STRAWBERRY ALARM CLOCK
INCENSOS, HORTELÃS... & SAMBINHAS PSICODÉLICOS!

 

 

por Leonardo Bomfim

A cena de Los Angeles pós-66 foi uma das maiores ebulições da música sixtie. Assim como San Francisco, LA era berço dos hippies mais fedorentos possíveis que se encharcavam de ácido e esqueciam a hora de voltar à realidade. Isso resultava na proliferação de bandas fraquíssimas fazendo psicodelia sem noção, o que acabava enchendo o saco e soando insuportável. Apesar disso, a cidade também revelou as bandas mais criativas daquela década nos Estados Unidos. Love, Byrds, Buffalo Springfield e o Strawberry Alarm Clock são apenas algumas delas. O SAC infelizmente pagou o preço por ter a imagem exageradamente hippie, escondendo do grande público o que possuía de melhor: a capacidade de compor e arranjar lindas melodias.


Começaram em 65 como Thee Sixpence, fazendo um som mais cru e garageiro calcado no som punk inicial do Love. Aliás, nessa época, eles chegaram a lançar vários compactos com versões da banda de Arthur Lee. Até 66 a formação variou bastante mas sempre teve como base Lee Freeman (voz e guitarra), Ed King (guitarra), Gary Lovetro (baixo), Gene Gunnels (bateria) e Mark Weitz (órgão e voz). Mas 67 estava chegando e o mundo todo começava a entrar de cabeça nos fluídos psicodélicos. Em Los Angeles então... Ali o ácido estava praticamente no ar! O Sixpence, assim como todas as bandas locais, embarcou na onda e começou a mudar radicalmente o som. O single ‘Heart Full of Rain’ já mostrava raízes melodiosas e lisérgicas que viriam a ser a cara do SAC. O segundo single dessa fase do grupo tornou-se o hino psicodélico da época: ‘Incense and Peppermints’, música que merece um parágrafo só para ela!


Hino Hippie, temática Flower Power, trilha sonora de filmes cult e uma das primeiras canções realmente psicodélicas a entrar nas paradas de sucesso. ’Incense and Peppermints’ é até hoje a primeira coisa que vem à cabeça quando qualquer um lembra do SAC. Mas espera aí, a banda não era Thee Sixpence? Pois é, além do som viajante, o nome e a imagem do grupo também precisavam entrar naquele novo mundo e os integrantes chegaram à conclusão de que Thee Sixpence não era groovy o bastante, além de ser muito comum. Trocaram então para Strawberry Alarm Clock (existe nome de banda que soa mais psicodélico do que esse??). Na segunda prensagem do hit o nome já estava alterado. Outro fato curioso cerca a história da canção, pois a voz que se ouve na gravação não é de nenhum integrante da banda e sim de um jovem amigo dos caras, de apenas 16 anos! Greg Munford tocava numa banda desconhecida chamada Shapes of Sound e sempre estava presente nos ensaios e festas promovidas pelo SAC, porém não se sabe o motivo exato pelo qual ele gravou sua voz, vai ver que todo mundo estava chapado demais pra cantar...


Com o sucesso do single, estava na hora de gravar o primeiro álbum, que ganhou o oportuno título Incense and Peppermints (lógico que incluíram o hino hippie nele). Nas gravações, dois novos e importantes integrantes entraram para a banda: o excelente baterista Randy Seol, responsável pela incrível levada “sambinha” do grupo, e o baixista George Bunnel, que viria a ser um dos principais compositores nos discos seguintes. Nas apresentações ao vivo, a banda chegava a tocar ao mesmo tempo com dois baixos, algo totalmente inusitado para a época.


O disco de estréia dos caras superou todas as expectativas, alternando os momentos melodiosos e suaves de ‘Birds In My Tree’, ‘Rainy Day Mushroom Pillow’ e ‘Strawberry Means Love’, com as loucuras mais radicais de ‘The World’s On Fire’ e ‘Lose To Live’. Depois do disco o SAC participou do alucinógeno filme Psych Out com o jovem Jack Nicholson no elenco. O SAC compôs diversos temas do filme e ainda apareceu tocando numa festa muito louca! Psych Out ajudou ainda mais a colocar o Strawberry Alarm Clock no hall das bandas mais hippies do mundo. Na mesma época do filme lançaram o segundo e melhor disco da carreira. Wake up... It´s Tomorrow é uma obra-prima, perfeita do começo ao fim, mostrando a banda na sua melhor forma tanto no lado psicodélico quanto na parte de melodias. ‘Soft Skies, No Lies’, ‘Sit With The Guru’ e ‘Pretty Song from Psych Out’ são canções de beleza singular! A doideira também não ficou de fora e aparece em ‘Curse of The Witches’ e na trilogia freak, ‘Black Butter Past, Present & Future’. Nesse disco eles desenvolveram uma identidade totalmente própria fazendo até inusitados climas de sambinhas psicodélicos. É um álbum essencial!


Com os dois discos estourados, a banda partiu em turnê com os Beach Boys e o Bufallo Springfield, o que rendeu diversas jams com o jovem guitarrista Neil Young. O SAC também participou da tour do The Who e Hermann Hermitts pela California. Em um desses shows, o baterista Randy Seol, tentando de qualquer forma superar o performático Keith Moon, ateou fogo nas próprias mãos durante os improvisos de “World Is On Fire”. Os shows do SAC eram uma loucura, com muitos efeitos e climas hipnóticos, pena que não tenha ficado nada registrado!


Mas nem tudo era paz e amor na vida do SAC e em 68 a primeira crise estava instalada. Culpa dos produtores que empurraram para a banda o letrista Roy Freeman (tema já alarmado na letra da canção ‘I Saw The Fat Man Coming’, do segundo disco), alegando que o material escrito por eles era um lixo. Bunnel e Seol não concordaram e saíram logo após a gravação do terceiro disco The World in a Seashell, no ano de 68. É um disco bastante irregular devido à crise interna e à presença não muito bem vista de Freeman, além de arranjos orquestrados bem melosos. Porém alguns momentos ainda lembram o SAC do ano anterior. ‘Sea Shell’, ‘Heated Love’ e ‘Shallow Impressions’ são belos exemplos. Depois do período turbulento em 68, a banda entrou no ano seguinte de cara nova. A entrada de Gene Gunnels (bateria) e Jimmy Pitman (guitarra e voz) deu um novo gás. Pitman inclusive passou a ser a voz principal e contribuiu com várias composições. Nessa época foi lançado o quarto e último disco do SAC, mostrando um lado mais roqueiro e menos viajante. Good Morning Starshine saiu em 69 e não foi muito bem aceito pela crítica. A mudança radical no som também não agradou muito aos antigos fãs, mas apesar de tudo, GMS é um bom disco. ’Small Package’ e ‘Hog Child’ são algumas pérolas rocks da carreira do SAC. Nesse mesmo ano a banda fez um de seus registros mais interessantes, participando do clássico filme De Volta ao Vale das Bonecas do pirado diretor Russ Meyer. A banda aparece tocando três músicas (logicamente uma delas é ‘Incense and Peppermints’) numa festinha promovida pelo empresário bizarro Z-Man Barzell. Russ Meyer gostou tanto da banda que até os chamou para tocar no seu casamento.


Incense and Peppermints &Wake Up... It´s Tomorrow


Apesar de toda essa loucura, os anos 70 chegavam e o pessoal da banda já estava de saco cheio. A psicodelia já tinha passado, as drogas lisérgicas já não eram mais novidade, as flores já estavam murchas e as hippies bonitinhas de 67 já tinham virado barangas sujas e chatas. Assim o Strawberry Alarm Clock encerrou as atividades oficialmente em 1971 lançando o estranho disco Changes, espécie de coletânea sem quase nenhum hit!


Com o fim da banda, os membros da formação clássica do SAC ficaram afastados do mundo artístico, exceto o guitarrista Ed King que participou da primeira formação do Lynyrd Skynyrd. Já na década de 80, a banda tentou fazer alguns shows comemorativos mas percebeu que a mágica dos sixties tinha ficado para trás, e nunca mais voltou a tocar. Tudo isso é dispensável, basta ouvir grandes discos como Incense and Peppermints e Wake Up... It´s Tomorrow que a magia daquela época transparece para qualquer um!


* versão revisada de artigo publicado anteriormente do e-zine www.alucinaticos.com.br

 

 
     

 

 
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