MILTON NASCIMENTO
MILTON (1970)

 



 

 

por Leonardo Bomfim

 

Os primeiros momentos do disco trazem um explosivo hino fuzz, recado direto e brilhante a Lennon & McCartney, enquanto os derradeiros minutos choram numa bossa fossa já não nova, em interpretação inigualável. Este é “Milton”; o terceiro disco de Milton Nascimento, momento da grande guinada na sua carreira.

A partir de 1968, quando o Tropicalismo destruiu todas as estruturas caretas da música tupiniquim, muita gente ficou perdida. Não havia mais espaço para a chamada música tradicional brasileira; sem instrumentos elétricos, com violão em primeiro plano e restrições à cultura pop... Enfim, era preciso urgentemente se renovar. O primeiro disco de Milton após o boom do movimento de Caetano e cia, (Milton Nascimento/1969), já nascia um pouco defasado. As canções são lindas, “Sentinela” e “Beco do Mota” estão entre as melhores já gravadas por ele, mas faltava alguma coisa. E foi no ano seguinte que esta coisa apareceu em grande estilo.

 

 

O disco “Milton” de 1970 trazia logo de cara duas novidades: a presença do excepcional Som Imaginário como grupo de apoio e a estréia do adolescente Lô Borges em algumas composições. O resultado foi um frescor juvenil que contaminou todos os sulcos do LP, era o empurrão que faltava para o som de Bituca entrar em sintonia com a música psicodélica daquele momento. E isso fica bem claro na regravação de “Pai Grande”, que aparecia no disco anterior em belíssima e discreta versão. Já no disco de 70, “Pai Grande” ganha uma aura transcendental. Os solfejos do cantor cortam a alma, enquanto o Som Imaginário arrebenta nas experimentações. Em alguns momentos, a impressão é que o disco foi tele transportado para alguma savana africana, em outros, o coro grave e as microfonias de guitarra remetem às torturas de uma viagem em um navio negreiro.

No livro “Os Sonhos Não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina”, o letrista Márcio Borges conta que Zé Rodrix, um dos integrantes da primeira formação do Som Imaginário, quase precisou ser amarrado para não tomar o disco pra ele. Realmente, o encarte até impressiona: Zé Rodrix - Órgão, Flauta Block Tenor, Ocarina, Assovios de Caça, Flauta Tenor Transversa, Percussão, voz...

Com o Som Imaginário (Zé Rodrix + Wagner Tiso + Tavito + Fredera + Luís Alves + Robertinho Silva) tocando o diabo no estúdio, as coisas ficaram mais fáceis para Milton. “Canto Latino” e “Durango Kid” partem da voz e violão e descambam em folk-rock especialmente tupiniquim. Já “Amigo, Amiga”, (com percussão de Naná Vasconcelos) uma balada lenta e climática, poderia muito estar entre as músicas do clássico Forever Changes, da banda californiana Love.

 


Milton e Lô Borges

 

E ainda havia Lô Borges! O jovem compositor nasceu ali com três pérolas. “Para Lennon & McCartney” arrebenta com seu climão garageiro (méritos novamente para Zé Rodrix que bolou grande parte do arranjo). A célebre letra (de Márcio Borges e Fernando Brandt) recheada de versos pungentes como “porque vocês não sabem do lixo ocidental” deu à música o status de hino do Clube da Esquina. Também há “Alunar”, um rock psicodélico de letra doidona escrita por Márcio. É interessante notar que Milton evoluiu junto com seus principais letristas. A partir de 1970, a poesia de Márcio e Fernando Brandt ganhou ares espaciais. Singela e melancólica, “Clube da Esquina” fecha o power trio das composições do menino Lô (esta em parceria com Milton e Márcio). A esquina entre as ruas Divinópolis e Paraisópolis, local em que aquela turma gastava o tempo tocando, batendo papo e se chapando, acabou eternizada nesta memorável canção.

Depois de tantas loucuras, guitarras psicodélicas e letras surreais, encerra “Milton” a bossa fossa não tão nova do primeiro parágrafo. Uma intimista e definitiva versão para “A Felicidade” (Tom Jobim/Vinicius), que felizmente teve os literalmente tristes versos “tristeza não tem fim/felicidade sim” esquecidos por Bituca, carimba o selo de discoteca básica na obra. A versão em cd perde grande parte do charme da linda capa dupla criada por Kélio Rodrigues, mas em compensação traz as canções da trilha do filme “Tostão, A Fera de Ouro” como bônus-tracks. O destaque é o sambão “Aqui é o País do Futebol”, famosa na interpretação de Wilson Simonal.

“Milton” foi o pontapé inicial de uma incrível seqüência de discos bastante experimentais. Seguindo na década de 70, Bituca abraçou Lô de vez e lançou, em parceria com o garoto, o renomado e histórico “Clube da Esquina”, que ao lado de outras obras como “Milagre dos Peixes” e “Minas”, começou a despertar o interesse e o fanatismo de muita gente. Toda essa gente que não consegue mais viver sem a harmonia, a poesia e a autenticidade deste apaixonante lixo ocidental.

 

 

M
     

 

 
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