IRA!
NINGUÉM ENTENDE UM MOD!
A TRAJETÓRIA DO IRA! COMO A PRINCIPAL BANDA DO GÊNERO NO BRASIL


 

por Roberto Iwai


Era final dos anos 70 quando Marcos Valadão e Edgard Scandurra se encontravam e se trombavam no circuito de bandas independentes paulistanas em busca das novidades da mais recente ebulição sonora que ocorria no Brasil: o punk. Movidos pela vontade de banda entre eles e por essa paixão, surge em 1980 o Ira, agregando ainda Fabio Scatone na bateria, e Adilson no baixo.

Percorrendo as casas de shows tradicionais de São Paulo na década de 80, espalhavam sua voracidade sonora e seu comportamento punk nos palcos pelos quatro cantos da cidade. Mais ou menos nessa época, já em 1984, a banda registra suas primeiras composições: o compacto “Pobre Paulista / Gritos Na Multidão”, já com Charles Gavin substituindo Scatone.

Mas foi em 1985 que o Ira dá seu maior passo. Adentrando a metade da década de 80, o punk já não era o motivo maior no qual a banda fazia música. Já com sua formação clássica, Marcos “Nasi” Valadão, Edgard Scandurra, Ricardo Gaspa e André Jung registram o disco “Mudança de Comportamento”, tal qual o espelho em reflexo exato de seu título.

Era o Ira!, e sua viagem mod.


Edgard Scandurra, lá da Vila Mariana

Adotando a estética vinda de influências como The Easybeats e The Who, o quarteto assumia sua particularidade que carregam até os dias de hoje: a de ser a única banda mod da década de 80, e talvez, uma das únicas até então. Definitivamente a única até então assumida. Atravessando São Paulo em suas lambretas, andando em turma, chutando lata e versando sobre os pequenos importantes detalhes da vida e do que os cercam, o Ira! assume seu ponto de exclamação com a certeza de estarem sozinhos, mas com todo mundo.

Mudança de Comportamento foi um disco gravado em nove dias, por uma banda que já sabia exatamente o que tocar, e como tocar. No melhor espírito mod, registravam ali onze clássicos onde temas como incertezas, sorrisos, sinestesias e o gélido e fétido bom ar da cidade se misturavam com os riffs desbravadores e balanços irresistíveis.

De seu primeiro registro em LP, deixaram os clássicos "Longe de Tudo", a faixa-título, e "N. B. (Núcleo Base)", e todo o restante do disco repleto de proto-hits. "Coração" é um delicioso mod rock urgente, de letra inspirada em uma simples simbologia romântica, mas que usava como tema a juventude e a incompreensão da vida que levavam. Mesmo tema abordado, porém em enfoque menos otimista, em "Sonhar Com Quê?", onde Scandurra e Nasi se focam e focam exatamente em atos particulares, quase como fotografias, a noite de um jovem cheio de incertezas que só a ele eram peculiares.

E só ao Ira! era peculiar. Levadas contagiantes como "Por Trás de Um Sorriso" e "Ninguém Precisa da Guerra" se confundiam com um pensamento rock injustamente rotulado – até os dias de hoje – de “sincero”, “ingênuo” e “bobo”. Na época, foram vários os fatores que não fizeram o público enxergar o Ira! como uma ótima banda mod, mas o principal foi certamente a surpresa da balada "Tolices" aos olhos dos antigo público da banda, os punks. Mesmo público que rotulou a sonoridade de Mudança de Comportamento como um passo regressivo, e não qualquer outra coisa.


Nasi & Ricardo Gaspa

Mesmo com a inclusão de uma das melhores faixas da carreira do Ira!, a emblemática "Ninguém Entende Um Mod!" – com uma bela levada de guitarra de Scandurra, e maravilhosa letra – ao final do disco, parte do público não perdoou a banda pela sua nova sonoridade e comportamento. E outra parte cantarolou "Tolices" sem culpa no coração, isento de tudo.

Se a tal ideologia mod não foi compreendida em seu total significado, o mesmo não poderia se dizer das vendas de Mudança de Comportamento, que alcançou grandiosa vendagem. O que abriria um bom – e até arrogante – caminho para Vivendo e Não Aprendendo. Sim, o clássico.


André Jung

Em 1986, o Ira! lançaria a sua maior obra em meio à sua discografia. Comercial, sonora, não importava: Vivendo e Não Aprendendo existia cobrindo muitos parâmetros que obrigatoriamente o tornaria um sucesso.

E a estética mod continuava a todo vapor. Desde sua arte gráfica, repleta de fotos dos integrantes nas ruas de São Paulo, a pé ou em suas lambretas, em ternos bem cortados e em shows arrebatadores, até em seu maior hit, a velha conhecida "Envelheço Na Cidade", o simbolismo e estilo de vida ainda pairava firme e forte na banda.

"Envelheço Na Cidade" é a prova viva de que o Ira! nunca foi uma banda totalmente compreendida. Encarada por muitos como “a canção do feliz aniversário”, virou hit pela sua levada redonda para as rádios. Mas em versos da canção, como “as garotas desfilando, os rapazes a beber, já não/tenho a mesma idade, não pertenço a ninguém”, revelava pérolas em crônicas embutidas no cotidiano.

Em dez faixas, Vivendo e Não Aprendendo mostrava o Ira! expandindo seu universo sonoro. Dentro do universo mod, o Ira! se expandia para onde o termo poderia chegar e poderia proporcionar. O soul "Vitrine Viva" é o exemplo mais gritante no disco inteiro. Recheado por uma ótima linha de baixo, mescla versos totalmente temáticos – a paisagem de vitrines urbanas, cenas de violência – com um coro de repetição e esperta levada.

A perfeita "Tanto Quanto Eu", em conjunto com a urgente "Nas Ruas" (cantada por Edgard Scandurra) e o hit "Dias de Luta" revelavam uma vontade de variar as levadas rock cada vez mais. Com os belíssimos temas sobre integridade de personalidade e o tempo contado pelos dias da semana eram cada vez mais agradáveis de se ler e interpretar.

Um dos pontos altos nessa estética que o Ira! adotava no momento é a bela "Quinze Anos (Vivendo e Não Aprendendo)". Com uma letra que vai em encontro a profundos sentimentos do ser humano, desnuda a precariedade deste mesmo ser, ser inseguro e adepto a falhas e orgulho, mas que retorna sempre ao seu mais frágil período da vida, a adolescência, berço de incríveis descobertas. E sofre. É "Tolices" levada às últimas conseqüências.

As vendagens e sucesso do álbum anterior fizeram com que o Ira! fosse obrigado a incluir no segundo disco suas duas primeiras composições. E assim "Gritos Na Multidão" e "Pobre Paulista" foram incluídas, porém em versões ao vivo, dando depois argumentos para a banda de que seria impossível fazer um playback em televisão com músicas ao vivo. E deu certo.

Outro grande sucesso de Vivendo e Não Aprendendo foi o megahit "Flores em Você". Em seus poucos menos que dois minutos, coloca em prova a capacidade de Edgard Scandurra em enxergar minuciosos atos e colocá-los em tamanha emoção. E desta vez extrapolando definitivamente no campo musical, compondo uma das músicas orquestradas mais marcantes do rock nacional. Tal canção virou até tema de novela da Rede Globo, chamada “O Outro”.


Mudança de Comportamento & Vivendo e Não Aprendendo: sozinhos com o tempo

Ainda não compreendida pelo grande público, essa ideologia mod traria grandes desavenças ao Ira! neste exato ponto de sua carreira. Imersos na popularidade de que proporcionou seus dois primeiros discos, a banda se encontrava foco, assim como alvo, de todos os meios de comunicação.

Comparado aos seus compatriotas Titãs, ou a carioca Blitz, o Ira! era certamente "um poço de arrogância e audácia", comportamento mais do que normal para uma banda que não aceitava as imposições de gravadoras, e que tinha chegado até o patamar fazendo o que queriam como queriam. Vale mencionar, talvez a última banda a trilhar esse próprio caminho.

Somado às polêmicas envolvendo a banda, desde um simples ato de se negar se apresentar no Chacrinha com gorros de Papai Noel e playbacks, até boicotar a primeira edição do Hollywood Rock (isso já em 88), o Ira! era visto pela gravadora como patinho feio e encrenqueiro, por assim dizer.

Com toda essa polêmica visível, nada mais natural do que a proliferação de outras notícias escandalosas envolvendo o nome da banda. Tachados como bairristas, devido aos temas correntes envolvendo São Paulo, toda a estética urbana e mod - a cidade e seu lugar - , foram ainda também acusados no lançamento de Vivendo e Não Aprendendo, pelos versos de "Pobre Paulista", de preconceituosos e racistas.

Definitivamente nunca o Brasil iria entender e enxergar o comportamento de uma banda mod, ainda mais essa estando no topo das paradas. Por tais desentendimentos, e cansados de tudo, o Ira! se preparava para a sua mais ambiciosa cartada. O ano era 1988.


Psicoacústica

Psicoacústica foi gravado em 88 por uma banda já emocionalmente desestruturada. A visão mod já não cabia mais no cotidiano dos integrantes, que agora tinham contas a pagar e despesas a cobrir. Apontado por muitos como o disco mais ambicioso dos anos 80, Psicoacústica mistura influências mil dentro de uma ideologia paulista já bastante desgastada.

O terceiro disco do Ira! trazia oito faixas, longas e totalmente fora dos padrões de rádio da época, ainda mais se comparadas aos sucessos passados da banda. Tendo como espinha dorsal a grande inspiração no filme “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla, letras como a de "Rubro Zorro" e "Receita Pra Se Fazer Um Herói" giravam totalmente em torno do tema. Também bastante influenciados pela maconha, proporcionava a banda a experimentar levadas que até então soavam esquisitas no mundo do Ira!.

"Rubro Zorro" traz um clima totalmente faroeste, cowboy, um western de terceiro mundo. Scandurra toca um violão que dá a perfeita sensação do tema Bandido da Luz Vermelha. Mas a levada mod ainda se encontra na canção, de batida seca e vocal imponente. "Receita Pra Se Fazer Um Herói" bebe de um reggae recheado por uma letra que transmutava a conhecida poesia da banda em realidade surreal: “torna-se um homem/feito de nada como nós/em tamanho natural (...) serve-se morto”.

"Mesmo Distante" traz um clima doce e psicodélico, quase como em clima de brincadeira, que remete aos tempos do Pink Floyd de Syd Barrett, tanto em seu tema como em suas bruscas mudanças de ritmo e deslocamento de harmonia. Mas certamente a quebra de regras vem na faixa mais vibrante e agressiva do disco, simetricamente oposta sonoramente ao seu título. "Farto do Rock’n’Roll" traz uma das letras mais cruas do Ira!, e um dos riffs de guitarra mais inspirados de Edgard Scandurra. Sendo também responsável pela letra, trata aqui no tema de um tal ser desbravando um mundo musical, tendo suas preocupações acerca às suas convicções, mas caindo em lugar comum: fazendo como outros e apenas assistindo ao show. Do tal "o que fazer, o que fazer?..."

Tal crítica era relacionado a Nasi e André Jung, imersos na sonoridade que no final dos anos 80 assolava os campos musicais de São Paulo: o rap. Ironicamente, a faixa traz uma intervenção de scratch no lugar de um possível solo de guitarra.

Tamanha fascinação da dupla rendeu até influência descarada do repente, uma das vertentes musicais do qual o rap muito se assemelha sonoramente, para fazer surgir "Advogado do Diabo", composta pelos mesmos Valadão e Jung. Uma das poucas músicas sem co ou autoria de Scandurra até então.

"O Quadrophenia é um álbum duplo do The Who e a primeira vez que tive contato com ele foi bem interessante. Eu tinha 13 anos, havia sofrido um acidente grave e estava internado no hospital. Um amigo do meu irmão mais velho, a fim de me animar, colocou um gravador no quarto e me deu uma fita cassete. Eu nem conhecia aquelas bandas, mas adorei a fita. Depois que saí do hospital, tirei todas as músicas no violão. Alguns anos depois, em 1983, fui assistir o filme Quadrophenia e foi uma surpresa ótima. Eu tinha uma simpatia enorme por terninhos, bandas dos anos 60, adorava The Jam, e sempre fui ligado em gangues. O filme era bem isso: mods versus rockers. Fiquei emocionado. Mas ainda quando reconheci as músicas do álbum do Who como trilha sonora. Hoje ouço o disco com nostalgia e a última vez que assisti ao filme foi há alguns anos, dublado, na Rede Globo (Edgard Scandurra, Showbizz 178, maio 2000)

Mas o universo mod ainda não havia totalmente sido mesclado em meio a tantos jogos de música e egos. Psicoacústica traz talvez as três faixas mais pungentes no que se diz respeito ao Ira! e ao tal universo. "Poder, Sorriso, Fama" traz a elegância mod a uma guitarra totalmente transloucada e gritante. Sua letra depõe sobre a fama e a volta às origens, ora saudosa (“ando fugindo pelas ruas/mas alguém me vê na televisão/depois que deixei a minha rua/um tiro pelas costas”), ora sofrida (“estou sofrendo muito/bebendo fico sóbrio/ninguém sabe o que sinto/olho para o espelho”).

"Pegue Essa Arma" traz o segunda levada mais bela de Ricardo Gaspa, em um groove gordo e e satisfeito de baixo. Ao cair no rock, retoma a elegância e agora, frieza, ao retratar a comercialização do ser humano e o espelho do primeiro mundo, em versos afiados de natureza como “se sua roupa vale mais que a comida/se sua pose vale mais que uma vida/pegue sua arma!”.

"Manhãs de Domingo" é talvez o último suspiro do retrato de uma vida é agradável e calcada nos detalhes que fazem a mesma nos sorrir de vez em quando. A letra trata do dia mais emblemático do calendário mundial, tratando também da noite anterior a esse dia, a felicidade que te toma como um bobo, pasmo e feliz. E que tudo vale a pena. Família te espera para o tradicional almoço dominical. Com certeza, um tema corrente e belíssimo.

Mas 1988 refletia um Ira! já cansado emocionalmente, e jogando tudo para o alto. Como era de se esperar, Psicoacústica não fez metade do sucesso dos dois discos anteriores, e apenas injustamente deu argumentos para a marginalização total do Ira!, até o final dos anos 90.

 

Durante toda a década de 90, o Ira! gravou tantos e muitos outros ótimos discos, mesmo em meio à ressaca fonográfica que assolou a década, e aos desentendimentos pessoais. Entre tais discos, continuaram arrebatando a experimentação (Você Não Sabe Quem Eu Sou, 1998), mergulharam bonito no rock garageiro (7, de 1996), ainda abordaram São Paulo em grande cena e em disco temático (Meninos da Rua Paulo, 1991) tempos depois, e ainda lançou atualmente seu mais perfeito disco no trânsito entre o rock e os experimentalismos (Entre Seus Rins, 2001).

O Ira! seguiu mostrando uma clara diferenciação entre as outras bandas oriundas da década de 80 e sobreviventes nos anos 90, ousando sempre e deixando pérolas espalhadas em todos os seus discos lançados.

Presta reverência ao universo que intensamente viveu quando recria o hino mod "I Can’t Explain" do The Who (1998), revitaliza e versiona clássicos da psicodelia como "Pictures Of A Matchstick Man" ("Imagens de Você", na versão da banda), do Status Quo, e "Você Ainda Pode Sonhar", versão de "Lucy In The Sky With Diamonds" que Raulzito & Seus Panteras cometeram no final da década de 60 (ambas, 1991). Trazem ainda de volta composições de Mick Jagger e Keith Richards ("She Smiled Sweetly", 1993), The Animals ("House Of Risin’ Sun", 1996), e clássicos sessentistas brasileiros, como "Você Não Serve Pra Mim" (também 96) , de Roberto Carlos (autoria de Renato Barros), e "Minha Gente Amiga", de Ronnie Von (99).

No final da década de 90 e início de 2000, o Ira! busca e regrava composições de grandes talentos do rock do sul, atualmente uma das cenas mais produtivas e criativas do independente brasileiro. Busca em Júpiter Maçã ("Miss Lexotan 6mg Garota"), Frank Jorge ("Homem de Neanderthal") e na conhecida "Bebendo Vinho" (Wander Wildner), inspiradas composições, cujo talento de seus autores muito se assemelha à particularidade de composição do Ira!.

Além disso, muitas bandas entenderam enfim o mod, e agora perpetuam a estética e sonoridade que o Ira! ajudou a fincar. Bandas como Laboratório SP, a seminal The Charts (do atual Continental Combo Sandro Garcia), e a Relespública, que sempre cita o Ira! como principal influência sonora, despertam ainda o imaginário dos jovens pelas ruas da cidade neste começo de milênio.

Se as lambretas não mais andam pelas ruas, se os ternos bem cortados tem agora vida nova em algum brechó espalhado por São Paulo, a ideologia mod pelo Ira! nunca foi totalmente esquecida. Em ousadias e ousadias, o Ira! sempre foi, bastando ser para ultrapassar esse não-entendimento por parte do público. Nunca teve, e não tem razão agora não ser. Atos e ousadias típicas das mais sábias bandas do gênero.

Aos mais belos tempos dos que viviam e não aprendiam.

 

 
     

 

 
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