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VAMPYROS LESBOS
po Leonardo Bomfim
Na segunda metade dos sixties, a onda era a psicodelia. O que em primeira instância surgiu como uma febre musical, acabou contaminando também outros corpos como a literatura, as artes plásticas e é claro, o cinema. De Roger Corman a Antonioni, muita gente experimentou em seus filmes os fluídos psicodélicos. O foco principal surgiu na Califórnia, totalmente sintonizado com as loucuras flower power das cenas hippies de L.A e San Francisco, revelando uma penca de filmes do naipe de The Trip, Psych Out, Riot On Sunset Strip, Acid Eaters e o famigerado Head dos Monkees... Outros cineastas também embarcaram na onda. O rei dos peitos Russ Meyer fez o seu épico psicodélico “De Volta ao Vale das Bonecas”, Michelangelo Antonioni deu um toque lisérgico a Cortázar em “Blow Up” e depois radicalizou de vez em “Zabriskie Point”. Algumas obras menos gabaritadas também se destacaram na época, entre elas “More” de Barbet Schroeder (trilha do Pink Floyd), “Wonderwall” de Joe Massot (trilha de George Harrison e sorrisos de Jane Birkin), “Petulia”, de Richard Lester e o italiano “Acid- Delirio dei Sensi” de Giuseppe Scotese. Até o Brasil caiu na onda. José Mojica Marins fez o antológico “O Ritual dos Sádicos” e José Carlos Bini surgiu com o hiponga “Geração Bendita”.
No entanto, foi o espanhol Jess Franco que conseguiu fazer um cinema psicodélico de uma forma completamente diferente, fugindo das relações óbvias com drogas, hippies e afins. Fica difícil analisar a obra de Franco como um todo, pois o figuraça fez quase 80 filmes, apontando para várias direções. Há vampiros, serial killers, Fu Manchu, WIP´s (filmes de mulheres prisioneiras), satanismo, dramas... Porém, os momentos mais marcantes de sua filmografia foram os que ele conseguiu dosar a medida certa entre horror, erotismo e psicodelia. Os maiores hits são Succubus (1967), Venus In Furs (1969) e a obra mais cultuada de sua carreira: Vampyros Lesbos, de 1970. Estes filmes caminhavam em uma direção oposta à maioria das obras psicodélicas. As histórias se passavam em lugares como Istambul e Rio de Janeiro, muito distantes da acidez da Swingin London ou da Sunset Strip. Pode-se dizer que o cara inventou uma própria linguagem psicodélica no cinema. E o que faz de Vampyros Lesbos uma obra tão cultuada? Alguns fatores ajudam. Tá certo que as cenas de lesbianismo do filme não são exclusividade (muito pelo contrário!) na carreira de Jess Franco, mas nele a relação entre as duas protagonistas é explorada de uma forma bem interessante. A moça que aparece em um primeiro momento como dominadora, com o desenrolar da trama, sugere estar dominada e completamente encantada por sua “vítima”. A história do filme revela uma advogada, interpetada por Ewa Stroemberg, dividida entre o prazer e o desespero em seus pesadelos. Ao mesmo tempo em que fica aterrorizada com a presença de uma mulher enigmática, ela sente algo tão forte que a leva ao orgasmo diversas vezes. Não disseram já que medo e tesão caminham sempre de mãos dadas? Pois é, essa é a dupla favorita de Jess Franco. A moça acaba conhecendo a assustadora mulher de seus sonhos e descobre que ela é herdeira do Drácula. A trama foi baseada no conto “o convidado de Drácula” de Bram Stocker.
Vampyros Lesbos acabou mais conhecido por sua trilha sonora do que pelo próprio filme. O cd é um grande sucesso, enquanto a obra ainda permanece um pouco restrita aos seguidores do gênero. Pudera, a primeira seqüência, ainda nos créditos, com uma voz modulada, soando como a intro do disco The Piper At The Gates of Dawn do Pink Floyd, já deixa claro que aquilo é coisa fina. E o que dizer da performance pra lá de sexy da vampira sob um órgão dramático nos primeiros minutos? A cena antológica é o cartão de visita do filme. Ali, o espectador percebe (de verdade!) que a protagonista (não só ela!) terá alguma ligação forte com a moça. A vampira
sensual é interpretada pela espetacular Soledad Miranda, uma
das grandes musas do exploitation de todos os tempos. As hipnóticas
cenas em que ela seduz a sua vítima são um marco do gênero.
Infelizmente, a atriz morreu poucos meses após as gravações
de Vampyros Lesbos, interrompendo uma carreira que prometia bastante.
Apoiada pela música e presença hipnótica de Soledad Mirada, a psicodelia de Jess Franco ganha ainda mais força quando sua câmera (em uma fotografia esplendorosa) desfila lenta e repetidamente pelas imagens simbolistas. Há um escorpião; claramente representando a sedutora vampira, e uma mariposa errante; a sua presa assustada. Também surgem pipas, barcos e o belo mar de Istambul. Aliás, os takes de praias e locais costeiros são um show à parte.
Para quem quer assistir a filmes psicodélicos totalmente autorais, com fortes doses de erotismo e horror ou para quem quer assistir a filmes eróticos totalmente autorais, com altas doses de psicodelia e horror ou para quem quer assistir a filmes de horror totalmente autorais, com altas doses de erotismo e psicodelia, fica aqui a dica: vá atrás de Jess Franco!
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