durante o natal, e
é lá que o bebê nasce. “Bracelets Of Fingers”,
uma típica canção psicodélica inglesa, retrata
o jovem Sebastian. Introduzida com um irônico “love, love,
love”, a canção explica: “Existem poucas coisas
que me divertiram/ Braceletes de dedos desde que eu era um menino”,
numa clara alusão à masturbação. Em “She
Says Good Morning” o jovem Sorrow encontra o amor, de uma forma
menos individualista, entre grandes riffs dobrados de Dick Taylor. No
final a canção ganha um tom de despedida e de lembrança,
“Ela fica esperando no portão, uma imagem em minha mente”,
Afinal a guerra estava chegando e era anunciada com rufadas de bateria
e a letra surrealista de “Private Sorrow”.
A canção trata do começo e fim da guerra, contendo
no final uma narração com o nome dos mortos. Sorrow sobreviveu,
reencontrou seu amor da adolescência e se mandou pra Nova Iorque
com ela. Na América os dois estavam vivendo felizes e apaixonados
até ele resolver dar de presente um ticket para um passeio no Zepelim.
Tudo muito bonito e romântico, mas quando o balão já
estava no solo, um incêndio destruiu tudo e Sorrow nada pôde
fazer, a não ser, ver de “camarote” a morte de sua
amada. “Baloon Is Burning” é talvez a canção
mais “cinematográfica” do disco. A guitarra agoniada
e a linda melodia nos colocam no meio do fogo e de toda a tragédia.
Enquanto Phil May canta “Esse balão, queimando”, é
impossível não ficar arrepiado. É como sentir o lamento
de Sorrow na pele!
O primeiro lado do disco termina com “Death” e um culpado
Sorrow se lamentando por tudo. Uma grande interpretação
de May faz essa música ter uma apatia agonizante. Nos últimos
segundos ainda se ouve o som do fogo queimando.
Lado B
A segunda parte do disco mostra o lado mais psicodélico e viajante
da história, afinal as gravações foram feitas no
período em que todo mundo estava fazendo suas experiências
com ácido lisérgico. O Pretty Things não ia ficar
fora dessa, lógico!
Um misterioso personagem é logo apresentado. “Baron Saturday”,
um cara que irá levar os olhos de Sorrow a um passeio. May baseou-se
em coisas de vudu para criá-lo. Nessa música dá para
perceber o efeito “Abbey Road” do disco, os timbres são
idênticos a algumas canções dos Beatles. É
também a única vez que Taylor cantou uma música na
banda. O estranho Baron Saturday leva Sorrow a uma viagem aonde ele se
vê cara a cara com sua imagem e acaba entrando no seu próprio
corpo. Sorrow começa a ver todo o seu passado, quando percebe estar
num salão repleto de espelhos. A lisérgica “The Journey”
retrata essa cena mostrando fragmentos das músicas anteriores entre
sons psicodélicos.
Em outra grande interpretação de Phil May, “I See
You” mostra o final da viagem de Sorrow, “em uma rua escura
e ventilada vendo todos os rostos das pessoas que ele conheceu”.
Efeitos na voz e barulhos estranhos criam a ligação com
a instrumental “Well Of Destiny” e seu clima pinkfloydiano.
Vale lembrar que eles toparam diversas vezes, nos corredores do Abbey
Road, com Syd Barrett e cia. A pequena peça nos dá impressão
de um Sorrow quase louco e atordoado com suas lembranças. Depois
de todas a viagem e suas dolorosas recordações, Sorrow se
vê sozinho num mundo em que não pode mais confiar em ninguém.
“Trust” o confirma “enxugando as lágrimas de
olhos que não conseguem enxergar mais ninguém confiável”.
A música é de uma amargura tão bela que deixa qualquer
um emocionado.
“Old Man Going” é um proto-heavymetal com riffs demoníacos
e vocal rasgado, que traz um Sorrow envelhecido e praticamente morto por
dentro, com uma visão totalmente negativa do mundo. “Os jogos
da vida irão conduzi-lo até o seu túmulo... a casa
negra que você construiu logo desaparecerá” canta May
com uma entonação de dar inveja a qualquer Ozzy Osbourne
da vida. A canção que fecha a história nos leva até
o começo do disco, com climas acústicos quase bucólicos.
“Você pode ser a pessoa mais solitária do mundo, que
nunca será tão sozinha quanto eu”, repete May na pequena
“Loneliest Person” e mostra o fim dessa obra-prima com um
Sebastian Sorrow velho, amargurado e desiludido com todo o mundo.
S.F. Sorrow infelizmente não vendeu muita coisa, mas foi
muito bem recebido pela imprensa e pelas bandas em geral, que até
hoje elegem o disco como uma grande obra influenciadora. É inegável
que Pete Townshend pegou muita coisa para criar o seu Tommy. “It’s
A Boy” e “Amazing Journey” parecem versões alternativas
de “S.F. Sorrow Is Born” e “The Journey”, fora
toda a importância de espelhos e reflexos, tema também bastante
utilizado no disco do Who.
Outra curiosidade é a presença da guerra em todas as óperas-rock
inglesas. S.F. Sorrow, Tommy, Arthur e mais
tarde o The Wall, de alguma maneira, tratam sobre esse assunto.
O fato é que a presença paterna ou familiar deve ter atordoado
a cabeça dos jovens ingleses, já que Phil May, Ray Davies
nem Townshend participaram de batalha alguma. O fim do disco parece adiantar
o que aconteceria com diversos "freaks" dos sixties. Syd Barret
e Brian Wilson se encaixam muito bem no deprimido e solitário Sebastian
Sorrow do lado b. Seria Phil May uma espécie de profeta?
Depois do S.F. Sorrow a banda passou o ano inteiro de 69 excursionando
e preparando o disco Parachutes, que saiu em 1970. Esse disco é
considerado o “Abbey Road” dos caras e com certeza é
um dos momentos mais inspirados da carreira. Seguiram na década
de 70 lançando discos mais voltados para o hard rock e até
assinaram com o selo do Led Zeppelin, Swan Song.
Depois de passar um tempo gravando poucos discos e fazendo apresentações
esporádicas, o Pretty Things reuniu a formação da
época do S.F. Sorrow e em 98 gravou o disco Ressurection,
nada mais que o S.F. Sorrow na íntegra, regravado nos
estúdios Abbey Road e contando com a participação
especial de David Gilmour e do freak Arthur Brown. Tudo isso para celebrar
os trinta anos do lançamento do disco. Depois dessa regravação,
os Pretty Things reconquistaram algum
destaque e até hoje fazem calorosos shows pela Europa.
Nada mais justo com essa
banda que raramente é lembrada, mas que tem uma importância
enorme para a música pop de todos os tempos.
* versão revisada de artigo publicado anteriormente do e-zine
www.alucinaticos.com.br
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