|
|
THEIR SATANIC MAJESTIES
REQUEST
por Ricardo Schott
Ê, DOIDEIRA.... Por volta de 1967/68, todo mundo queria ser psicodélico, de Beatles a Mutantes, passando por Ronnie Von. Os Beatles foram preparando o caminho para a invasão do ácido no café da manhã com o discos Rubber soul e Revolver. A síndrome de Sgt.Pepper´s... (ou seja: de fazer obras conceituais, grandes e por vezes, complexas) pegou desde bandas pouco conhecidas como Pretty Things até popstars como The Who (que jogaram tudo para o ar em discos como A Quick One e The Who Sell Out) e Kinks. Isso para ficar nos que pegaram o bonde andando: na mesma época, pintavam Grateful Dead, Jefferson Airplane, Blues Magoos, Byrds, Jimi Hendrix Experience e outros que já vinham para mostrar as maravilhas dos tais "estados alterados da mente". Os Stones, casca-grossa demais para se ligarem em paz & amor, iriam preferir outros tipos de drogas, mais fortes (Keith Richards iniciou um namoro com a cocaína e logo estaria pegando Mme.Heroína) e, como boa banda de blues que eram, prefeririam cair na sacanagem e no amor livre - e no caso de Brian e Keith, na vida bandida que o uso de drogas dava. Em 67/68, os caras estavam no ápice da porra-louquice, com Mick Jagger pegando a então esposa de Keith, Keith pegando a então esposa do falecido Brian Jones, Bill Wyman traçando fâs (ele jura até hoje que comeu quase mil mulheres) e Charlie Watts, casadão na dele - ele jura que nunca pegou nenhuma tiete. Brian, doidão, era a imagem do hedonismo que cercava a banda: curtia lesbianismo, sexo grupal, drogas aos montes, bebidas e parecia um fóssil humano, graças aos abuso
ANTES: O Revolver dos Stones havia sido o LP Between the Buttons, de 1967, que já mostrava uma grande variedade de sons sendo experimentada pela banda - graças à inventividade de Brian Jones e ao progresso de Keith Richards como guitarrista e criador de riffs. Havia espaço para skiffle ("Something happened to me yesterday"), jazz no estilo Spike Jonze ("Cool, calm and colected"), rock´n roll meio Elvis meio Jerry Lee Lewis ("Miss Amanda Jones"), pop-rock barroco ("Ruby tuesday"), country ("Who´s been sleeping here?"), tablas indianas ("All sold out") e, claro, para o bom e velho rock do grupo ("Let´s spend the night together", "Complicated", "Connection"). Paralelamente a isso, a banda sofria nos bastidores. O ácido tinha batido de vez na cultura e os Stones não deixariam de experimentar a novidade. Mas quem fica mesmo obcecado pelo bagulho é o guitarrista-problema Brian Jones. Brian, cujo ego já estava no pé - graças às maquinações do produtor/empresário Andrew Loog Oldham para supervalorizar a liderança de Mick e Keith sobre a banda que o próprio Jones havia criado - pegava pesado nas drogas e chegou a dar entrevistas totalmente alucinado, admitindo o uso de LSD e outras substâncias. O relacionamento entre Mick e Keith também já não andava muito legal. A polícia começou a correr atrás da banda, os Stones passaram a ser perseguidos pela espionagem do governo da Inglaterra... Até a política, que anteriormente nada tinha a ver com a história da banda, começa a aparecer levemente em entrevistas de Mick, Biran e Keith. Realmente alguma coisa estava mudando. DURANTE: o lançamento do disco Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, mexe com a cabeça de todo mundo, especialmente de Mick Jagger, já meio de saco cheio de ver que os Stones freqüentavam mais as colunas sociais e policiais do que os cadernos de cultura - Jagger chegou a declarar que "o R&B está morto e psicodelia é o que o povo quer". Brian, por sua vez, apesar de adorar qualquer tipo de drogas, detestava sons psicodélicos e se emputecia só de pensar na hipótese da banda gravar um disco no estilo. O grupo começa então a trabalhar num disco que, inicialmente, se chamaria Her Satanic Majesty - uma afronta à Rainha da Inglaterra (Her Brittanic Majesty), que logo seria censurada pela gravadora. Mas logo as gravações teriam que ser suspensas por conta do julgamento de Mick, Keith e Marianne Faithfull: uma batida policial na casa de Keith, meses antes, encontraria drogas ilegais e remédios comuns que, apenas por conterem anfetaminas em sua fórmula, seriam considerados ilícitos - o que só aumentaria a imagem de forçação de barra da situação. Mick e Keith iriam parar na cadeia e o meio artístico se mobilizaria: os Beatles dariam entrevistas, o Who gravaria um single com duas faixas dos Stones ("Under my thumb" e "Last time"), etc. Paralelamente, pipocariam boatos a respeito de orgias envolvendo os Stones e Marianne Faithfull, já que na hora da batida ela vestia apenas uma pele de leopardo surrada (chegaram a espalhar que Marianne estaria, no momento da ação policial, com um pedaço de chocolate enfiado na xoxota).
Só depois da libertação de Mick e Keith e da volta de Brian - que escapou da prisão por não estar lá no momento da batida - o grupo teria como continuar as gravações do disco. Só que fragmentado: era comum um integrante ir e os outros faltarem, ou mesmo três quintos dos Stones aparecerem no estúdio só para ficar de boresta. Um dia, estavam presentes apenas Bill Wyman e Charlie Watts (justamente os dois membros menos badalados do grupo), junto com o produtor e os técnicos de som. Acabaram registrando uma canção de Bill, a psicodélica "In another land" - a primeira música dos Stones a acabar com a hegemonia Jagger-Richards. "We love you", uma canção que Jagger escreveu na cadeia, serve como homenagem a todos que apoiaram a banda no episódio da prisão e tem John Lennon e Paul McCartney fazendo backing vocals não creditados - a música sai em um single, com a infantil "Dandelion" no lado B. As sessões se arrastam com a banda visivelmente aos pedaços - Brian totalmente siderado, em estado cada vez mais deplorável depois de ter perdido a namorada Anita Pallemberg para Keith Richards; Keith não menos drogado e sentindo-se culpado pelos problemas de Brian; a banda toda sentindo os baques e envolta numa teia de problemas psicológicos, acentuados pelo LSD. A nuvem negra em cima dos Stones era tão grande que Brian seria acusado até de envolvimento num assassinato, na época das gravações do disco - o guitarrista foi considerado suspeito apenas por estar fora de casa no mesmo momento em que estavam matando um homem, numa armação estranha e forçada da polícia.
O DISCO: nesse contexto surgiria o LP "psicodélico" dos Stones, Their Satanic Majesties Request (a idéia original do título foi recusada pela gravadora Decca, que deixou claro que não ia ajudar a banda a insultar a Rainha). Na capa, que trazia uma foto da banda em terceira dimensão, a aparência era a de que os Stones, ao invés de celebrar a cultura psicodélica - como o fizeram os Beatles - tinham se transformado em personagens de um ácido conto de fadas. O disco, mesmo gestado em meio a uma nuvem negra de problemas, conseguiu trazer bastante humor e alegria. Ao contrário do modelo de Sgt.Pepper´s, o disco dos Stones trazia uma psicodelia quase junkie, escancarada em faixas pesadas, sombrias e caóticas, de teor quase irônico. Se os Beatles tinham zoado os Stones colocando uma boneca na capa de Sgt.Pepper´s com a inscrição 'Welcome the Rolling Stones", os Stones devolviam a ironia espalhando as carinhas do quatro de Liverpool entre as flores da capa de Their Satanic Majesties Request - uma gozação que se perdeu, em parte, quando o disco foi lançado em CD e a capa foi miniaturizada.
FAIXA-A-FAIXA "IN ANOTHER LAND": Composta por Bill Wyman, foi o primeiro single do disco e uma das primeiras faixas a ser gravadas, por causa de um dia em que quase todo mundo da banda mandou o lima no estúdio. A intenção era assustar: a voz do baixista Bill Wyman, apesar de cantar uma balada de amor psicodélica, estava totalmente distorcida por um efeito de trêmulo - a atmosfera de sonho e de viagem era completada pelo barulho de uma pessoa roncando, no fim da faixa. "2000 MAN": Talvez uma das mais belas melodias da banda, em clima de country-rock, com uma grande interpretação de Mick Jagger. "SING THIS ALL TOGETHER (SEE WHAT HAPPENS)": Outra versão de "Sing this all togheter", só que com quase dez minutos e em clima de viagem psicodélica, totalmente improvisada. Na abertura, a melodia original da música é tocada numa ocarina, enquanto no fundo ouvem-se as vozes dos Stones e de uma mulher (Marianne ou Anita?) falando coisas como "flower power, hahaha" e "cadê o baseado?". A partir daí, o grupo (provavelmente Mick, Keith, Charlie e o tecladista Nicky Hopkins) se entrega a toscos improvisos de inspiração indiana, que culminam em sombrios efeitos de theremin e vocais distorcidos. "SHE´S A RAINBOW": O lado B abre com alguém anunciando um show que vai se iniciar, ee então vem "She´s a rainbow", uma belíssima canção de amor lisérgica que transcenderia o álbum - e acabaria sendo o segundo single do disco. Nesta música, os arranjos de cordas são feitos por um então desconhecido músico de estúdio, creditado no encarte como J.P. Jones - sim, ele mesmo, o baixista do Led Zeppelin. "THE LANTERN": A segunda faixa do lado B, meio folk, ganhou um arranjo climático, graças aos violões, à guitarra slide e a sinos no início da música. Tinha sido originalmente lado B do single "In another land". "GOMPER": O momento George Harrison do LP: claramente inspirada em "Within you without you" (do Sgt. Pepper´s), a faixa trazia Mick e Keith fazendo os vocais acompanhados por guitarra, cítara, flauta e tablas - a diferença é que a intimidade da banda com esse tipo de som era pouca ou nenhuma, o que resultou num indianismo quase punk (dá pra imaginar o autor do riff cru de "Satisfaction" tocando essas coisas? imaginou? pois é, é isso aí). O disco todo, aliás, vai meio que nessa base. "2000 LIGHT YEARS FROM HOME": A penúltima faixa do disco descrevia uma viagem lisérgica/interestelar usando uma base hard rock que lembrava temas de filmes policiais ou de terror - destaque para o baixo de Bill Wyman e para os efeitos de teclados inseridos por Brian ou por Nicky (não há créditos no encarte). "ON WITH THE SHOW": O disco fechava em clima de música de cabaret e pianistas de cinema mudo, lembrando bastante dessa vez os Beatles de Sgt. Pepper´s.
Em entrevistas,
Mick e Keith defendiam o disco, julgando-o mais extrovertido e político
que o dos Beatles. O fracasso do LP com a crítica fez com que
Brian - que desde o início havia sido contra a psicodelia no
som do grupo - voltasse a ter mais auto-confiança e também
tirou muito do cartaz de Mick Jagger, que temia perder sua liderança
para Brian. Em termos de vendagens, a banda não tinha muito do
que reclamar: Their Satanic... chegou a vender bem mais que Magical
Mystery Tour recém lançado LP dos Beatles.
|
M | ||||
| 2006. Freakium! e-zine. Todos os direitos reservados. | ||