ASTRONAUTA PINGÜIM
Petiscos: Sabor Churrasco - Switched-On Bah!
(2005, Pineapple Music)

por Roberto Iwai

A ideologia dos gaúchos às vezes beira ao passado mais reluzente que o próprio presente daquela época. É sempre assim com os estilos que pegam e fogem daquela estética boba: "atualizam". O que o Weezer fez sem nem saber o que é jovem guarda, mas pegando Beatles nas alcunhas, e juntando peso e outros itens que os tornam alternativos.

Já no sul do Brasil, localizado lá em alguns pontos do mapa, há um pessoal que não quer saber de atualizar não. E quer mais é que soe autêntico mesmo. A lágrima que escorre quando se ouve, pode-se jurar também nenhuma emulação de um choro.

Pois por mais que eu não tenha vivido em 1967, transpirado os efervescentes anos dos programas musicais e festivais da TV Record, me recordo bem de uma vida que não vivi. E nela há guitarras, bateria, beat e órgãos. E quem reside nos órgãos, nesse histórico do país mais rico musicalmente, mas tão cabisbaixo e desmemorado?

Ora, Lafayette simplesmente revolucionou a jovem guarda. Até porque a jovem guarda foi uma revolução tremenda para os jovens na época. Não temos lá nossos LSD's, raves e sons eletrônicos no começo do século XXI? Não soará assim tão ingênuo para uma juventude que caminha com tapadeiras de olhares de burros, com o mais "moderno" em forma de cenoura?

Não seja prepotente, é claro que tudo vai se tornar obsoleto à medida que o tempo passa. E é por isso que 1969 se torna tão atraente em 2004. Afinal, o que é ser moderno? Com timbres assim, eu quero morar em Porto Alegre. Jesus Voltará, e lá ele vai estar. Astronauta Pingüim e seu Petiscos: Sabor Churrasco - Switched-On Bah! fez tudo isso. É lágrima? É timbre? É órgão choroso? Sim, são todos por todos os lados.

Quem imagina o ser que vivesse nos anos 60. Que nunca imaginaria um dia fosse ouvir uma versão instrumental de uma canção que estava presente em seu recinto todos os dias, que cantarolava as letras e não concebia nem por decreto outra forma mais perfeita do formato som em seus ouvidos, ver de repente Lafayette transmutar a música em bailes fervorosos por toda a sociedade da época?
Assim é o mesmo com Astronauta Pingüim, versão 2004. Eu, ser que vivo fisicamente no ano 2000, que ouço algumas das músicas presentes no disquinho de estréia do tecladista no recinto no qual estou instalado, com emoção de não poder mais, presenciar uma total revitalização do estilo Lafayette de soar, de crescer e boquiabertar.

Em minha mente, já no imaginário pontuante, são os órgãos, vocoders e moogs que Astronauta usa, em substituição à voz na original canção. Versões baile de hinos como "Um Lugar do Caralho", de Júpiter Maçã, ou "Nunca Diga", da Graforréia Xilarmônica, parecem ter sido tiradas de alguma das antigas coletâneas de hit parade e canções de ternura de amor e rouquidão com catarro nas goelas. É quase terapêutico degustar as transformações que as canções sofreram, ver cada detalhe, os sons peculiares que a banda que o acompanha, e ele próprio, escolheram para identificar uma composição de terceiro em uma interpretação particular de música.
A versão samba de "Epilético" de Doiseu Mimdoisema equivale ao contrário à linda versão de "London, London" (de Caetano Veloso) que Lafayette concebeu nos anos 70. Muta para algo diferente, mas sem perder a postura de dignidade sonora. E no mais, belas harmonias jovem guarda, que fizeram de "Melissa" (da Bidê ou Balde) ou de "Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo" (de Wander Wildner) verdadeiras experimentações dentro daquilo que agrada aos ouvidos mais atentos em forma de refrão. Astronauta transforma em linha sonora hi-fi.

O que é ser moderno? Astronauta Pingüim eu não sei. Só espero agora uma série de Petiscos: Sabor Churrasco, em outros mais volumes. Sem ir na rasteira ou comparação à Lafayette todo o tempo, mas o delicioso disso tudo é o passado em si, que nos volta e nos morde no tendão. E nos faz querer mais.


* originalmente publicado em www.simplicissimo.com.br


 
     

 

 
  2005. Freakium! e-zine. Todos os direitos reservados.