SOM IMAGINÁRIO
GOOD TRIP GARANTIDA!
por Ricardo Schott
DiscotecaBásica
O que você
apostaria numa banda psicodélica formada por membros do grupo
que acompanhava Milton Nascimento no fim dos anos 60? Pode apostar alto:
os três únicos discos lançados pelo Som Imaginário
(cujos músicos também acompanharam Lô Borges, Beto
Guedes, Erasmo Carlos, Gonzaguinha e outros) são good trips garantidas.
O primeiro, em especial, trazia um som mais pop, que misturava Beatles,
psicodelia, rock progressivo, hippismo explícito e praticamente
nada de MPB - destacando a criatividade de Frederyko, um dos melhores
e menos reconhecidos guitarristas do Brasil, hoje sumido da mídia.
A formação que gravou Som Imaginário foi surgindo
aos poucos, no fim dos anos 60. Wagner Tiso, que acompanhava Milton
Nascimento desde o início de carreira (chegaram a montar, na
adolescência, um conjunto de jazz chamado W Boys, graças
à predominância na banda de rapazes com a inicial W no
nome - Milton, que era o baixista, chegou a trocar seu nome para Wilton)
se juntou a alguns músicos que tocavam com ele na noite carioca,
como o baterista Robertinho Silva e o baixista Luiz Alves, e acabaram
formando uma banda para tocar com o cantor mineiro. Antes disso, boa
parte da formação do Som Imaginário podia ser encontrada
no grupo de bailes Impacto 8, que tinha, entre outros, Robertinho e
Frederyko. A banda não deu muito certo - Raul de Souza, trombonista
e, em tese, líder do Impacto 8, desistiu do grupo após
um show num Clube Militar em que todos os músicos simplesmente
"esqueceram" de animar o baile para improvisar no palco.

Já contando com Wagner Tiso, Luiz Alves e Robertinho Silva, o
Som Imaginário logo admitiria Frederyko, o percussionista Laudir
de Oliveira (que não ficaria na banda) e mais uma dupla de compositores
que também se destacaria no álbum de estréia: Zé
Rodrix (órgão) e Tavito (guitarra-base e violão
de 12 cordas). O grupo gravaria o LP de 1970 de Milton Nascimento e
logo entraria em estúdio para registrar Som Imaginário,
um dos mais interessantes lançamentos da música psicodélica
brasileira. O disco tinha muito menos influências de MPB do que
o pedigree dos músicos poderia fazer supor - mas havia a presença
de Milton, fazendo alguns vocais (não creditados) e cedendo o
instrumental prog mineiro "Tema dos deuses", sem contar a
latinidade que aparecia em algumas canções assinadas por
Zé Rodrix, como a ruidosa "Morse" e a doidaralhaça
"Super-God", com sua letra psicodélica e contra-cultural.
Todas as faixas eram preenchidas pela fuzz-guitar de Frederyko, que
ainda contribuiu com dois dos momentos mais hippies do disco, a bela
"Sábado" (gravada nos anos 80 pelo - veja só
- Roupa Nova) e a balada anarquista "Nepal", gravada em clima
de zoação no estúdio.
O maior sucesso do disco acabou sendo "Feira moderna", parceria
de Beto Guedes, Lô Borges e Fernando Brant, gravada pela banda
numa versão crua, cheia de riffs de órgão - é
aquela mesma música que você conhece da versão de
Beto Guedes no disco Amor de índio, de 1978 (e regravada também
pelos Paralamas do Sucesso nos anos 90). Zé Rodrix, que praticamente
liderava o grupo no disco e fazia quase todos os vocais, prosseguia
sua viagem pop e lisérgica em faixas como "Make believe
waltz" (mesclando valsa, rock e country), a agressiva "Hey
man" (espalhando brasa para a Copa de 70 e a ditadura nos versos:
"você precisava da taça de ouro/você precisava
beber nessa taça/que você pagou com o sangue que nela derreteu.../só
que nesse instante você foi feliz/você é feliz quando
deixam") e o hino psicodélico "Poison", com letra
lembrando Timothy Leary e os Beatles de "Tomorrow never knows"
("I always get the poison that I need to be alive, to see and sing/so
poison me to get my mind way out/my mind way in").

Formado por músicos bastante requisitados - até hoje,
aliás - o Som Imaginário se dividia entre a banda e vários
trabalhos para outros artistas. Com o tempo o grupo foi perdendo integrantes.
Zé Rodrix logo sairia da banda para se juntar a Sá &
Guarabyra e gravar dois discos não menos clássicos, além
do solo 1º acto, de 1973 (também pela Odeon). O segundo
disco do Som Imaginário (1971), também homônimo,
trazia Frederyko na liderança, compondo uma série de faixas
anárquicas (como "Cenouras" e a engraçada "Salvação
pela macrobiótica"), além do tema "A nova estrela",
dele e de Wagner Tiso. E é a sonoridade de Wagner que domina
Matança do porco, disco de 1972 da banda, mais chegado ao estilo
que marcaria os trabalhos solo do tecladista. Com três discos
bastante diferentes uns dos outros - Milagre dos peixes ao vivo, disco
de Milton Nascimento lançado em 1975, pode ser considerado o
quarto LP do grupo, por ter sido creditado a eles e ao cantor - o Som
Imaginário chegou a um resultado que não permitia comparações
com praticamente nenhuma banda nacional ou internacional. Pena que tenha
durado tão pouco.