|
|
PARANOID
por Leonardo Bomfim
Eu só poderia estar em 1968, cada rua era um mundo. Em apenas alguns passos saí daquele trecho tranqüilo e me deparei com a multidão. POW! Aquele mar de gente segurando cartazes !!warpigs warpigs warpigs!! coquetéis molotov CRASH! sonhos, ilusões, “a revolução tem começo meio e fim mas não necessariamente nessa ordem” idéias rasgadas. Curiosamente, aquele panorama de guerra era uma manifestação contra a guerra. Os soldados camuflados com costeletas, olhos esbugalhados, cabelos compridos e “o baseado só depois da nossa vitória” as roupas brilhosas. O coro POW! entoava de forma fúnebre “in the fields the body isIburning as the war machine keeps turning! A polícia precisou de horas para conter aqueles jovens. Fiquei impressionado com tudo aquilo, generals gather in their masses just like witches at black masses aqueles hinos heroicamente desafinados. Perto de meu apartamento, vi uma movimentação estranha e um pouco de sangue no chão. Eram três jovens; duas mulheres, bonita/feia, cabelo escuro/cabelo ruivo, alta/alta, olhos castanhos/olhos azuis, atraente depois de uma garrafa/atraente depois de duas garrafas e um pequeno rapaz. De cara eu pensei na minha vida monótona, hey, você mora por aqui? acho que em cinqüenta anos eu não viveria o que aqueles loucos viveram em poucas horas. Na verdade, hey, você mora por aqui? o momento de maior emoção da minha vida foi uma patética tentativa de suicídio alguns hey, você mora por aqui?! meses atrás. Fiquei algumas semanas no hospital e depois voltei a minha vida de sempre. O casamento era deprimente HEY! Estou falando contigo! Ah, desculpe... Eu...- O casamento era deprimente, eu estava enlouquecendo aos poucos, Você mora por aqui? Uma das garotas está ferida... mas me sentia confortável Precisamos limpar o sangue e fazer um curativo. com uma mulher que me dava sexo e Eu moro sim, ali no final da rua sorrisos pontuais. Era cômodo não ser Vamos lá então! ninguém. Subimos os três lances de escada do prédio e entramos. Querido, estava preocupada, você demorou hoje.Quem são esses? Essa moça tá cheia de sangue?O que é isso?! Pode me explicar? Com quem você está andando? Eu não estou entendendo. Você tá metido com esses drogados? Não, não me diga. Eu não quero saber. Você sabe que é perigoso. Eu dedico a minha vida a você e seus problemas eu dedico a minha vida a você e seus problemas Eu dedico a minha vida a você e seus problemas Eu dedico a minha vida a você e seus problemas.Eu dedico a minha vida a você e seus problemas.Eu dedico a minha vida a você e seus problemas. Eu dedic Eu precisei fazer isso. Terminei com a minha mulher porque ela não podia me ajudar com os problemas da minha mente. Eu não a culpava, ela só era incapaz de perceber que eu não conseguia ver as coisas que tornavam a felicidade real. O trio heróico me convidou Hey cara, você pode passar a noite com a gente, o chão é confortável já que eu não tinha nenhum canto para cair morto. Eles moravam no parte boemia da cidade, bem longe, várias estações de metrô, do trecho pacato de meu apartamento. Na porta do prédio deles, alguns amigos hippies trocaram recados e algo mais. O apartamento era bem pequeno, um quarto e sala, cheio de cartazes soviéticos, chineses, Bob Dylan, Godard, Stones, poetas beatniks e outros delírios. Ao chegar uma das moças acendeu um baseado e colocou um disco na vitrola Sometimes, I wonder THIS IS BLUE CHEER BABE! what I'm gonna do But there ain't no cure, For the summertimes blues. Foi quase um questionário que eu respondi. Eu era um alienígena ali naquele lugar, sentia uma mistura de liberdade com agonia, mas aquilo estava me fazendo bem. Os sorrisos do trio eram tão improvisados que eu ainda não tinha conseguido enxergar direito os seus dentes. Eles estavam curiosos o que você faz? sobre a minha pessoa, você já tomou LSD? sobre a minha caretice, qual a sua favorita dos Stones? a minha ignorância, A Bout de Souffle ou La Chinoise? a minha cegueira, Você é casado há quantos anos? a minha doença, hahahaha a minha falta de vida. O rapaz pequeno piscou o olho e disse que iria acabar com isso. Mandou-me fechar os olhos, abrir a boca e tacou algo lá dentro. O gosto amargo me incomodou e eu perguntei o que era aquilo. Para agüentar a vida, é preciso fugir dela de vez em quando. Esse é o lema, senão nós já estaríamos mortos. Drop Out! Isto é ácido lisérgico.
E
começou. Mesmo sob o teto do apartamento, eu velejava por céus infinitos,
as estrelas brilhavam como os olhos azuis da jovem mulher ruiva. A noite
escura suspirava, a lua surgia entre em árvores prateadas, me sentia em
um outro planeta. É só o começo man! Prepare-se pra entrar em órbita no
Planet Caravan, olhe para o pôster! Eu não tinha reparado, havia um cartaz
de um filme B lá, mas aquilo era real. Eu sentia meus dentes derretendo
como manteiga, minhas unhas estavam fosforescentes, sempre em órbita!
sempre em órbita! sempre em órbita!. eu girava, girava, girava, mais rápido,
mais lento, mais rápido, mais lento, parava, girava novamente, sentava.
Estava passeando pelo universo. O olho vermelho do Deus Marte acenava
para mim. Hello Goodbye!
Passado um primeiro momento de susto & euforia interplanetária, fechei
os olhos e tentei me tranqüilizar............ Eu estava deitado no chão e me sentia pesado, minha perna sugeria
algumas toneladas, não consegui me mexer. Meu corpo estava duro,
paralisado, estático, me sentia um homem totalmente feito de
aço. E ainda por cima ouvia vozes ao meu lado, vozes familiares…
A minha mãe Ele ficou doido? ele pode ver ou está cego?
Ele pode caminhar; se ele se mover, ele cairá?Foram as palavras
que ouvi no hospital há algum tempo. Ele está vivo ou
está morto? Ele tem pensamentos dentro da cabeça? Parecia
que eu estava novamente em coma. Eu podia ouvir tudo, mas não
sentia nada, meu corpo estava pesado e dormente, minhas pálpebras
grudadas, meus dedos congelados. As vozes ficavam confusas, sons distorcidos,
entrelaçados, em rotação alterada, de repente ficavam
mais altas, mais baixas, !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! berRAAAAADas !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Eu consegui reunir forças e mexi meus poderosos braços de aço. Com apenas um dedo derrubei todas as vozes que me enchiam. Em botas de chumbo acertei minha vingança em cheio. Entre mortos e feridos, estavam todas as pessoas que conhecia. Naquele momento senti a vibração de uma luz estranha. Era um aparelho de T.V. Os meus três jovens amigos estavam sentados no chão rindo de um discurso do presidente dos Estados Unidos Lyndon Johnson. Os três brincavam de adivinhar o futuro. sombrio com mentes robóticas de robôs escravos girl, você é tão admirável quanto nova. flores de plástico, quanta poesia! e o mundo agonizando em radiação. Oh yeah! Os três começaram a dançar e encenaram um funeral. Uma das moças deitou morta ao som de If 6 Was 9 Now if uh, six uh, huh, turned out to be nine Oh I dont mind, I dont mind uh well all right...If all the hippies cut off all their hair Oh I dont care, oh I dont care.. Eu perguntei a eles o que significava aquilo. Baby, depois de Thomas Edison vem Hendrix, novamente é a era da eletricidade. Nascemos elétricos e seremos enterrados mais elétricos ainda. Eu olhava fixo para a luz que vinha da televisão. Em um piscar de olhos o presidente norte-americano virava uma mancha caleidoscópica …amarelavermelhaazulverdelaranja… Não
agüentava mais aquela luz clara explodindo em meus olhos e fui
para o quarto escuro. Procurei a cama e deitei para tentar relaxar um
pouco, eu suava como se estivesse dançando na chuva. Fechei os
olhos e comecei a ver cores dentro das minhas pálpebras. Eram
pequenos círculos que iam ficando borrados gradativamente. Enquanto
os maravilhosos tons de vermelho bailavam, eu pensava as cores da minha
mente me satisfazem o tempo inteiro, poderia ficar a vida inteira olhando
este balé rubro. Uma vibração irreverente surgiu
e notei uma mão em meu ombro. Era uma das moças, falando
alguma língua completamente estranha; ia uem roma uem oãset,
uov et rapuhc ohnidot sod sép a açebac. Estava achando
cômico e gostei quando aquela mão fina começou a
me acariciar. Não sabia qual das duas moças estava li
como minha amante, mas adorava de qualquer maneira. Sentia seus pequenos
seios quando aquela bela língua derreteu em minha boca. Foi o
grande beijo da minha vida; segundos indescritíveis. E ela desapareceu.
Fiquei procurando no escuro, mas nada. E foi ali que comecei a me sentir
estranho com um... pouco de enjôo muito... confuso, uma tonteira
quevinhacomumsom... agudo em, meu cérebro! Notei que girando
meu braço, estava... esverdeado um verde girando que ia ficando
mai-s-s-s forte. e girando uma coceira horrível. As manchas verdes
começaram a tomar conta do meu corpo inteiro a coceira insuportável
me tirava do sério tufos de pêlos girando caindo em minhas
mãos meu cabelo também Os três jovens correram até o quarto e notaram a minha situação assustadora e patética. Para eles isso era normal e lá foi balde d´água na minha cara. Levaram-me até o chuveiro e me jogaram na água bem gelada. Eu me senti muito melhor, a água me dava choques purificadores. Eu respirava firme apesar do restinho de tonteira. E chorava como um bebê, de alegria ou sei lá o que. A ruiva fez um carinho terno no meu rosto e eu realmente me senti um bebê. O pequeno rapaz anunciou que a comida estava na mesa; eles disseram que era bom eu comer algo. você vai se sentir melhor Eu me sentiria melhor com qualquer distração. Veio uma bandeja com verduras, legumes e outros temperos, esses hippies vegetarianos... Eu devorei a salada, apesar do gosto amargo. Havia ali um cheiro forte e muito estranho. Perguntei ao jovem o qual era a receita daquela comida leve. Ele puxou um rabinho da bandeja e sorriu SALADA DE RATO! Foi ali que a ruiva surgiu com outra bandeja enorme e a colocou na mesa. Quando abriram, a surpresa: era eu! Completamente dominado por aquele ambiente sedutor, empunhei garfo e faca e comecei a comer os pedaços mais apetitosos de meu próprio corpo. Foi ali que apaguei. - Doutor,
eu não estou maluco. Era tudo real. Eu ainda os escuto de vez
em quando...
|
|||||
| 2006. Freakium! e-zine. Todos os direitos reservados. | ||