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WOODSTOCK EM PORTO ALEGRE
por Rogério Ratner
"É
Lee, é calça Lee, é Lee, é calça
Lee..." (baixa o som do jingle, entra a voz com eco, com muita
energia e rapidez na dicção): "na superquente Continental,
o novo movimento, o som daqui, já gravado no estúdio 2
da superquente, especial para Mr. Lee em concerto, isso é viver
a vida de Lee, é você estar ligado na Continental, ao natural,
curtindo o que os nossos têm pra nos dizer, gente daqui, o novo
movimento, a força do som local (...)"; "superquente
Continental, fique parado aí xará, é gente nossa,
som feito aqui no Porto, aqui na superquente com Mr. Lee, os melhores
da música do sul do país, o som que levou mais de cinco
mil pessoas para o Araújo Viana, pra curtir o Concerto número
II, você está sintonizando, curtindo a superquente (...)";
"Lee, a proposição de uma força nova, uma
coisa daqui, com a força total da superquente Continental (...)".
("Living the life of Lee, living the life of Lee...", baixa
o jingle, entra a voz): "Vivendo a vida de Lee, o importante é
você olhar pra uma Lee e saber que é Lee, Mr. Lee em concerto,
pra você ficar por dentro do que está acontecendo de bom,
um trabalho de estrutura, pra você curtir o som local, valorizar
a nossa música, saca o som, o ritmo autêntico, o recado
natural, com a liberdade de Lee, saca a força desta guitarra
(...)"; "isso é viver a vida de Lee, é você
estar ligado na Continental, ao natural, gente daqui, do novo
movimento, a força do som local, um lançamento de Mr.
Lee para todo o sul do país, Mr. Lee em concerto, dando força
para os novos talentos, saca o som, o recado (...); "pra qualquer
hora, qualquer lugar, em qualquer tempo, Lee jeans, veio de muito, muito
longe, andou muita estrada pra ficar junto de você, jeans, a roupa
que dá consistência ao corpo e "guenta" o tirão,
pra você curtir a total liberdade num mundo todo azul, prestigie
e valorize os nossos músicos, "vamo" curtir o recado,
com Mr. Lee em Concerto, dando força para os novos talentos,
a onda 1120 superquente Continental, com 20 Kilowatts transistorizados..." Quem viveu
na década de 70 em Porto Alegre e era jovem - ou criança,
como eu, que tinha por volta de dez anos, à época - certamente
nunca mais se esqueceu da voz e da animação incontrolável
do Mr. Lee, captada em nossos incipientes radinhos de pilha, ou então
nos velhos rádios e eletrolas dos "coroas". Mr.
Lee - personagem hoje mítico no imaginário das novas gerações
do "som local" e na lembrança de seus contemporâneos
setentistas, que a princípio deveria corresponder a um cowboy
americano, mas que aos poucos foi se transmutando em um legítimo
"magro do Bomfa" (O Bomfim é o bairro onde aconteceram
alguns dos principais agitos artísticos e musicais dos anos 60
em diante em Porto Alegre, e está intimamente ligado, enquanto
cenário, ao rock e à música popular feitos na capital
gaúcha), encarnado de corpo e alma pelo genial radialista Júlio
Fürst, na igualmente espetacular e revolucionária Rádio
Continental AM, emissora pertencente ao Sistema Globo de Rádio.
Analisando-se
o fenômeno em que se constituiu esta rádio - e sem embargo
quanto a todos os seus inegáveis méritos e o papel de
vanguarda em diversos aspectos, como já assinalado -, observa-se
que o trabalho de Júlio Fürst na Continental indiscutivelmente
se revestiu de um caráter único, não apenas pelo
estilo próprio de apresentar o seu programa, mas também
pela proposta que destemidamente bancou junto aos diretores da emissora,
que trouxe conseqüências espetaculares para o desenvolvimento
e a divulgação do rock gaúcho e da MPB feita no
sul.
A proposta
- que inicialmente consistiu na oportunidade de os músicos registrarem
de forma semi-profissional seus trabalhos, gravando suas canções
nos estúdios da própria rádio, numa época
em que Porto Alegre não era dotada de estúdios efetivamente
profissionais, e, melhor ainda, com a veiculação iterativa
e efusiva das gravações no programa do Mr. Lee, e, posteriormente,
inclusive na programação normal da rádio - desembocou
em um verdadeiro movimento musical sem precedentes na cena portoalegrense,
que não somente ganhou o Estado, como inclusive marcou presença
no Paraná, apresentando o trabalho dos gaúchos aos paranaenses,
e vice-versa. Foram shows e caravanas de músicos pelo sul do
país, com auditórios lotados e, não raro, tumultos
e fãs histérica(o)s. Quando os artistas apresentavam-se
nos shows denominados "Mr. Lee in Concert", subiam
ao palco não raro tendo a platéia "na mão",
uma vez que o público jovem já conhecia as músicas
por ouvi-las reiteradamente antes na rádio, não raramente
cantando junto as canções. Nestes shows - e nos shows
individuais e coletivos que os artistas passaram a fazer a partir daí
- havia uma total identidade entre os espectadores e os artistas, assim
como eles, jovens típicos da classe média gaúcha
(e de outras classes também). Geralmente os artistas e
o público estavam imbuídos das mensagens de "paz
e amor", de sonhos e utopias, nos rastros do movimento hippie e
de outras viagens típicas dos anos 70. Além disso, as
apresentações eram recheadas de toques sobre a "liberdade"
e o vazio do mundo do consumo, mensagens que, diga-se de passagem, tinham
que ser muito bem metaforizadas para conseguir "passar" pela
censura. Os shows, guardadas as proporções, eram traduções
miniaturizadas de Woodstock, festival americano no qual Júlio
procurou se inspirar, e em vários aspectos eram mesmo correlatos
deste. É claro que não tinham e nem podiam contar com
toda a estrutura, a "piração" e liberdade vigorantes
nos EUA dos 60, afinal ainda estávamos em plena ditadura, e a
própria reunião de um grande número de jovens em
um local fechado já era muito mal vista pelos censores, que exigiam
que o radialista e os músicos lhe submetessem previamente o conteúdo
do que iam falar ao público. Mas com certeza, em termos
de número de atrações, qualidade, variedade, duração
dos shows (o show no auditório Araújo Vianna durou uma
eternidade) e animação, havia sim semelhança com
o grande festival americano, guardadas as proporções,
enfatiza-se. É preciso destacar também que, naquela época,
meados dos anos 70, em que reinavam soberanos os vinis, os discos independentes
eram raríssimos, limitando-se a eventuais e bissextas "matérias
pagas" de algum "incauto" ou "milionário",
de forma que o esquema do Mr. Lee proporcionou que artistas amadores
(em termos profissionais, não em questão de qualidade
musical) e independentes pudessem registrar o seu som e divulgar de
forma totalmente gratuita o seu trabalho, sem qualquer esquema de jabá
ou coisa que o valha, muito ao contrário. Pra não
fugir da regra, tudo isto somente aconteceu porque na hora certa estava
no local certo a pessoa certa, com a atitude certa. Sem dúvida,
se não fosse a coragem pessoal do Júlio Fürst, então
no início de sua promissora carreira profissional de radialista
e apresentador (a que, após este ciclo, deu continuidade, já
despido do personagem, mas de forma não menos brilhante, na própria
Continental e em diversas FMs da cidade, sendo que atualmente desempenha
na Rádio Itapema FM), nada disso teria acontecido. É preciso
lembrar que os fatos a que fazemos alusão ocorreram num cenário
em que não havia significativas apostas em artistas jovens locais
por parte da mídia - com raras exceções de incentivadores,
tais como o grande radialista Glênio Reis, Pedrinho Sirótsky
e o seu Transassom, bem como o suporte dado pela mídia escrita,
especialmente por Juarez Fonseca, Maria Wagner, Osvil Lopes e Nei Gastal
-. O contexto do mercado musical gaúcho era tal que os talentos
surgidos inevitavelmente tinham que migrar para o centro do país
para obter maior projeção e o merecido reconhecimento,
sem que gozassem ainda de um ilimitado prestígio por aqui, tal
como ocorreu nos anos 60 com Elis Regina e com o Liverpool (banda de
rock tropicalista que na década seguinte deu base ao também
lendário Bixo da Seda). E é justamente por conta desta
realidade local, que a postura que Júlio decidiu abraçar
com unhas e dentes se afigurava então uma incógnita, e
se apresentava virtualmente temerária, não apenas comercialmente
para a Rádio Continental, mas inclusive para o próprio
futuro profissional do radialista. Com efeito, não havia
muita referência acerca da viabilidade comercial desta proposta
inovadora, à época, mas é indubitável hoje
que, se não fosse pelo pioneirismo de Júlio e dos diretores
da rádio, que respaldaram a sua idéia, certamente o mercado
local de música em Porto Alegre não seria o que depois
veio a ser, e tampouco o que é hoje. E o que chama mais atenção,
e que nos revela que a coragem foi ainda maior do que se poderia inicialmente
supor, é a extrema qualidade dos trabalhos veiculados,
o que indica que a diretriz era no sentido de se promover um verdadeiro
nivelamento "por cima" junto ao público. De fato,
Júlio não "facilitava" para o público,
não nivelava "por baixo", não "empurrava"
músicas fracas e escancaradamente comerciais "goela a baixo",
em busca de maior penetração junto à audiência.
Ao contrário, os trabalhos musicais que o Mr. Lee apoiava não
ficavam em nada a dever em relação ao que era produzido
de melhor, à época, no resto do país, em termos
de MPB, Pop e Rock. Júlio, com sua audácia e originalidade,
demonstrou que era (e é) possível sim veicular música
jovem de qualidade feita em Porto Alegre e obter com isso respaldo popular
e resultados comerciais em termos de faturamento da emissora. Não seria arriscado dizer que possivelmente muitos de nós hoje não conheceríamos os excelentes músicos que afloraram daquela geração portoalegrense e gaúcha, que Júlio catapultou em seu programa e nos shows que promovia. Alguns destes artistas, se não fosse a ousadia do seu "empurrão" inicial, talvez não se tornassem tão famosos nacionalmente no futuro, tais como Kleiton e Kledir (então membros dos Almôndegas), Hermes Aquino (é, aquele mesmo da Nuvem Passageira) e Joe (roqueiro que começou pela MPB, vencendo uma das linhas da Califórnia da Canção, festival de música regionalista gaúcha, como Zezinho Athanásio, depois transmutando-se em "Joe Euthanásia" - observação: não chegou a participar de show do Mr. Lee, mas era rodado no programa), e Mauro Kwitko (autor de algumas das pérolas do repertório de Ney Matogrosso em sua carreira solo). Além, obviamente, talvez não viessem a obter projeção tantos outros nomes importantes que surgiram naquele período, tais como Fernando Ribeiro, Gilberto Travi, Inconsciente Coletivo, Nelson Coelho de Castro, e muitos mais. Mas não apenas isso, se não tivesse acontecido o movimento capitaneado pelo Mr. Lee -naqueles frenéticos dois anos aproximadamente em que o programa foi ao ar, do meio para o fim da década de 70-, não seria delírio pensar que muitos outros trabalhos importantes como os de Nei Lisboa, Bebeto Alves, Gelson Oliveira, Totonho Villeroy, Vitor Ramil, Júlio Reny, Jimi Joe, Wander Wildner, Frank Jorge - ou seja, um espectro que abrange o próprio Rock Gaúcho dos Anos 80, que estourou Brasil afora -, talvez não houvessem obtido tanta repercussão no futuro. Ocorre que vários dos radialistas importantes surgidos na década seguinte (a grande maioria inclusive hoje ainda na "ativa"), que deram o "empurrão" inicial necessário para impulsionar as carreiras destes músicos, eram fãs dos programas veiculados na Continental, e foram influenciados de alguma maneira pelo "modelo" do programa do Mister Lee, adotando a mesma postura de divulgar e apoiar valores locais novos em suas respectivas rádios FM. Pode-se rastrear a influência da Continental AM, ainda que de forma reflexa, na formatação das rádios Ipanema FM, Atlântida FM, Unisinos FM (notadamente em sua versão inicial, mesmo porque o seu criador assim o declarava), Band FM (o manager Kamarão também reconhece a influência), Gaúcha FM (atualmente Itapema), Pop Rock e FM Cultura (especialmente na época em que Zé Flávio foi o Diretor de Programação). Ou seja, nas principais estações de música jovem, rock e mpb da capital gaúcha. Seguem abaixo alguns dos trabalhos e artistas veiculados pelo Mister Lee e pela Rádio Continental AM nos anos 70 ligados ao rock (ou ao pop rock, ou à MPB mais ligada ao pop). Não é ocioso registrar que, em entrevista pessoal que Júlio Fürst me concedeu, perguntei-lhe porque o Bixo da Seda, então o principal nome do Rock Gaúcho, não fez parte do "circo" do Mr. Lee. Segundo Júlio, isso deveu-se ao fato de que, embora tenha feito o convite ao empresário da banda, o mesmo pediu uma alta soma à guisa de cachê, o que a produção não tinha condições de cobrir, tendo em vista que os valores alcançados pelo patrocinador mal suportavam os custos de produção, sendo que os artistas (não raro dez ou doze bandas por evento) rateavam apenas o que sobrava, após o abatimento dos gastos, da renda da bilheteria.
- Bobo da Corte: na época do Mr. Lee, a banda tinha na formação Zé Vicente Brizola (filho do próprio e fundador do Bixo da Seda), Gatinha (bateria, posteriormente atuou no Saracura em sua fase inicial), Chaminé (baixo, depois Saracura) e Otavinho (guitarra). Fughetti Luz chegou a participar de uma das formações desta banda, antes de entrar para o Bixo. Rock direto levemente hard, numa levada bem juvenil, sendo de destacar "Genial Colegial". - Almôndegas: Banda seminal da música gaúcha dos anos 70, da qual participavam Kleiton e Kledir, e, ainda, Quico Castro Neves, Gilnei Silveira e Pery Souza. Depois, saíram os três últimos e entraram Zé Flávio, João Baptista e no finzinho (79) Fernando Pesão, este na bateria. Transitava pelo rock, bossa nova, milongas, temas regionais do Sul, Mpb e o que mais pintasse, com ótimas letras. Destaque para a Canção da Meia-Noite, que foi trilha da novela Saramandaia da Rede Globo, e Rock e sombra fresca no Quintal (ambas do genial guitarrista Zé Flávio). - Hallai-Hallai: banda de country/folk rock, num estilo bem acústico, fazia um som muito legal, contava com Necão e Paulinho, entre outros membros que foram se revezando, sendo que em 1987, com Jorge Vargas no baixo, gravou um disco pela gravadora 3M, intitulando-se apenas como Hallai. Em destaque, as músicas "Cowboy" e "Quando viajar pro Norte" (esta de Fernando Ribeiro).
- Zé Flávio e o Mantra (posteriormente Mantra Jazz Rock circus): Banda capitaneada pelo guitarrista Zé Flávio, o qual, antes de monta-la, participou da banda-show Em palpos de Aranha, que também chegou a se apresentar em show do Mr. Lee (a Em palpos era Zé, Cláudio Levitan, Graça Magliani, Giba-Giba e Néri). O Mantra era formado ainda por Inácio (baixo), Fernando Pesão (bateria, também da banda instrumental Zacarias, que participou do Mr. Lee, posteriormente integrante dos Almôndegas, Saracura e atualmente nos Papas da Língua), e Jakka (percussão). Transitando entre o rock, o blues, a mpb, o tango, entre outras milongas, sempre com uma pitada "latina" a la Carlos Santana, fazia um som bem lisérgico e com muita energia. Destaque para "Dói em mim" e "A Margarida do Brejo". A banda terminou quando Zé foi convidado para integrar os Almôndegas em 77, mudando-se para o Rio de Janeiro. - Élbia: cantora que fez parcerias com o jornalista, radialista e músico Jimi Joe, apresentou-se no último show do Mr. Lee, realizado no Teatro Leopoldina, em 76, tinha uma música maravilhosa, que não deixava nada a desejar em relação à Rita Lee da fase Tutty Frutti, chamada "Como meu quociente de pureza se manifestou diante da Sociedade". - Gilberto Travi e o Cálculo IV: MPB com pitadas de Jazz e blues, com letras inteligentes e provocativas, nas quais eram utilizadas muitas das gírias dos anos 70, com um especial sotaque portoalegrense. Participou em todos os shows do Mr. Lee. Gilberto chegou a ser convidado por Liminha para gravar um compacto pela Warner, que havia se separado da Gravadora Continental, na época, e estava criando o seu cast, o que só não rolou em face da falta de garantias financeiras mais sólidas, além da exigência de que abandonasse a banda que sempre o acompanhou. Posteriormente, junto com o próprio Júlio Fürst, com Beto Roncaferro, e com João Antônio, formou os Discocuecas, banda impagável de "gozação" e "tiração de sarro", na qual restou muito bem canalizada a face humorística que Gilberto também explora como compositor e performer. Em sua faceta "séria" destaca-se, no repertório de "Gilberto Travi e o Cálculo IV", "Poluição" e "Pretensão".
- Hermes Aquino: sensacional cantor e compositor, traçava o que viesse, do blues/rock à guarânia. Em sua fase tropicalista, nos anos 60, foi pra Sampa e orbitou em torno dos poetas concretistas, junto com sua prima Laís Marques e com Carlinhos Hartlieb, fechando parcerias com Tom Zé e o grupo o Bando. Depois voltou para o Sul e foi um dos principais nomes dos shows do Mr. Lee. Em face desta visibilidade, gravou pela Tapecar as músicas Nuvem Passageira e Matchu Pitchu, sendo que a primeira foi trilha da novela Casarão, primeiro lugar nas paradas de sucesso nacionais. Desentendendo-se posteriormente com a gravadora Capitol, que lançou seu segundo LP, recolhendo-se infelizmente em ostracismo em sua casa em Porto Alegre, o que vigora até hoje, para a tristeza de seus fãs.
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