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RITMO ALUCINANTE
por Andrea Ormond
Nelson Rodrigues diria o seguinte: “Dez anos, amigos, não são dez dias!” Portanto, todos os descontos devem ser dados a “Ritmo Alucinante” (1975), filme-registro do longínquo festival de rock realizado no campo do Botafogo, sob o patrocínio dos cigarros Hollywood, em fevereiro de 1975. Quase dez anos exatos antes do primeiro Rock in Rio (janeiro de 85) colocar milhares de pessoas assistindo a dezenas de shows nacionais e estrangeiros, o modesto festival de 75 não poderia ser mais improvisado: somente artistas nacionais, um espaço pequeno encravado na Zona Sul do Rio, e uma sensação de heroísmo no ar, do tempo em que Rita Lee dizia que “roqueiro brasileiro tinha cara de bandido”.
Bandidos
ou não, lá estavam a própria Rita, na flor dos
27 anos – com o grupo Tutti Frutti –, a banda Vímana
(de Ritchie, Lobão e Lulu Santos, quase imberbes), Erasmo Carlos,
Celly Campello, O Peso e, finalizando, Raul Seixas, em uma performance
espetacular. Grande parte disso foi registrada no filme e está pronta a ser apreciada. Uma óbvia inspiração de “Woodstock” – o documentário de Michael Wadleigh, feito seis anos antes – é evidente, e a chuva deve ter contribuído ainda mais para que o ouriço fosse lembrado. Mas não se iludam: o que “Ritmo Alucinante” mostra é a luta comovente de jovens do terceiro mundo, em um país fechado e paranóico, na tentativa de respirarem vida e criarem uma cultura única, de referências globais mas com o sabor de coisa local, bem brasileira. Essa questão acentua-se nas entrevistas que permeiam os números musicais, quando Scarlet Moon (futura esposa de um dos músicos presentes, Lulu Santos), conversa com os artistas e busca contextualizá-los para o espectador. Erasmo Carlos, por exemplo, surge reclamando da censura, de chapéu negro e cabelos compridos, sentado no meio do campo da Rua General Severiano. Logo depois Celly Campello está ao lado dele, ainda com um ar jovial de boa moça, contando um pouco da sua carreira para uma atenta (e também muito mocinha) Scarlet.3
A parte
principal é ocupada pelas apresentações: Rita Lee
aparece como um Ziggy Stardust renascido, inclusive nos trejeitos; o
Peso e Vímana estão na sintonia do público; e Celly
e Erasmo não ficam mal em roupagem setentista. Mas quase tudo
parece uma preparação para Raul Seixas – quando
o filme termina apoteótico.
Dirigido por Marcelo França, realizado com duas câmeras (uma fixa e outra em movimento) e imagem muito granulada, “Ritmo Alucinante” talvez seja o mais importante registro do rock brasileiro nos anos 70. Depois maiores e menores festivais vieram até que, em 1985, o país entrasse definitivamente na rota mundial deles. Só que os tempos eram outros e não coube ao cinema, mas à televisão, registrar o momento histórico.
E sob a perspectiva de 2006, quando o Brasil exporta seu know-how na
realização de mega-eventos e até os Rolling Stones
se apresentam em plena Praia de Copacabana, vale a pena lembrarmos da
época em que – no bairro vizinho, Botafogo – tudo
foi tão mais difícil e incerto. Graças ao faro
documental de alguns, a história começava a ser contada,
para deleite dos sortudos presentes e das futuras gerações. |
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